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Autoria, data e contexto
O tratado apologético Exortação aos Gregos (Protreptikos pros Hellenas) foi composto em grego por Tito Flávio Clemente, teólogo e presbítero conhecido na história eclesiástica como Clemente de Alexandria. Conforme documenta o historiador Francis Havey na Catholic Encyclopedia, Clemente floresceu no final do segundo século, assumindo a direção da Escola Catequética de Alexandria por volta de 190 d.C. após suceder seu mestre Panteno. A redação desta apologia é situada pela maioria dos patrólogos entre 190 e 200 d.C., antes de Clemente deixar o Egito em 202 d.C. devido à perseguição de Septímio Severo.
Alexandria constituía na época o principal centro intelectual e comercial do Mediterrâneo oriental, abrigando uma célebre universidade pagã, influentes mestres gnósticos e a próspera comunidade judaica helenizada. Nesse ambiente de efervescência cultural, Clemente compôs a obra dirigida a pagãos educados na mitologia clássica e na filosofia, apresentando a fé cristã como a realização perfeita da sabedoria universal.
Estrutura
A tradição editorial e crítica (inaugurada nos estudos de John Potter e consolidada por Otto Stählin e William Wilson) organiza o tratado em doze capítulos temáticos bem definidos. Embora alguns sumários temáticos antigos o agrupem em oito divisões discursivas, o texto clássico preservado segue rigorosamente essa série de doze capítulos.
O capítulo 1 contrapõe a melodia salvífica do Logos às lendas dos músicos gregos; os capítulos 2 a 4 desmascaram a imoralidade dos cultos de mistério, a crueldade dos sacrifícios sangrentos e a esterilidade dos ídolos; os capítulos 5 a 8 examinam as concepções dos filósofos e poetas clássicos sobre a divindade, demonstrando que eles vislumbraram lampejos da verdade que culminam nos profetas bíblicos; por fim, os capítulos 9 a 12 respondem à objeção pagã sobre a renúncia aos costumes ancestrais, expondo os benefícios supremos trazidos pelo advento de Cristo e exortando à conversão filial.
Temas e passagens-chave
O conceito central é o Logos divino concebido como o 'Novo Canto', incomparavelmente superior às fábulas de Orfeu, Anfião e Árion, pois enquanto os músicos míticos domesticavam feras aparentes, o Verbo divino pacifica as paixões brutais da alma humana e harmoniza todo o cosmo criado. A obra articula uma crítica demolidora aos ritos mistéricos de Elêusis e Dioniso, afirmando que a verdadeira iniciação espiritual ocorre na luz do Salvador.
Exaltando a dignidade singular da criação humana e sua afinação harmoniosa pelo Espírito Santo no capítulo primeiro, o autor declara: "A beautiful breathing instrument of music the Lord made man, after His own image."
Resumo por partes
O Novo Canto e a denúncia da idolatria (capítulos 1-4): O Verbo de Deus desceu à humanidade como música celestial para libertar os homens da escravidão das superstições materiais, transformando corações petrificados em verdadeiros adoradores e demonstrando que as estátuas e os ritos de sacrifício pagãos apenas veneram demônios degradantes.
Testemunho dos filósofos, poetas e profetas (capítulos 5-8): Pensadores gregos como Platão e poetas antigos alcançaram noções parciais do Deus único sob inspiração dispersa, mas apenas os profetas hebreus transmitiram a revelação límpida e autorizada da vontade divina.
A vocação da graça e a decisão da fé (capítulos 9-12): Rejeita-se o argumento cego de que se deve manter as tradições idólatras dos antepassados pelo mero hábito temporal, conclamando os gentios a acolherem o mestre divino que oferece a imortalidade e restaura a imagem celestial do ser humano.
Recepção
O Protrepticus foi concebido como o primeiro degrau da célebre trilogia pedagógica de Clemente, completada pelo Pedagogo e pelos Stromata, representando respectivamente a conversão inicial, a disciplina moral diária e o conhecimento contemplativo superior. Escritores patrísticos como Eusébio de Cesareia, Jerônimo e Arnóbio leram e citaram amplamente os argumentos do livro.
A preservação textual repousa principalmente no manuscrito Codex Parisinus graecus 451, caligrafado em 914 d.C. para o erudito arcebispo Aretas de Cesareia. A edição princeps impressa foi realizada por Pietro Vettori em Florença no ano de 1550, seguida pelas monumentais edições de John Potter em Oxford (1715) e Otto Stählin na coleção de Berlim (1905).
Fontes
- Francis Havey, Clement of Alexandria (The Catholic Encyclopedia) (1908).
- William Wilson; Alexander Roberts; James Donaldson, Exhortation to the Heathen (Ante-Nicene Fathers, Vol. 2) (1885).