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Apócrifos

Atos de Paulo

Atos Apócrifos

10 capítulos · leitura e narração

Capítulos

Nota de leitura

Texto apócrifo ou pseudepígrafo — não faz parte do cânone das igrejas ocidentais, mas circulou amplamente entre judeus e cristãos antigos. Texto em inglês: The Apocryphal New Testament, Acts of Paul (Oxford: Clarendon Press), M. R. James, 1924 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: The Apocryphal New Testament, Acts of Paul (Oxford: Clarendon Press), M. R. James (1924) · domínio público

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Autoria, data e contexto

Os Atos de Paulo constituem uma narrativa apócrifa cristã em grego composta no segundo século. O testemunho patrístico mais antigo acerca de sua autoria provém de Tertuliano em De Baptismo (capítulo 17), que registra expressamente ter sido o texto redigido por um presbítero da província romana da Ásia; confrontado pelas igrejas locais e admitindo ter inventado os relatos por veneração a Paulo, o clérigo foi removido de seu ofício. São Jerônimo corrobora essa informação em De Viris Illustribus (capítulo 7).

A crítica moderna, acompanhando Montague Rhodes James e Philip Sellew, situa a elaboração da obra entre 150 e 200 d.C., com provável fixação em torno de 160 d.C. O escrito nasceu no contexto das comunidades cristãs da Ásia Menor, buscando ilustrar os feitos apostólicos, exaltar a continência ascética e combater o docetismo e o gnosticismo em expansão.

Estrutura

A reconstrução crítica da obra a partir dos achados papirológicos (notadamente o papiro copta de Heidelberg e papiros gregos) delineia uma divisão editorial em dez partes ou episódios narrativos sucessivos.

O itinerário organiza-se nos seguintes blocos: parte I, acontecimentos em Antioquia da Pisídia e a ressurreição do jovem filho de Pâncares; parte II, o extenso ciclo em Icônio e Antioquia focalizando Paulo e Tecla; parte III, ministério em Mira e a cura da hidropisia de Hermócrates; parte IV, viagem marítima e terrestre de Mira a Sídon; parte V, estadia em Tiro com expulsão de espíritos e cura de um jovem mudo; parte VI, condenação aos trabalhos em minas e o episódio de Frontina; parte VII, prisão em Filipos e o envio da Terceira Epístola aos Coríntios; parte VIII, martírio simulado e o confronto na arena de Éfeso com o leão batizado; parte IX, cenas de despedida fraterna e travessia para Roma; parte X, o Martírio de Paulo na capital do Império sob o governo de Nero.

Temas e passagens-chave

A teologia do escrito gravita em torno do ascetismo rigoroso, identificando a pureza carnal e a virgindade inquebrantável como penhor essencial da ressurreição corpórea futura, em oposição frontal à libertinagem gentílica e às heresias que negavam o julgamento somático.

Entre os trechos célebres destaca-se o retrato fisionômico de Paulo em Icônio, conservado na tradução inglesa de M. R. James: o apóstolo é retratado como um homem de pequena estatura, calvo, de pernas arqueadas, compleição vigorosa, sobrancelhas unidas e nariz aquilino, cuja fisionomia ora lembrava um ser humano, ora o semblante de um anjo.

Resumo por partes

Antioquia e prodígio fúnebre (parte I): Paulo chega a Antioquia e ressuscita o filho de Pâncares; a hostilidade da multidão idólatra força o apóstolo a fugir sob apedrejamento, confortando Pâncares em oração noturna.

O ciclo de Tecla em Icônio e Antioquia (parte II): Em Icônio, a jovem Tecla fascina-se pela pregação apostólica sobre a castidade, rompe o compromisso nupcial e é entregue às chamas, mas uma chuva milagrosa salva sua vida; levada a Antioquia, recusa o magistrado Alexandre, enfrenta ursos e leões no anfiteatro, auto-administra o batismo nas águas e é libertada pelo testemunho da rainha Trifena.

Curas em Mira e pregações costeiras (partes III-V): Em Mira, Hermócrates é curado de hidropisia, convertendo sua família a despeito da oposição interesseira de seu herdeiro; em Sídon e Tiro, templos de ídolos caem por terra perante a oração cristã, demônios são desarraigados e enfermos são restaurados.

Minas, Filipos e a Terceira Epístola (partes VI-VII): Lançado às minas, Paulo devolve a vida a Frontina; em Filipos, encarcerado, responde aos rogos dos presbíteros coríntios redigindo uma epístola solene contra os erros de Simão e Cleóbio, confirmando a ressurreição real da carne e o nascimento de Cristo da virgem Maria.

A arena de Éfeso e o leão batizado (parte VIII): Conduzido aos animais selvagens no estádio de Éfeso, o apóstolo reencontra um leão que havia acolhido e imergido em águas batismais; a besta reconhece seu pregador, protege-o contra outros predadores e escapa ilesa junto com ele após um temporal.

Despedidas e o martírio em Roma (partes IX-X): Após pregar a bordo e despedir-se dos irmãos, Paulo chega a Roma sob o reinado de Nero; condenado à decapitação pelo imperador após a conversão de nobres imperiais, Paulo verte leite de seu pescoço ferido e aparece subsequentemente glorificado perante o césar para atestar a soberania de Cristo.

Recepção

Na Igreja Antiga, a obra desfrutou de ampla circulação devocional mas sofreu severa censura hierárquica pelo seu caráter espúrio; a Esticometria de Nicéforo atribui-lhe 3.600 linhas e a do Codex Claromontanus assinala 3.560 linhas. Eusébio de Cesareia em Historia Ecclesiastica (livro III, 25) classifica os Atos de Paulo expressamente entre os escritos rejeitados (notha), ao passo que Orígenes os cita ocasionalmente. A Terceira Epístola aos Coríntios foi incorporada durante séculos nos cânones bíblicos das igrejas armênia e siríaca.

O texto integral desvaneceu-se na Idade Média, até a identificação pioneira do papiro copta de Heidelberg por Carl Schmidt em 1904, complementado pelo papiro grego de Hamburgo e pelo papiro Bodmer X em Genebra. A tradução de Montague Rhodes James em The Apocryphal New Testament (1924) permanece como marco na disponibilização acadêmica desses fragmentos.

Fontes

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