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Autoria, data e contexto
O Primeiro Livro dos Reis (em hebraico Sefer Melakhim, na Septuaginta Basileion Trite e na Vulgata Terceiro Livro dos Reis) formava originalmente com 2 Reis um único rolo contínuo no cânon hebraico, situado na seção dos Profetas Anteriores (Nevi'im Rishonim). O tratado talmúdico Bava Batra 15a atribuiu tradicionalmente sua autoria ao profeta Jeremias. A erudição bíblica moderna, a exemplo de S. R. Driver, Andrew E. Hill e J. Alberto Soggin, classifica a obra como produto da historiografia deuteronomista (Dtr), elaborada durante o exílio babilônico entre a destruição de Jerusalém (587/586 a.C.) e o edito de Ciro (539 a.C.), com conclusão por volta de 550 a.C. após a libertação de Joaquim por Evil-Merodaque.
O redator compôs o texto na Palestina ou na Babilônia com finalidade catequética e teológica para confortar os cativos e demonstrar que a derrocada nacional não resultou de falha divina, mas da violação continuada da aliança mosaica pelos monarcas. A obra baseou-se em fontes documentais prévias explicitamente nomeadas: o Livro dos Atos de Salomão (1 Reis 11,41), o Livro das Crônicas dos Reis de Israel e o Livro das Crônicas dos Reis de Judá.
Estrutura
O livro desdobra-se canonicamente em vinte e dois capítulos, abrangendo cerca de cento e vinte anos da história monárquica israelita, desde a velhice de Davi até a regência de Acazias em Samaria.
O plano narrativo reparte-se com clareza em três blocos sucessivos. O primeiro bloco (capítulos 1 a 11) descreve a consolidação do trono de Salomão, a construção e dedicação solene do Templo de Jerusalém, o fausto administrativo e a posterior decadência moral e religiosa do soberano. O segundo bloco (capítulos 12 a 16) relata o cisma sob Roboão e Jeroboão, seguido da crônica sincronizada dos reinados paralelos de Judá e de Israel, regidos por fórmulas fixas de ascensão, juízo teológico e sepultamento. O terceiro bloco (capítulos 17 a 22) é dominado pela epopeia profética de Elias o tisbita, marcada pelos confrontos abertos contra a apostasia idolátrica do rei Acabe e de Jezabel até a morte do monarca em Ramote-Gileade.
Temas e passagens-chave
O princípio teológico diretor é a avaliação de cada monarca segundo os preceitos do Deuteronômio: a fidelidade exclusiva a Iahweh, a centralização do culto sacrificial no santuário legítimo de Jerusalém e a abolição taxativa dos altos pagãos (bamot). A obra enfatiza a soberania irrestrita da palavra profética, estruturada em profecias divinas infalivelmente cumpridas nos acontecimentos geopolíticos.
Dentre os relatos fundamentais salientam-se a oração de Salomão em Gibeão requerendo coração compreensivo para governar (capítulo 3), o julgamento perspicaz entre as duas meretrizes (capítulo 3), a grandiosa liturgia de dedicação do Templo (capítulo 8), o rasgar profético do manto de Aías de Siló em doze partes entregando dez a Jeroboão (capítulo 11), a descida do fogo celeste sobre o altar no Monte Carmelo (capítulo 18) e a revelação divina a Elias na brisa suave do Monte Horebe (capítulo 19).
Resumo por partes
A sucessão de Davi e o esplendor de Salomão (capítulos 1-11): O profeta Natã e Bate-Seba frustram o golpe de Adonias, assegurando a unção de Salomão; o novo rei estabelece doze distritos tributários, firma pacto madeireiro com Hirão de Tiro e constrói o Templo durante sete anos; no auge da glória, recebe homenagens da rainha de Sabá, mas no ocaso da vida tolera altares idólatras construídos para suas consortes gentílicas, atraindo a advertência profética de retalhamento do reino.
A divisão do império e as dinastias setentrionais (capítulos 12-16): A intransigência de Roboão em Siquém deflagra a secessão de dez tribos sob Jeroboão, que erige bezerros de ouro em Betel e Dã; desenrola-se a sucessão intercalada de governantes juditas (Abias e o piedoso Asa) e soberanos nortistas marcados por assassinatos de corte (Nadabe, Baasa, Elá e Zinri), até a chegada de Onri, construtor de Samaria, sucedido por Acabe, que oficializa o baalismo fenício.
O ministério de Elias e o declínio de Acabe (capítulos 17-22): Elias proclama seca rigorosa, opera milagres de sustento em Sarepta e triunfa publicamente sobre os sacerdotes de Baal no Carmelo; perseguido por Jezebel, viaja ao Horebe onde Deus ordena a unção de Eliseu; Acabe usurpa a vinha de Nabote após tramóia homicida de sua rainha, atraindo sentença de extermínio dinástico que culmina com sua queda fatal na batalha de Ramote-Gileade frente aos arameus.
Recepção
No judaísmo, 1 Reis foi integrado na coleção dos Profetas Anteriores, fornecendo leituras fundamentais das Haftarot que acompanham as porções sabáticas da Torá na sinagoga (notadamente o julgamento de Salomão e o confronto do Carmelo). O Novo Testamento evoca amplamente seus personagens: Jesus menciona a sabedoria e as vestes esplêndidas de Salomão e a fé da viúva de Sarepta (Lucas 4,25-26; Mateus 6,29; 12,42), enquanto o apóstolo Tiago ressalta a oração perseverante de Elias pelo fechamento e abertura dos céus (Tiago 5,17-18).
A transmissão textual apoia-se no Texto Massorético hebraico e em antigos testemunhos das cavernas de Qumran (fragmentos 5Q2 e 6Q4). A versão grega da Septuaginta (preservada no Codex Vaticanus e no manuscrito Lucianico L) exibe ordenação divergente em seções dos capítulos 4 a 10 e antecipa o episódio da vinha de Nabote, constituindo documento basilar para investigações críticas desenvolvidas por Rudolf Kittel e Immanuel Benzinger.
Fontes
- Isidore Singer; M. Seligsohn; Emil G. Hirsch; George A. Barton, Kings, Books of (1906).
- Peter Kirby; Andrew E. Hill; Peter F. Ellis; J. Alberto Soggin, 1 Kings (Early Jewish Writings) (2013).