Ouvir este estudo
Autoria, data e contexto
O Fragmento Muratoriano é o mais antigo catálogo documentado dos livros do Novo Testamento aceitos pela Igreja. Redigido originariamente em grego e preservado numa tradução latina rústica e corrompida, o documento é anônimo. Estudiosos como Johann Peter Kirsch, John Chapman e Joseph Lightfoot propuseram conjeturas de autoria variando entre Hipólito de Roma, Caio de Roma, Ródão e Melitão de Sardes, mas a crítica consensual reconhece que o autor permanece formalmente não identificado.
Quanto à datação, a tese clássica defendida por Theodor Zahn, Adolf von Harnack e Bruce Metzger situa a redação original em Roma entre 170 e 200 d.C., fundamentando-se na menção explícita de que o Pastor de Hermas fora composto 'muito recentemente, em nossos tempos, na cidade de Roma', durante o episcopado de Pio I (c. 140-157 d.C.). Em divergência, pesquisadores modernos como Albert Sundberg e Geoffrey Mark Hahneman sustentaram no final do século vinte uma origem oriental tardia no século quarto, hipótese energicamente contestada pela maioria dos patrólogos que reafirmam a matriz romana do segundo século.
Estrutura
O texto sobrevive mutilado no início e no fim, somando oitenta e cinco linhas de prosa latina organizadas em quatro partes temáticas evidentes nas edições de Hans Lietzmann e Bruce Metzger.
A sequência desenvolve-se em quatro blocos orgânicos: parte I (linhas 1 a 39), os Evangelhos (com a conclusão perdida sobre Marcos, o terceiro Evangelho de Lucas e o quarto de João) seguidos dos Atos dos Apóstolos; parte II (linhas 39 a 67), o corpus epistolar de Paulo dirigido a sete igrejas e a destinatários individuais, concluindo com a rejeição das cartas forjadas aos Laodicenses e Alexandrinos; parte III (linhas 68 a 72), as epístolas católicas de Judas e duas de João, o livro da Sabedoria de Salomão e os Apocalipses de João e Pedro; parte IV (linhas 73 a 85), o status devocional do Pastor de Hermas e o repúdio cabal aos escritos gnósticos e marcionitas.
Temas e passagens-chave
Os temas centrais consistem na definição dos critérios apostólicos de canonicidade, na unidade fundamental do Espírito Santo inspirando os quatro Evangelistas apesar de suas narrativas distintas, na separação estrita entre leitura litúrgica pública e edificação privada, e na intransigente pureza eclesial contra falsificações heréticas.
Entre suas sentenças mais marcantes figura a advertência lapidar da linha sessenta e sete contra apócrifos pseudopaulinos: 'for it is not fitting that gall be mixed with honey' ('pois não convém misturar fel com mel'), expressando a incompatibilidade absoluta entre a doutrina católica e as inovações sectárias.
Resumo por partes
Os Quatro Evangelhos e os Atos (parte I): O texto inicia no trecho final sobre Marcos; Lucas, médico e companheiro de Paulo, compôs o terceiro Evangelho a partir de testemunhos; João escreveu o quarto a pedido dos bispos após revelação noturna a André, harmonizando natividade, paixão e ressurreição sob um único Espírito Soberano; os Atos dos Apóstolos são atribuídos a Lucas, que narrou os eventos que presenciou, omitindo o martírio de Pedro e a viagem de Paulo à Hispânia.
O Corpus Paulino e cartas forjadas (parte II): Paulo escreveu primeiro aos Coríntios, Gálatas e Romanos contra cismas, judaizantes e desvios; a exemplo das sete cartas do Apocalipse de João, Paulo enviou cartas nominais a sete igrejas (Corinto, Éfeso, Filipos, Colossos, Galácia, Tessalônica e Roma) para instruir a Igreja universal; redigiu ainda quatro cartas pastorais (Filêmon, Tito, 1 e 2 Timóteo) para a disciplina eclesiástica, banindo expressamente epístolas espúrias como Laodicenses e Alexandrinos ligadas a Marcião.
Epístolas Gerais, Sabedoria e Apocalipses (parte III): Reconhece a epístola de Judas e duas cartas de João em uso na Igreja católica, além do livro da Sabedoria escrito por amigos em honra a Salomão; acolhe o Apocalipse de João e o Apocalipse de Pedro, assinalando que este último encontrava resistência entre alguns que não permitiam sua leitura comunitária.
O Pastor de Hermas e heresias excluídas (parte IV): Afirma que o Pastor de Hermas pode ser lido em particular, mas não publicamente no culto divino nem entre os profetas (cujo número está fechado) nem entre os apóstolos, por ser obra recente da época do bispo Pio; e condena sem apelação os tratados de Valentim, Marcião, Basilides e os catafrígios montanistas.
Recepção
O documento constitui a mais preciosa evidência da formação embrionária do cânon neotestamentário no Ocidente antes de Santo Irineu e Tertuliano. Mostra que por volta de 180 d.C. a Igreja de Roma já reconhecia a imensa maioria dos livros hoje canônicos, embora não mencione Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro ou 3 João, e acolha temporariamente a Sabedoria de Salomão e o Apocalipse de Pedro.
O fragmento foi descoberto na Biblioteca Ambrosiana de Milão pelo erudito Ludovico Antonio Muratori no manuscrito teológico do século oitavo Codex Ambrosianus J 101 sup. (outrora pertencente ao mosteiro de Bobbio), sendo publicado em 1740 no volume 3 das Antiquitates Italicae Medii Aevi. Edições críticas seminais foram produzidas por Samuel Prideaux Tregelles (1867), Hans Lietzmann (1902) e Bruce Metzger (1987).
Fontes
- Bruce Metzger, The Muratorian Fragment (The Canon of the New Testament) (1987).
- Johann Peter Kirsch, Muratorian Canon (The Catholic Encyclopedia, Vol. 10) (1911).
- Peter Kirby, The Muratorian Canon (Early Christian Writings) (2006).