LUX VERITAS

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Apócrifos

Segunda Apologia de Justino

Apologia Cristã

15 capítulos · leitura e narração

Nota de leitura

Texto apócrifo ou pseudepígrafo — não faz parte do cânone das igrejas ocidentais, mas circulou amplamente entre judeus e cristãos antigos. Texto em inglês: Ante-Nicene Fathers, vol. 1, The Second Apology, Marcus Dods and George Reith, 1885 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: Ante-Nicene Fathers, vol. 1, The Second Apology, Marcus Dods and George Reith (1885) · domínio público

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Autoria, data e contexto

A Segunda Apologia é uma obra apologética grega autêntica de São Justino Mártir, filósofo cristão natural de Flávia Neápolis na Samaria que fundou uma escola filosófica em Roma. A autoria é plenamente atestada por seu discípulo Taciano no Discurso aos Gregos, por Santo Irineu de Lião e pelo historiador Eusébio de Cesareia na História Eclesiástica (IV, 16-17).

Quanto à datação e ocasião histórica, Georges Goyau e a crítica patrística situam a redação em Roma por volta de 155 a 161 d.C., no final do principado de Antonino Pio e antes da morte deste imperador em 161 d.C., ou no início da regência conjunta de Marco Aurélio. O motivo imediato da composição foi o julgamento sumário e execução capital infligidos pelo prefeito urbano Quinto Lólio Úrbico (que governou Roma entre 144 e 160 d.C.) contra Ptolomeu, Lúcio e um terceiro cristão, condenados exclusivamente por confessarem o nome cristão. Justino dirige seu apelo ao Senado romano e aos imperadores, antecipando que ele próprio seria martirizado em virtude de intrigas do filósofo cínico Crescente.

Estrutura

A Segunda Apologia compõe-se de quinze capítulos curtos nas edições modernas, funcionando historicamente como uma petição urgente e apêndice suplementar à Primeira Apologia de Justino.

O discurso desdobra-se em três partes lógicas encadeadas. A primeira parte (capítulos 1 a 3) expõe a ocasião histórica dos martírios recentes sob o prefeito Úrbico e denuncia as maquinações desonestas do cínico Crescente contra Justino. A segunda parte (capítulos 4 a 13) constitui a defesa filosófica e teológica: esclarece por que os cristãos não cometem suicídio para ir logo a Deus, expõe a origem demoníaca das falsas acusações através da queda dos anjos, desenvolve a doutrina do Logos seminal (Logos spermatikos) atuante nos filósofos antigos como Sócrates e nos legisladores retos, e refuta calúnias populares de canibalismo e incesto com base na intrépida santidade cristã diante da morte. A terceira parte (capítulos 14 e 15) consiste na exortação final, rogando às autoridades romanas a divulgação pública deste memorial para esclarecer a verdade e desmascarar a ignorância popular.

Temas e passagens-chave

Os eixos temáticos nucleares abrangem a soberania absoluta do Deus inefável, a encarnação do Logos integral em Jesus Cristo em contraste com as sementes dispersas da razão nos sábios pré-cristãos, a atividade insidiosa dos demônios que instigam os magistrados pagãos à perseguição, a liberdade da vontade humana dada a homens e anjos, e a superioridade moral da castidade cristã sobre a hipocrisia politeísta.

Dentre as passagens mais notáveis destaca-se a afirmação de que tudo o que de verdadeiro e nobre foi dito pelos autores do passado pertence por direito aos cristãos, pois participavam parcialmente da semente do Verbo implantada neles (capítulo 13); o relato autobiográfico do próprio Justino confessando que, quando ainda era discípulo de Platão, ao contemplar a coragem serena dos cristãos perante a morte e os suplícios, convenceu-se da impossibilidade de que vivessem em devassidão e crimes ocultos (capítulo 12); e a comparação com Sócrates no capítulo 10, ressaltando que ninguém creu em Sócrates a ponto de morrer por sua doutrina, ao passo que em Cristo até artesãos e iletrados creram destemidamente.

Resumo por partes

A iniquidade de Úrbico e a ameaça de Crescente (capítulos 1-3): Justino relata o escândalo de uma mulher nobre que abandonou a libertinagem ao converter-se à fé cristã; repudiando a conduta torpe do marido adúltero, enviou-lhe libelo de divórcio. Em vingança, o marido acusou o mestre cristão Ptolomeu perante o prefeito Lólio Úrbico, que o condenou à morte simplesmente por confessar sua fé. Um cidadão chamado Lúcio e outro espectador protestaram contra a condenação de homens sem crime algum e foram igualmente degolados. Justino declara esperar a mesma sorte por denúncia de Crescente, cínico ganancioso e ignorante da doutrina cristã.

Respostas filosóficas, anjos rebeldes e o Logos (capítulos 4-10): Respondendo à zombaria pagã de por que os cristãos não se suicidam, Justino explica que a humanidade foi criada com propósito divino e que o suicídio violaria a vontade do Criador; porém, interrogados, os cristãos jamais mentem. Expõe a cosmologia da rebelião angélica: anjos encarregados da terra pecaram com mulheres e geraram demônios, autores da magia, dos sacrifícios sangrentos e dos mitos poéticos pagãos. O Filho de Deus é o Verbo gerado antes das obras criadas, em cujo nome os demônios são exorcizados em Roma e no mundo. Compara a perseguição aos estóicos como Musônio e acima de tudo a Sócrates, banidor de deuses imorais, martirizado pelas mesmas hostilidades demoníacas.

A conversão de Justino, o Logos universal e súplica final (capítulos 11-15): Justino demonstra que a virtude verdadeira triunfa sobre a aparência mundana e recorda sua experiência pessoal: ao observar a firmeza cristã na arena, percebeu a falsidade das acusações de banquetes tiésticos e luxúria edipiana. Proclama que Cristo é a plenitude do Logos divino, cuja fração seminal iluminou filósofos e poetas na medida de sua capacidade, tornando os cristãos herdeiros legítimos de toda verdade bem dita. Conclui rogando que os governantes romanos publiquem esta apologia para dissipar preconceitos infundados, advertindo que os perseguires atraem para si a condenação no fogo eterno.

Recepção

A Segunda Apologia exerceu influência determinante na apologética cristã dos séculos segundo e terceiro. Taciano citou a perseguição de Crescente contra Justino; Eusébio de Cesareia utilizou amplos trechos da obra na História Eclesiástica (IV, 16-17) para ilustrar a perseguição de Úrbico e a nobreza dos mártires romanos, considerando a obra um documento público oficial entregue aos governantes.

A preservação textual de toda a obra apologética de Justino depende de um único testemunho manuscrito medieval sobrevivente: o Codex Parisinus Graecus 450, copiado em 1364 e conservado na Biblioteca Nacional da França em Paris. Neste códice, a Segunda Apologia foi copiada à frente da Primeira Apologia. A editio princeps impressa do texto grego foi realizada pelo humanista Robert Estienne em Paris em 1551, sendo posteriormente editada pelos beneditinos através de Prudent Maran em 1742 e incluída no volume 6 da Patrologia Graeca de J.-P. Migne.

Fontes

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