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Autoria, data e contexto
Os Atos de Pedro e André constituem uma narrativa apócrifa anônima escrita originalmente em grego koiné. A obra apresenta-se como sequência direta dos Atos de André e Matias na Cidade dos Antropófagos, compartilhando os mesmos personagens secundários, como Alexandre e Rufo.
Críticos textuais como Richard Adelbert Lipsius, Max Bonnet e Montague Rhodes James situam a redação da obra entre os séculos IV e V d.C. no Oriente grego ou no Egito bizantino. Afastando-se das especulações gnósticas ou encratitas que caracterizavam os Atos de André primitivos do século II atribuídos ao círculo de Leúcio Carino, este escrito reflete o gosto da piedade cristã popular tardia por narrativas folclóricas de prodígios deslumbrantes, moralismo ascético e defesa da esmola aos necessitados.
Estrutura
O relato forma uma narração ininterrupta em capítulo único nos manuscritos, sendo subdividido em vinte e três seções numeradas na edição padrão de M. R. James de 1924.
O enredo desdobra-se em quatro episódios consecutivos: o reencontro dos apóstolos na montanha e a aparição de Jesus sob a forma de uma criança que os envia à cidade dos bárbaros (seções 1 e 2); o milagre agrícola da colheita instantânea de trigo e o castigo milagroso da mulher nua nos portões urbanos (seções 3 a 12); o confronto doutrinário com o rico Onesíforo e a execução física do prodígio do camelo atravessando o fundo de uma agulha (seções 13 a 19); e a conversão de Onesíforo, o batismo coletivo de mil almas e a fundação do mosteiro de virgens (seções 20 a 23).
Temas e passagens-chave
Os temas centrais englobam a literalização dramatizada de sentenças do Evangelho (em particular a metáfora de Mateus 19:24 sobre o camelo e o fundo da agulha), a severa renúncia das riquezas mundanas, a pureza virginal e o papel indispensável da graça sacramental batismal para a realização de prodígios em nome de Deus.
Ao repreender a busca de atalhos e reiterar a fé no poder divino absoluto, Pedro instrui o crente no capítulo dezesseis da versão de James: "Nothing is impossible with God rather bring a needle with a small eye."
Resumo por partes
A reunião apostólica e o mandato divino (seções 1-2): Após escapar com vida da cidade dos canibais em uma nuvem de luz, André reencontra Pedro, Matias, Alexandre e Rufo no alto de uma montanha. Cristo se manifesta com a aparência de um menino de doze anos vestido com túnica de linho, ordenando-lhes que preguem com intrepidez na cidade dos bárbaros com a garantia de socorro celestial.
O cultivo miraculoso e a armadilha na porta da cidade (seções 3-12): Perto dos muros, os apóstolos substituem um agricultor idoso na charrua enquanto este busca pão; ao semearem os grãos com bênçãos, o trigo cresce e amadurece de imediato. Espantados com o prenúncio dos missionários galileus, os governantes locais colocam uma cortesã despida no portão como cilada moral; por prece de André, o arcanjo Miguel ergue a mulher pelos cabelos nos ares, libertando-a apenas após a entrada apostólica e a cura de enfermos na cidade.
O desafio de Onesíforo e o camelo na agulha (seções 13-19): O nobre abastado Onesíforo exige sinais portentosos para crer e agride os apóstolos quando exortado a abandonar seus bens. Pedro evoca a palavra do Salvador sobre a dificuldade de salvação dos ricos, e Onesíforo exige que um camelo real passe pelo orifício de uma agulha de costura. Pedro crava uma pequena agulha no solo e comanda o quadrúpede em nome de Cristo crucificado; o orifício dilata-se como um portal e o camelo passa duas vezes diante de toda a praça.
O batismo comunitário e a consagração da Igreja (seções 20-23): Deslumbrado, Onesíforo decide libertar seus escravos e doar vinte e sete libras de ouro e cinquenta de prata aos pobres. Ao tentar fazer o camelo passar por conta própria, o animal trava no pescoço porque o nobre ainda não recebera o selo de Cristo. Naquela noite, mil convertidos são batizados em sua residência; a mulher outrora suspensa nos ares entrega sua casa para acolher um mosteiro de virgens, e os apóstolos ordenam sacerdotes para a nova congregação.
Recepção
Os Atos de Pedro e André nunca foram aceitos no cânon do Novo Testamento, enquadrando-se nas proscrições da literatura apócrifa apostólica tardia no Ocidente pelo Decreto Gelasiano. No entanto, o texto circulou amplamente na piedade monástica e popular do Oriente cristão grego, copta e eslavo antigo como leitura edificante para festividades litúrgicas.
A tradição grega preservou-se em manuscritos bizantinos como o Codex Baroccianus 180 da Biblioteca Bodleiana de Oxford (publicado em parte por Constantin von Tischendorf em 1851 em Acta Apostolorum Apocrypha). A primeira tradução inglesa de relevo foi editada por Alexander Walker em 1886 na série Ante-Nicene Fathers (vol. 8), seguida pela reconstituição crítica integral de M. R. James em The Apocryphal New Testament (1924).
Fontes
- Alexander Walker; Alexander Roberts; James Donaldson, Acts of Peter and Andrew (Ante-Nicene Fathers, Vol. 8) (1886).
- Montague Rhodes James, The Acts of Peter and Andrew (The Apocryphal New Testament) (1924).