LUX VERITAS

Biblioteca de Textos Sagrados

Apócrifos

Documento de Damasco

Genizá do Cairo

20 capítulos · leitura e narração

Nota de leitura

Texto apócrifo ou pseudepígrafo — não faz parte do cânone das igrejas ocidentais, mas circulou amplamente entre judeus e cristãos antigos. Texto em inglês: The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament in English, vol. 2, Fragments of a Zadokite Work (Oxford: Clarendon Press), R. H. Charles, 1913 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament in English, vol. 2, Fragments of a Zadokite Work (Oxford: Clarendon Press), R. H. Charles (1913) · domínio público

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Autoria, data e contexto

O Documento de Damasco (também designado nos estudos bíblicos como Escrito Zadoquita ou Documento da Aliança de Damasco) é uma obra hebraica monumental do período do Segundo Templo emanada da comunidade sacerdotal dissidente geralmente identificada com os essênios de Qumran. O texto é anônimo em termos de autoria individual, mas reflete o magistério teológico do Mestre da Justiça (Moreh Tsedeq), líder espiritual do grupo dos Filhos de Zadoque que rompeu com a hierarquia hasmoneia do Templo de Jerusalém.

A composição original em hebraico clássico é situada pela crítica especializada (notadamente Solomon Schechter, Bruce Metzger e os editores da Encyclopaedia Britannica) entre 150 e 100 a.C., no apogeu da era hasmoneia. A obra narra que, 390 anos após a destruição babilônica de Jerusalém por Nabucodonosor, Deus fez brotar um rebento de Israel que andou tateando às cegas durante vinte anos até o surgimento do Mestre da Justiça, que conduziu os fiéis à Nova Aliança na 'terra de Damasco'.

Estrutura

Nas edições clássicas de Solomon Schechter (1910) e Robert Henry Charles (1913), baseadas nos fólios da Genizá do Cairo, o texto é dividido em exatamente vinte capítulos ou colunas, agrupados em dois grandes corpos literários.

Os capítulos 1 a 8 e 19 a 20 integram a 'Exortação' (Admoestação ou Tokhechah), consistindo numa reflexão teológica sobre a fidelidade de Deus, as infidelidades de Israel e o desfecho escatológico da história. Os capítulos 9 a 16 constituem o 'Código Legal' (Leis ou Halakhah), reunindo ordenanças jurídicas sobre juramentos, julgamentos, purificações rituais, a rigorosa guarda do Shabat, o regime dos acampamentos e as prerrogativas do Guardião (Mebaqqer).

Temas e passagens-chave

Os temas fundamentais abraçam o estatuto da 'Nova Aliança na terra de Damasco', a adesão irrestrita ao calendário solar de 364 dias (em harmonia com o Livro dos Jubileus), a denúncia dos 'Três Laços de Belial' (a luxúria através da poligamia e casamento com sobrinhas, a cobiça de bens contaminados e a profanação do santuário), e a expectativa messiânica escatológica do Messias de Arão e de Israel.

No início solene do capítulo um, o autor recorda a misericórdia de Deus para com a linhagem piedosa: 'Pois quando foram infiéis em O abandonar, Ele escondeu Sua face de Israel e de Seu santuário e os entregou à espada. Mas lembrando-Se da aliança com os antepassados, Ele deixou um remanescente a Israel e não os entregou à destruição total.'

Resumo por partes

A ira divina, o remanescente e o Mestre da Justiça (capítulos 1-4): Narra-se o cálculo cronológico dos 390 anos após o cativeiro e os vinte anos de busca às cegas até a vocação do Mestre da Justiça; condena-se o Homem do Escárnio que desviou o povo com águas enganosas, e exaltam-se os sacerdotes e levitas fiéis, denominados Filhos de Zadoque, que guardaram o santuário.

A apostasia de Jerusalém e o poço cavado em Damasco (capítulos 5-8): Descreve-se a corrupção dos líderes de Judá enredados nos laços de Belial; defende-se a monogamia bíblica contra a bigamia régia; celebra-se o Legislador e os penitentes de Israel que saíram da terra de Judá e cavaram o poço da Lei na terra de Damasco, firmando uma aliança indissolúvel.

Normas judiciais, purificação e o Shabat (capítulos 9-12): Fixam-se regras probatórias para acusações e julgamentos diante de dez juízes eleitos (quatro sacerdotes e seis leigos instruídos); definem-se os volumes adequados de água límpida para imersões de purificação ritual; e estabelecem-se prescrições minuciosas para o repouso sabático, vedando caminhadas superiores a mil côvados, comércio ou resgate violador de animais no dia consagrado.

A ordem dos acampamentos e o ministério do Guardião (capítulos 13-16): Organiza-se a vida comunitária nas cidades e acampamentos sob a autoridade do Mebaqqer (Inspetor ou Guardião), responsável pelo exame de consciência dos noviços, pelo discernimento de enfermidades da pele e pelo controle patrimonial; regulamentam-se os dízimos caritativos em prol de órfãos e pobres, prescrevendo juramentos invioláveis de retorno à Lei mosaica.

A consumação escatológica e o juízo (capítulos 19-20 / Manuscrito B): Retoma-se a Exortação proclamando a retribuição implacável sobre os apóstatas que abandonaram a Aliança e seguiram o Homem da Mentira; fixa-se o prazo de quarenta anos desde a morte do Mestre Único até a extinção dos ímpios, culminando no triunfo dos justos quando surgir o Messias de Arão e de Israel.

Recepção

O Documento de Damasco é considerado um dos textos fundacionais para a compreensão do judaísmo sectário pré-rabínico e do pano de fundo do Novo Testamento. Quando Solomon Schechter publicou os manuscritos da Genizá do Cairo em 1910, o mundo acadêmico debateu intensamente sua natureza, aventando filiações caraítas, saduceias ou de uma seita herética desconhecida (como propôs Louis Ginzberg).

O debate foi resolvido a partir de 1947 com o achado de numerosos fragmentos hebraicos da mesma obra nas cavernas 4, 5 e 6 de Qumran (designados 4Q266-273, 5Q12 e 6Q15, editados por Joseph Baumgarten no volume XVIII da série Discoveries in the Judaean Desert), demonstrando que o texto era o manual legislativo e pastoral central dos essênios. Os códices originais da Genizá (MS A e MS B) encontram-se preservados na Coleção Taylor-Schechter da Biblioteca da Universidade de Cambridge.

Fontes

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