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Autoria, data e contexto
O Primeiro Livro de Samuel integrava originariamente com o Segundo Livro de Samuel um único rolo ininterrupto entre os Profetas Anteriores da Bíblia hebraica (Nevi'im Rishonim). A partição do texto em dois tomos independentes foi introduzida pela versão grega da Septuaginta (sob os títulos de Primeiro e Segundo Livro dos Reinos), adotada por São Jerônimo na Vulgata Latina (Primeiro e Segundo Livro dos Reis) e fixada nas edições hebraicas impressas a partir da Bíblia de Daniel Bomberg em Veneza (1516-1517). O tratado talmúdico Bava Batra 14b-15a atribuiu tradicionalmente a autoria dos capítulos 1 a 24 ao próprio profeta Samuel, e os capítulos restantes aos videntes Gade e Natã, tomando por base 1 Crônicas 29:29.
A moderna pesquisa histórico-crítica, documentada por exegetas como Emil G. Hirsch, James King West, Samuel Sandmel e Robert L. Cohn, rejeita a autoria presencial direta e reconhece que 1 Samuel é uma obra compósita estruturada a partir de múltiplos ciclos documentais prévios: as memórias do santuário de Siló sobre a infância de Samuel (capítulos 1 a 3), a história autônoma da Arca da Aliança (capítulos 4 a 6), uma tradição monárquica arcaica do século X a.C. favorável a Saul, e um estrato profético antimonárquico dos séculos VIII e VII a.C. O conjunto foi reunido e articulado por redatores da escola deuteronomista (Dtr) pouco antes ou durante o Exílio Babilônico (século VI a.C., por volta de 550 a.C.), refletindo a dramática transição da confederação tribal dos Juízes para a instituição monárquica sob a exigência teológica de submissão do rei terreno à aliança de Iahweh.
Estrutura
O livro desdobra-se canonicamente em exatamente trinta e um capítulos, divididos em trinta e quatro sedarim de acordo com as anotações da Massorá hebraica tradicional.
Emil G. Hirsch e a tradição exegética estruturam a narrativa em três blocos orgânicos sucessivos: a época de Eli e a juventude de Samuel (capítulos 1 a 7, cobrindo o nascimento de Samuel, a perda e o retorno da Arca e a vitória em Mispá); o ministério profético de Samuel e a instauração da realeza sob Saul (capítulos 8 a 15, compreendendo o pleito popular pelo monarca, a escolha de Saul e sua posterior rejeição em Gilgal); e a tragédia de Saul em contraste com a ascensão providencial de Davi (capítulos 16 a 31, desde a unção clandestina em Belém e a perseguição nos desertos até a consulta à necromante de En-Dor e a derrota fatal no Monte Gilboa).
Temas e passagens-chave
O tema teológico nuclear reside na dialética entre a soberania absoluta de Deus e a aspiração humana pela monarquia: a petição de um soberano é encarada como repúdio à realeza direta de Iahweh, mas a instituição real é permitida sob a condição inegociável de obediência moral e religiosa à Lei divina mediada pelos profetas. Sobressai a advertência lapidar de que ritos sacrificiais desprovidos de fidelidade ética são vazios, expressa na célebre resposta de Samuel no capítulo quinze: "o obedecer é melhor que os sacrifícios".
Constituem passagens fundamentais o sublime Cântico de Ana proclamando que Deus abate os orgulhosos e eleva os desvalidos (capítulo 2); a teofania noturna no santuário com a resposta de Samuel: "Fala, SENHOR, que teu servo ouve" (capítulo 3); o grito fúnebre da esposa de Fineias nomeando o filho Icabode após o roubo da Arca (capítulo 4); a sentença divina a Samuel de que "o homem olha o que está diante de seus olhos, mas o SENHOR olha o coração" (capítulo 16); e o heroico combate de Davi contra o campeão filisteu Golias mediante a funda de pastor (capítulo 17).
Resumo por partes
Ministério de Samuel e as tribulações da Arca sagrada (capítulos 1-7): Ana, angustiada pela esterilidade, implora por um herdeiro em Siló e consagra o menino Samuel ao serviço do Templo; enquanto os filhos do sacerdote Eli, Hofni e Fineias, violam as oferendas rituais e corrompem o santuário, Deus chama Samuel à noite e revela o castigo fatal da casa sacerdotal; em combate contra os filisteus em Afeca, Israel é desbaratado, os dois filhos de Eli morrem e a Arca é capturada, provocando a queda letal de Eli e o parto fúnebre de Icabode; atormentados por pragas dolorosas nas cidades de Asdode e Gate, os chefes filisteus devolvem a Arca em um carro novo puxado por vacas até Bete-Semes e Quiriate-Jearim; Samuel convoca a nação ao arrependimento em Mispá, derrota o inimigo e consagra a pedra Ebenézer.
