LUX VERITAS

Biblioteca de Textos Sagrados

Apócrifos

Carta de Aristeias

A Lei em Grego

1 capítulo · leitura e narração

Capítulos

Nota de leitura

Texto apócrifo ou pseudepígrafo — não faz parte do cânone das igrejas ocidentais, mas circulou amplamente entre judeus e cristãos antigos. Texto em inglês: The Letter of Aristeas, in APOT vol. 2 (Oxford: Clarendon Press, 1913), H. T. Andrews, 1913 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: The Letter of Aristeas, in APOT vol. 2 (Oxford: Clarendon Press, 1913), H. T. Andrews (1913) · domínio público

Conhecer o livro: contexto, autoria e temas ↓

Ouvir este estudo

 

Autoria, data e contexto

A Carta de Aristeias a Filócrates apresenta-se sob o artifício literário de uma memória epistolar redigida por Aristeias, um oficial gentio da corte de Ptolomeu II Filadelfo (285–247 a.C.), endereçada a seu irmão Filócrates. A crítica histórica e filológica é unânime em reconhecer que essa persona pagã constitui uma ficção: o verdadeiro autor era um judeu alexandrino erudito, imerso nas convenções da chancelaria ptolemaica e da filosofia helenística.

Quanto à cronologia, os especialistas divergem: Emil Schürer propôs uma datação alta em torno de 200 a.C., argumentando que o texto reflete um período de paz e soberania sob o sumo sacerdote anterior à dominação selêucida da Judeia; por outro lado, pesquisadores como Paul Wendland, Elias Bickermann e Moses Hadas situam a redação por volta de 130 a.C. (época do líder asmoneu João Hircano), respaldados por termos burocráticos e idiomatismos gregos do final do segundo século a.C. O objetivo manifesto da obra é apologético: demonstrar a dignidade transcendente da Torá perante a cultura grega e legitimar a autoridade sacra da versão grega do Pentateuco (a Septuaginta).

Estrutura

O escrito estrutura-se formalmente como uma longa narrativa epistolar em um só fôlego (1 capítulo), dividida na tradição editorial crítica contemporânea em 322 versículos ou seções numeradas (conforme o padrão estabelecido por Paul Wendland e R. H. Charles).

O argumento articula-se em sete sequências articuladas: a proposta do bibliotecário Demétrio de Falero ao rei para traduzir a Lei judaica (§§ 1 a 8); a libertação régia e indenização dos mais de cem mil escravos judeus na província egípcia (§§ 9 a 40); a embaixada a Jerusalém, com presentes suntuosos e a anuência do sumo sacerdote Eleazar (§§ 41 a 82); a detalhada descrição topográfica de Jerusalém, do Templo, da cidadela e da geografia agrária da Judeia (§§ 83 a 120); o discurso teológico de Eleazar defendendo o sentido ético e alegórico das leis dietéticas (§§ 121 a 171); a recepção triunfal dos setenta e dois anciãos e os sete banquetes palacianos dedicados a debater virtudes morais e a arte da realeza (§§ 172 a 300); e o trabalho cooperativo na ilha de Faros, a leitura solene perante a congregação judaica, a consagração inviolável do texto e o retorno dos sábios (§§ 301 a 322).

Temas e passagens-chave

Os pilares conceituais da obra englobam a universalidade do monoteísmo ético, a consonância entre a piedade judaica e o ideal filosófico grego da sabedoria, a justificação alegórica das prescrições rituais contra a idolatria e a defesa apaixonada da autoridade da Septuaginta como revelação perfeitamente transposta.

Durante os diálogos banquetários com o soberano no parágrafo cento e noventa e cinco, um dos anciãos proclama o primado divino sobre todas as realizações humanas: 'The highest good in life is to know that God is the Lord of the universe and that in our finest achievements it is not we who attain success but God who by his power brings all things to fulfilment and leads us to the goal.'

Resumo por partes

Iniciativa da biblioteca e resgate dos cativos (§§ 1-40): Demétrio de Falero informa Ptolomeu Filadelfo sobre a falta de uma tradução grega dos rolos da Lei judaica; acolhendo a sugestão de Aristeias, o monarca resgata mais de cem mil israelitas escravizados no Egito, custeando a libertação com mais de seiscentos e sessenta talentos de seu tesouro.

Embaixada a Jerusalém e esplendor da Judeia (§§ 41-120): Com presentes reais que incluem uma mesa áurea magnificamente lavrada e cálices cerimoniais, os enviados encontram Eleazar em Jerusalém; o autor relata com assombro as cerimônias do Templo, a disciplina sacerdotal, o engenhoso sistema de canais de água e a imponente cidadela.

Apologia alegórica da Lei por Eleazar (§§ 121-171): O sumo sacerdote seleciona seis sábios de cada uma das doze tribos e elucida o propósito pedagógico dos mandamentos mosaicos, argumentando que a distinção entre carnes limpas e imundas ensina o ser humano a praticar a moderação e a rejeitar a violência e a ganância.

Os banquetes de sabedoria e a realeza justa (§§ 172-300): Acolhidos com honrarias pelo césar egípcio em Alexandria, os setenta e dois sábios respondem a setenta e duas perguntas filosóficas formuladas ao longo de sete dias, aconselhando o rei sobre o perdão, a imparcialidade judiciária, o domínio dos afetos e o temor reverente a Deus.

A tradução em Faros e a sanção perene (§§ 301-322): Instalados em uma mansão à beira-mar na ilha de Faros, os anciãos trabalham durante setenta e dois dias harmonizando seus textos; lido em assembleia pública, o Pentateuco grego é aclamado como perfeito pelos judeus alexandrinos, selado com anátema contra emendas e recebido com admiração pelo soberano.

Recepção

A Carta de Aristeias exerceu influência profunda na historiografia helenística e no pensamento patrístico. Fílon de Alexandria (De Vita Mosis II) recolheu sua substância, atribuindo aos tradutores inspiração propriamente profética, enquanto Flávio Josefo (Antiguidades Judaicas XII) transcreveu longas porções do texto em sua crônica histórica. Padres apologistas como Justino Mártir, Ireneu de Lião e Clemente de Alexandria adotaram e expandiram a lenda, atribuindo aos tradutores o isolamento em celas milagrosas e estendendo a versão a toda a Bíblia hebraica; no século quarto, São Jerônimo rejeitou essas adições lendárias das celas com base no rigor filológico latino.

O manuscrito grego original foi conservado em mais de vinte testemunhos medievais, sendo publicado na editio princeps por Simon Schard em Basileia no ano de 1561. Edições críticas basilares foram erigidas por Moritz Schmidt em 1868 e Paul Wendland em 1900, alcançando circulação canônica na tradução inglesa de R. H. Charles em The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament (1913).

Fontes

↑ Voltar aos capítulos