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Apócrifos

Carta de Lêntulo

Retrato de Jesus

1 capítulo · leitura e narração

Capítulos

Nota de leitura

Texto apócrifo ou pseudepígrafo — não faz parte do cânone das igrejas ocidentais, mas circulou amplamente entre judeus e cristãos antigos. Texto em inglês: The Apocryphal New Testament, Letter of Lentulus (Oxford: Clarendon Press), M. R. James, 1924 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: The Apocryphal New Testament, Letter of Lentulus (Oxford: Clarendon Press), M. R. James (1924) · domínio público

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Autoria, data e contexto

A Carta de Lêntulo (Epistola Lentuli) apresenta-se como um relatório oficial remetido ao Senado e ao Povo Romano por um suposto governador da Judeia ou de Jerusalém chamado Públio Lêntulo. A crítica histórica e patrística é unânime em classificar a obra como apócrifa e pseudepigráfica. Jamais existiu na administração provincial romana um cargo intitulado governador de Jerusalém (Hierosolymitanorum praeses), tampouco houve algum procurador ou prefeito da Judeia com o cognome Lêntulo na época de Tibério. Além disso, um magistrado imperial romano endereçaria correspondências oficiais ao próprio imperador e não ao Senado, e jamais empregaria expressões teológicas judaico-cristãs presentes no texto, tais como 'profeta da verdade', 'filhos dos homens' e o título composto 'Jesus Cristo'.

Quanto à cronologia e autoria real, os estudiosos convergem para uma origem medieval. Friedrich Münter cogitou remontar o escrito à época do imperador Diocleciano, mas essa hipótese foi descartada pela erudição crítica por falta de evidências documentais ou menções patrísticas. Ernst von Dobschütz, em seu estudo Christusbilder (1899), bem como Anthony Maas e Edward Robinson, demonstraram que o texto latino surgiu entre os séculos XIII e XIV, provavelmente como versão ou adaptação latina de tradições descritivas bizantinas afins à fisionomia narrada pelo historiador Nicéforo Calisto Xantópulo. A redação final consolidou-se nas mãos de humanistas dos séculos XV e XVI, circulando em manuscritos com notas apócrifas que pretendiam atribuir sua descoberta a Giacomo Colonna em Roma, no ano de 1421, a partir de documentos enviados de Constantinopla.

Estrutura

A Carta de Lêntulo constitui uma epístola brevíssima de capítulo único, articulada em prosa epistolar contínua sem subdivisões capitulares intrínsecas nos manuscritos medievais.

O texto organiza-se em quatro partes temáticas lineares: a saudação protocolar do remetente ao Senado romano comunicando a presença e as obras milagrosas de Jesus; o retrato somático detalhado da cabeça, cabelos, fronte, barba e olhar; a caracterização comportamental de suas atitudes de ensino, repreensão e temperamento austero; e o fecho fisionômico que resume sua dignidade corporal e eloquência sóbria, culminando no elogio de sua beleza incomparável entre os mortais.

Temas e passagens-chave

O tema fulcral do escrito é a corporificação física idealizada de Jesus Cristo, concebida sob o prisma da piedade medieval para harmonizar nobreza augusta, gravidade moral e benignidade salvífica. A descrição fisionômica inspira-se nitidamente no Salmo 45 (44 na Vulgata), retratando o Messias como o mais belo entre os filhos dos homens, em contraposição à exegese veterotestamentária primitiva de Isaías 53 que presumia uma aparência humilde e sem atrativos.

O trecho mais célebre define o equilíbrio singular entre severidade e doçura na conduta do Salvador: ele é terrível nas repreensões, brando e afável nas admoestações, sereno sem perder a gravidade, além da observação lapidar registrada na tradição textual latina: 'qui nunquam visus est ridere, flere autem saepe' ('nunca foi visto rir, mas muitas vezes chorar').

Resumo por partes

Saudação e anúncio de Jesus: O missivista Lêntulo saúda o Senado e o povo de Roma, relatando o surgimento contemporâneo de um homem dotado de grande virtude chamado Jesus Cristo, a quem o povo aclama como profeta da verdade e cujos discípulos proclamam como Filho de Deus, célebre por ressuscitar mortos e sarar toda espécie de enfermidades.

Retrato fisionômico e capilar: O relato descreve sua estatura esbelta e venerável, inspiradora simultaneamente de reverência e amor; seus cabelos possuem a coloração da avelã madura, caindo lisos até a altura das orelhas e ondulando em anéis brilhantes sobre os ombros, repartidos ao meio no alto da cabeça segundo o costume dos nazarenos; a fronte é lisa e límpida, a face desprovida de manchas e ornada por leve rubor, o nariz e a boca impecáveis, e a barba farta e bifurcada no queixo, na mesma cor dos cabelos, acompanhada de olhos vivos e penetrantes.

Caráter e beleza corporal: O perfil moral destaca sua autoridade temível ao repreender desvios e sua brandura acolhedora ao aconselhar; jamais visto rindo, é frequentemente flagrado em lágrimas; possui membros proporcionados e mãos agradáveis à visão; em suas palavras revela-se grave, comedido e modesto, consagrado formalmente no epílogo como o mais formoso entre os filhos dos homens.

Recepção

A Carta de Lêntulo jamais foi acolhida no cânon do Novo Testamento nem recebeu chancela eclesiástica como documento histórico autêntico, permanecendo ignorada por apologistas e historiadores patrísticos antigos como Justino Mártir, Tertuliano e Eusébio de Cesareia, os quais atestavam a total ausência de retratos contemporâneos autênticos de Jesus. Na Idade Média tardia, contudo, a carta exerceu influência extraordinária sobre a piedade devocional e a iconografia pictórica ocidental, servindo de cânone estético para representações renascentistas da face de Cristo.

A obra foi impressa pioneiramente na Vita Christi de Ludolfo da Saxônia (Colônia, 1474) e inserida como apêndice introdutório às obras de Santo Anselmo de Cantuária (Nurembergue, 1491), sendo posteriormente acolhida nas Centúrias de Magdeburgo (1559). Foi traduzida para o português pelo jesuíta Jerónimo Xavier em sua história de Cristo e depois vertida para o persa e o alemão. Críticos humanistas como Lorenzo Valla e eruditos modernos como Johann Albert Fabricius, Ernst von Dobschütz e Edward Robinson desmascararam em definitivo sua inautenticidade histórica, valorizando-a como testemunho documental da espiritualidade e da arte do final da Idade Média.

Fontes

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