A eleição monárquica e a desobediência fatal de Saul (capítulos 8-15): Diante da conduta gananciosa dos filhos de Samuel, os anciãos exigem um soberano para guiar as guerras; advertidos sobre o peso dos tributos reais, persistem no pedido e Deus conduz Saul, que procurava jumentas desgarradas, ao encontro de Samuel em Ramá; ungido privadamente e aclamado em Mispá, Saul consolida seu prestígio ao libertar Jabes-Gileade das mãos dos amonitas; Samuel profere seu solene balanço ministerial, advertindo que o destino do povo e do trono depende da submissão a Deus; em confronto armado contra os filisteus em Micmás, Saul precipita-se ao queimar holocaustos ilegais antes da chegada do profeta, atraindo a advertência de que sua dinastia não perdurará; na campanha contra Amaleque, Saul desobedece a ordem de aniquilação total ao poupar o rei Agague e o melhor gado, resultando na ruptura definitiva com Samuel e na condenação divina de sua realeza.
A unção de Davi, façanhas bélicas e a cólera de Saul (capítulos 16-20): Enviado por Deus a Belém, Samuel unge o jovem pastor Davi entre seus irmãos; acometido por melancolia e crises psíquicas, Saul acolhe Davi na corte como harpista para acalmá-lo; no vale de Elá, desafiando a arrogância de Golias, Davi abate o guerreiro gigante com uma pedra de funda e lidera a perseguição militar; a aclamação das multidões exaltando os feitos de Davi desperta inveja doentia em Saul, que atira lanças contra ele e tenta entregá-lo aos filisteus estipulando um dote perigoso para o casamento com Mical; Jônatas forja uma aliança inquebrantável com Davi e avisa-o das intenções assassinas de seu pai, auxiliando o amigo a escapar da corte.
Fugas nos ermos da Judeia e a derrocada em Gilboa (capítulos 21-31): Davi refugia-se em Nobe, onde o sacerdote Aimeleque lhe fornece os pães sagrados e a espada de Golias; fingindo demência perante o rei Aquis de Gate, Davi agrupa proscritos na caverna de Adulão, enquanto Saul ordena a Doegue o edomita o massacre de oitenta e cinco sacerdotes de Nobe; perseguido tenazmente pelas gargantas de Zife e En-Gedi, Davi poupa a vida de Saul por duas vezes, afirmando não tocar no ungido do Senhor; Samuel falece em Ramá; após o casamento com a sábia viúva Abigail, Davi estabelece-se em Siclaque com os filisteus; acossado por invasores e desamparado pelo silêncio divino, Saul recorre secretamente à necromante de En-Dor, cujo espectro de Samuel anuncia sua morte iminente; no dia seguinte, no Monte Gilboa, os filisteus massacram as fileiras de Israel, matam Jônatas e Saul comete suicídio sobre sua própria espada, sendo seus despojos resgatados heroicamente das muralhas de Bete-Seã pelos homens de Jabes-Gileade.
Recepção
No judaísmo, 1 Samuel integra a coletânea sagrada dos Profetas Anteriores, desempenhando papel crucial na liturgia sinagogal através de leituras das Haftarot que acompanham o calendário festivo, com destaque para a proclamação do Cântico de Ana no primeiro dia de Rosh Hashaná como paradigma de oração fervorosa. No cristianismo, o livro é acolhido como texto canônico indispensável do Antigo Testamento, fornecendo a base histórica e tipológica para a genealogia do Messias filho de Davi e inspirando diretamente a composição do Magnificat da Virgem Maria em Lucas 1:46-55.
A tradição textual apoia-se primariamente no Texto Massorético hebraico e na tradução grega da Septuaginta (preservada no Codex Vaticanus e no Codex Alexandrinus). A descoberta dos rolos bíblicos nas cavernas de Qumran no Mar Morto (em particular os manuscritos 4QSam-a e 4QSam-b do século I a.C.) revelou testemunhos hebraicos com leituras mais completas e arcaicas que coincidem notavelmente com o texto-base da Septuaginta em relação a omissões e corrupções do Texto Massorético tradicional, sustentando as investigações críticas modernas de Julius Wellhausen, S. R. Driver e Frank Moore Cross.
Fontes
- Emil G. Hirsch, Samuel, Books of (1906).
- Peter Kirby; Robert L. Cohn; Samuel Sandmel; James King West; J. Alberto Soggin, 1 Samuel (Early Jewish Writings) (2013).