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Autoria, data e contexto
O Cântico dos Cânticos (em hebraico Shir ha-Shirim, na Septuaginta Aisma Asmaton e na Vulgata Canticum Canticorum) traz no versículo inicial a atribuição a Salomão. Críticos tradicionais como Hengstenberg, Franz Delitzsch e C. F. Keil sustentaram a autoria salomônica no século X a.C., ressaltando o vocabulário real, o fascínio pela botânica e zoologia (com mais de vinte espécies de plantas e quinze de animais) e a atmosfera de prosperidade e paz monárquica.
Em contrapartida, estudiosos histórico-críticos como Böttcher, Heinrich Ewald e Ferdinand Hitzig propuseram uma composição no Reino do Norte pouco após a divisão da monarquia, destacando a exaltação da beleza de Tirza ao lado de Jerusalém antes da ascensão de Samaria. Outra vertente substancial, defendida por Emil G. Hirsch, Crawford Howell Toy, S. R. Driver, Karl Budde e Heinrich Grätz, situa a redação definitiva no período pós-exílico persa ou helenístico (séculos III a II a.C.), apontando o pronome relativo proclítico shin (-ש), vocábulos de empréstimo persa como pardes (pomar) e termos de matriz grega como appiryon (liteira ou palanquim, comparado a phoreion).
Estrutura
O texto bíblico preservado divide-se em oito capítulos e compõe-se de diálogos líricos e cantos alternados entre o esposo, a donzela sulamita e o coro das filhas de Jerusalém.
A delimitação interna das partes é objeto de intenso debate. Comentaristas como Gerhard Gietmann identificam uma unidade lírico-dramática centrada no dia solene das núpcias (capítulos 3,6 a 5,1), no qual o termo noiva é empregado reiteradamente, ladeado por cenas de cortejo e vida matrimonial. Outros pesquisadores, a exemplo de Ewald e Driver, estruturam o livro em atos dramáticos que narram a resistência da jovem pastora aos atrativos da corte de Salomão em fidelidade a seu amado camponês. Por sua vez, J. G. Wetzstein, Budde e Carl Siegfried interpretam o escrito como uma antologia de poemas nupciais festivos correspondentes à semana de celebrações tradicionais no Oriente Próximo.
Temas e passagens-chave
No plano literal e festivo, o tema primordial é a celebração do amor humano conjugal, da mútua dedicação afetiva e do encanto corporal em ambiente campestre e primaveril. Na vertente alegórica unânime entre judeus e cristãos até o século XVI, o vínculo esponsal figura a aliança inviolável entre Deus e a comunidade de Israel ou a mística união entre Cristo, a Igreja e a alma fiel.
Entre os momentos culminantes do poema destacam-se a procissão da liteira real escoltada por sessenta guerreiros valentes de Israel no capítulo 3, o louvor do jardim fechado e da fonte selada no capítulo 4 e a proclamação teológica no capítulo 8 de que o amor é forte como a morte e suas brasas são labaredas divinas que nem oceanos volumosos podem extinguir.
Resumo por partes
Aspirações da donzela e encontros primaveris (capítulos 1-2): A donzela exprime seu ardente desejo pelos beijos do amado e relata o trabalho nas vinhas; seguem-se diálogos de admiração recíproca entre os amantes nos campos floridos, onde o esposo a compara a um lírio entre espinhos e convida a companheira para contemplar a renovação da estação com o cantar da rola e os figos brotando.
Cortejo nupcial e louvor da noiva (capítulos 3-5): A jovem relata a busca angustiada do amado pelas vielas noturnas até reencontrá-lo; contempla-se a chegada imponente do palanquim de Salomão subindo do deserto entre perfumes; o esposo descreve detalhadamente a beleza física da noiva, celebrando a consumação da união como a entrada em um jardim repleto de bálsamo, favo de mel, vinho e leite.
Ausência momentânea, beleza incomparável e triunfo do amor (capítulos 6-8): A donzela busca novamente o esposo ausente e o descreve em majestade às donzelas de Jerusalém; o amado exalta a noiva como única e perfeita, tão radiante como a alva e formosa como Tirza; a Sulamita é admirada em sua dança e a obra se conclui com o selo indestrutível sobre o coração, reafirmando o desprezo por qualquer oferta que pretenda comprar a afeição verdadeira.
Recepção
A autoridade canônica do livro foi amplamente discutida nos debates rabínicos do Sínodo de Jâmnia (Jabneh) no final do primeiro século da era cristã, face à ausência quase total do Nome divino e à linguagem francamente sensual; sua canonicidade foi afirmada categoricamente por Rabi Akiba, que declarou que todas as Escrituras eram santas, mas Cantares era o Santo dos Santos. Na tradição judaica, o livro foi incluído no grupo das Cinco Megillot, sendo lido anualmente na liturgia da Páscoa (Pêssach).
Na tradição patrística, a exegese puramente secular de Teodoro de Mopsuéstia foi condenada como herética no Segundo Concílio de Constantinopla (553 d.C.), consolidando a interpretação mística elaborada nas quinze homilias de Gregório de Nissa, nas anotações de Teodoreto de Ciro e no monumento exegético de oitenta e seis sermões de Bernardo de Claraval. A crítica textual moderna balizou-se nas edições hebraicas massoréticas e variantes da Septuaginta grega analisadas por Christian David Ginsburg e Franz Delitzsch.
Fontes
- Gerhard Gietmann, Canticle of Canticles (1908).
- Emil G. Hirsch; Crawford Howell Toy, Song of Songs, The (1906).