LUX VERITAS

Biblioteca de Textos Sagrados

Antigo Testamento

Ester

Hadassah

10 capítulos · leitura e narração

Capítulos

Nota de leitura

Uma judia se torna rainha da Pérsia e impede o extermínio do próprio povo. Deus não é citado uma única vez no texto hebraico — e é justamente essa ausência que o livro discute.

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Autoria, data e contexto

O Livro de Ester (em hebraico Megillat Ester, na Septuaginta Esther e na Vulgata Liber Esther) integra a terceira seção do cânon judaico, os Escritos (Ketuvim), figurando como a mais festiva das Cinco Megillot. O tratado talmúdico Bava Batra 15a atribuiu a redação e fixação do texto aos Homens da Grande Sinagoga (Anshei Knesset HaGedolah), enquanto tradições rabínicas e Flávio Josefo associaram a crônica original a Mardoqueu. Na pesquisa histórico-crítica moderna, exegetas como Demetrius R. Dumm, David J. A. Clines, Jay G. Williams e James King West encaram a narrativa como uma novela histórica ou narrativa festiva (lenda etiológica) destinada a instituir e legitimar a celebração anual do Purim.

A maioria dos historiadores data a composição do núcleo hebraico no período persa tardio ou no início da era helenística (séculos III a II a.C.), apontando a ausência dos heróis no elogio dos antepassados de Ben Sirá (Eclesiástico 44-50, cerca de 180 a.C.) e o vocabulário marcado por empréstimos do antigo persa da corte aquemênida (como pur, satrapias, achashdarpanim e partemim). O cenário imperial situa-se em Susã durante o governo do rei Assuero, historicamente identificado como Xerxes I (Khshayarsha, 485–464 a.C.).

Estrutura

O texto canônico hebraico compreende dez capítulos organizados numa engenhosa simetria narrativa fundamentada na lei dos contrastes e nas reviravoltas dramáticas (peripeteia).

O desenvolvimento distribui-se em três etapas interligadas. A etapa introdutória (capítulos 1 e 2) retrata a deposição da rainha Vasti após recusar exibir sua formosura no banquete imperial de Susã, o recrutamento das virgens do império, a coroação da jovem órfã Hadassa (Ester) e a denúncia de uma conspiração de eunucos feita por Mardoqueu. A etapa do conflito e da ameaça de genocídio (capítulos 3 a 5) relata a elevação do amalequita Hamã a primeiro-ministro, a recusa de Mardoqueu em prostrar-se, o decreto imperial de massacre dos judeus selado com o anel régio após o lançamento de sortes (pur), o jejum penitencial da comunidade e a audaciosa apresentação não convocada de Ester diante do trono. A etapa da resolução, vingança e instituição comemorativa (capítulos 6 a 10) relata a insônia do soberano, a homenagem pública a Mardoqueu, a execução de Hamã na própria forca que erigira, o contra-édito de legítima defesa, o triunfo militar judaico e a consagração perpétua da festa de Purim.

Temas e passagens-chave

O tema teológico mais singular é a providência divina silenciosa: o Nome de Deus não é mencionado explicitamente uma única vez no hebraico massorético, revelando a ação protetora do Criador por trás de aparentes coincidências históricas e escolhas corajosas. A obra exalta o heroísmo cívico, a preservação comunitária contra a ameaça aniquiladora e a solidariedade fraterna diante da tirania.

Entre os momentos culminantes da trama sobressaem a exortação de Mardoqueu indagando se não fora para tal momento de angústia que Ester alcançara a realeza (capítulo 4), a corajosa resolução da soberana dispondo-se a perecer pelo seu povo (capítulo 4), a providencial insônia de Assuero na calada da noite (capítulo 6), a denúncia fulminante de Hamã durante o banquete de vinho (capítulo 7) e a prescrição comemorativa do envio mútuo de porções alimentares e esmolas aos pobres (capítulo 9).

Resumo por partes

Repúdio de Vasti e aclamação de Ester (capítulos 1-2): Assuero ostenta as grandezas de seu reino em Susã durante festividades de cento e oitenta dias; Vasti nega-se a comparecer perante convivas embriagados e é destituída por conselho ministerial; após seleção imperial de donzelas, Hadassa conquista a graça do rei sem revelar sua ascendência hebraica e torna-se rainha; Mardoqueu frustra o atentado letal tramado pelos camareiros reais Bigtã e Teres, fato asentado nos anais da coroa.

O édito de Hamã e a mediação de Ester (capítulos 3-5): O vizir Hamã enfurece-se diante da recusa obstinada de Mardoqueu em curvar-se e planeja exterminar a totalidade da população judaica dispersa pelas cento e vinte e sete províncias; estipula o dia treze de Adar mediante pur (sorteio) e expede ordens irrevogáveis de massacre; Mardoqueu veste panos de saco e suplica a Ester que interceda; Ester impõe jejum coletivo de três dias e ingressa no pátio palaciano, sendo acolhida pelo cetro dourado e convidando o monarca e o ministro para ceias reservadas.

Triunfo dos oprimidos e memorial perpétuo (capítulos 6-10): Sem conseguir conciliar o sono, o rei manda ler os registros públicos e descobre a dívida de honra para com Mardoqueu, ordenando a Hamã que o conduza montado no corcel real pelas ruas; na segunda ceia, Ester revela seu povo e condena a crueldade do cortesão, sendo Hamã empalado no madeiro de cinquenta côvados erguido para seu desafeto; Assuero concede aos judeus o direito legal de portar armas e exterminar agressores em treze de Adar; após a vitória militar, oficializa-se o Purim nos dias catorze e quinze de Adar, e Mardoqueu passa a governar com justiça e estima popular.

Recepção

A autoridade religiosa de Ester gerou controvérsias agudas no judaísmo formativo até os sínodos rabínicos dos séculos I e II d.C. (Talmud Megillah 7a), bem como entre Padres da Igreja como Melitão de Sardes e Gregório de Nazianzo, motivadas pelo caráter marcadamente secular do texto e pelo desfecho sangrento das represálias. Não obstante, o judaísmo consagrou-o como a Megilá por antonomásia, cuja leitura pública integral e festiva no serviço litúrgico de Purim é obrigatória para homens e mulheres.

O Livro de Ester é a única obra veterotestamentária ausente dos fragmentos manuscritos de Qumran, o que especialistas associam à discordância dos essênios quanto ao calendário lunar do Purim. Por sua vez, a tradução grega da Septuaginta enriqueceu o livro com seis extensas interpolações deuterocanônicas (as orações devocionais de Mardoqueu e Ester, sonhos proféticos e editos reais), ratificadas como canônicas pela Igreja Católica no Concílio de Trento (1546).

Fontes

  • Emil G. Hirsch; John Dyneley Prince; Solomon Schechter, Esther (1906).
  • Peter Kirby; Demetrius R. Dumm; David J. A. Clines; Jay G. Williams; James King West; Samuel Sandmel, Esther (Early Jewish Writings) (2013).
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