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Autoria, data e contexto
O Segundo Livro das Crônicas (no cânon hebraico integrado originariamente em Divrei ha-Yamim, 'Os acontecimentos dos dias', e denominado Paralipomenon na Septuaginta e na Vulgata) formava com 1 Crônicas uma obra contínua. A tradição rabínica preservada no tratado talmúdico Bava Batra 15a atribuiu a composição das Crônicas a Esdras, o escriba. No entanto, a crítica histórica e literária moderna classifica a obra como anônima, atribuindo-a a um autor ou círculo sacerdotal e levítico convencionalmente designado como 'o Cronista'.
Quanto à cronologia e ao ambiente de produção, pesquisadores como S. R. Driver, Emil G. Hirsch e William H. Bennett situam a redação final do texto no período persa tardio ou no início da época helenística, por volta de 350 a 300 a.C., após o retorno do cativeiro na Babilônia. O contexto histórico é o da comunidade judaica pós-exílica em torno do Segundo Templo de Jerusalém, necessitada de reafirmar sua identidade cúltica, a legitimidade do sacerdócio arónico e levítico e a continuidade da promessa dinástica davídica sob o domínio imperial persa.
Estrutura
O livro compõe-se canonicamente de trinta e seis capítulos, concentrando-se na história da monarquia de Judá desde a ascensão de Salomão até o decreto de libertação promulgado por Ciro, o Grande.
A narrativa está articulada em três blocos principais bem definidos. O primeiro bloco compreende os capítulos 1 a 9, dedicados integralmente à magnificência de Salomão, com foco prioritário no planejamento, edificação e consagração solene do Templo de Jerusalém. O segundo bloco abrange os capítulos 10 a 28, estendendo-se desde o cisma político sob Roboão até o reinado infiel de Acaz, narrando exclusivamente a sucessão dinástica em Judá e enfatizando a fidelidade cúltica de reis como Asa, Josafá, Joás e Uzias. O terceiro bloco engloba os capítulos 29 a 36, dominado pelas reformas religiosas de Ezequias e Josias, seguido pela rápida decadência moral sob os últimos monarcas, a destruição do Templo pelos babilônios e a proclamação final de restauração por Ciro.
Temas e passagens-chave
O princípio teológico diretor de 2 Crônicas é a doutrina da retribuição imediata: cada soberano colhe prosperidade ou calamidade em sua própria vida conforme sua fidelidade à Lei mosaica e a busca sincera de Deus no santuário legítimo. Ao contrário dos Livros dos Reis, o Cronista ignora quase inteiramente os monarcas do reino do Norte, considerando-os apóstatas, e focaliza a aliança com a linhagem de Davi e o papel litúrgico dos levitas e cantores sagrados.
Dentre as passagens e episódios culminantes destacam-se a promessa divina feita a Salomão após a dedicação do Templo em 2 Crônicas 7,14 sobre o perdão e saramento da terra mediante a humilhação e a oração do povo; a vitória milagrosa de Josafá no deserto de Tecoa ao entoar louvores sagrados frente a uma grande coalizão inimiga (capítulo 20); a oração e o surpreendente arrependimento do idólatra Manassés no cativeiro assírio (capítulo 33); a comovente redescoberta do Livro da Lei nos dias de Josias (capítulo 34); e o encerramento com o edito de Ciro em 2 Crônicas 36,22-23.
Resumo por partes
O reinado de Salomão e a edificação do Templo (capítulos 1-9): Salomão busca sabedoria em Gibeão e Deus lhe concede inteligência extraordinária e grande riqueza. O rei firma parceria com Hurão de Tiro, recruta operários e constrói o Templo no Monte Moriá. Durante a consagração outonal, o fogo celeste consome os holocaustos e a glória divina enche a casa. Deus confirma a aliança noturna com a célebre promessa condicional de restauração. A rainha de Sabá visita Jerusalém maravilhada com a sabedoria salomônica, coroando um relato que omite deliberadamente as faltas e idolatria tardia do soberano.
Do cisma nacional ao reinado de Acaz (capítulos 10-28): A resposta arrogante de Roboão provoca a secessão das dez tribos do Norte, restando a Judá e Benjamim o apoio dos levitas fugitivos. Seguem-se reinados de luzes e sombras avaliados pelo padrão do culto: Abias vence Jeroboão confiando em Deus; Asa purifica o país mas erra ao recorrer à Síria; Josafá institui tribunais de justiça levítica e triunfa militarmente pelo louvor; Jeorão, Acazias e a usurpadora Atalia trazem ruína dinástica, contida pelo sumo sacerdote Joiada que coroa Joás; Uzias prospera tecnologicamente mas contrai lepra ao usurpar o incenso sacerdotal; e Acaz entrega-se à apostasia desastrosa.
As grandes reformas, o exílio e o decreto de Ciro (capítulos 29-36): Ezequias reabre e purifica o Templo, reata a grande celebração da Páscoa com convite aos remanescentes de Israel e é salvo do cerco de Senaqueribe. Manassés mergulha a nação em abominações, mas arrepende-se sinceramente quando aprisionado em ferros em Babilônia, sendo restaurado ao trono. O jovem Josias conduz renovação nacional expurgando ídolos após o achado do Livro da Lei. Os monarcas finais mostram obstinação, culminando na invasão babilônica de Nabucodonosor, no incêndio do santuário e na deportação de Judá, até que o decreto de Ciro o persa autoriza a reconstrução sagrada.
Recepção
No judaísmo, as Crônicas foram acolhidas na terceira divisão canônica, os Escritos (Ketuvim), frequentemente posicionadas como o último livro da Bíblia hebraica, atuando como um resumo escatológico e teológico de toda a história bíblica que aponta para a reconstrução do Templo. No cristianismo antigo, a obra foi conservada na Septuaginta sob o nome de Paralipomenon ('coisas omitidas' ou suplementares aos Livros dos Reis), sendo situada logo após 2 Reis, ordem adotada pela Vulgata de São Jerônimo e pelas bíblias ocidentais.
A tradição manuscrita hebraica funda-se no Texto Massorético e em escassos testemunhos fragmentários descobetos em Qumran (notadamente o rolo 4Q118 / 4QChr). A versão grega da Septuaginta preserva-se em códices unciais do quarto e quinto séculos, como o Vaticanus, Sinaiticus e Alexandrinus. O relato da penitência de Manassés influenciou fortemente a piedade devocional judaica e cristã, gerando o texto apócrifo da Oração de Manassés.
Fontes
- Emil G. Hirsch; W. H. Bennett, Chronicles, Books of (1906).
- Francis E. Gigot, The Books of Paralipomenon (Chronicles) (1911).
- Encyclopaedia Britannica, Books of the Chronicles (2024).