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Autoria, data e contexto
O Livro de Jonas (em hebraico Sefer Yonah) figura tradicionalmente como o quinto dos Doze Profetas Menores (Trei Asar) no cânon bíblico hebraico e cristão. O protagonista homônimo é identificado com o profeta Jonas, filho de Amitai, natural de Gate-Hefer no território de Zebulom, que exerceu atividade profética durante o próspero reinado de Jeroboão II no Reino do Norte de Israel no século VIII a.C., conforme o testemunho histórico de 2 Reis 14,25. A tradição rabínica antiga (refletida no Talmude) e exegetas cristãos tradicionais atribuíram a autoria da obra diretamente ao próprio profeta histórico Jonas.
Em contrapartida, a erudição bíblica moderna diverge substancialmente dessa atribuição tradicional. Críticos como Karl Budde, Emil G. Hirsch, Julius Wellhausen, S. R. Driver e James F. Driscoll salientam que o livro não apresenta nenhuma fórmula interna de autoria, sendo redigido integralmente na terceira pessoa como uma narrativa didática ou midrash teológico. Características linguísticas do hebraico pós-exílico, a assimilação de aramaísmos, a descrição retrospectiva e lendária da grandeza pretérita de Nínive ('ora, Nínive era uma grande cidade') e a teologia universalista indicam que a composição ocorreu no período persa pós-exílico, entre os séculos V e IV a.C. No plano histórico-sociológico, a obra surge em contraste dialético com as reformas particularistas e o rigorismo nacional de Esdras e Neemias, visando ensinar à comunidade judaica que a misericórdia soberana de Iahweh ultrapassa as fronteiras de Israel e acolhe o arrependimento sincero das nações gentílicas.
Estrutura
O livro compõe-se de 4 capítulos canônicos distribuídos em quarenta e oito versículos (quarenta e nove no texto massorético, onde 2,1 corresponde a 1,17 das versões ocidentais), estruturado pedagogicamente em dois ciclos narrativos rigorosamente paralelos.
O primeiro ciclo (capítulos 1 e 2) compreende o chamado inicial de Deus a Jonas, a recusa do profeta em viajar para o leste e sua fuga marítima para Társis, a tempestade violenta deflagrada no mar, o sorteio e o sacrifício pessoal aceito pelos marinheiros pagãos piedosos, culminando na intervenção do grande peixe que engole o vidente e no salmo poético de ação de graças proferido das entranhas do monstro antes de ser expelido em terra firme. O segundo ciclo (capítulos 3 e 4) relata a renovação da ordem divina, a jornada de Jonas a Nínive proclamando sua destruição iminente em quarenta dias, o arrependimento dramático e coletivo de todos os ninivitas e de seus animais, o cancelamento gracioso da sentença punitiva divina, o ressentimento inconformado de Jonas assentado fora dos muros e a parábola encenada do ricínio (kikayon) e do verme com a qual Deus admoesta a falta de compaixão de seu enviado.
Temas e passagens-chave
Os eixos teológicos reitores concentram-se na soberania universal do Criador sobre a natureza e as nações pagãs, na eficácia irrestrita do arrependimento ético (teshuvá) capaz de revogar juízos divinos de condenação, e no desmascaramento do exclusivismo profético que prefere a consumação cega da punição à salvação misericordiosa do pecador. A narrativa contrasta deliberadamente a piedade reverente dos marinheiros fenícios e dos cidadãos assírios com a teimosa resistência do profeta hebreu.
A conclusão da obra atinge seu cume doutrinário na repreensão comovente dirigida por Deus a Jonas, em que o Senhor justifica seu cuidado paternal pela metrópole assíria, textualmente expressa na fonte documental: 'there are more than a hundred and twenty thousand persons that know not how to distinguish between their right hand and their left, and many beasts.'
Resumo por partes
A vocação, a rebeldia e o mar bravio (capítulo 1): Iahweh ordena a Jonas que marche contra a impiedade de Nínive; esquivando-se da missão, o profeta desce a Jope e embarca rumo a Társis; sobrevindo tempestade ameaçadora, os marinheiros oram a seus deuses e lançam sortes, recaindo o fardo sobre Jonas; confessando seu temor ao Deus criador dos céus e do mar, o profeta pede para ser lançado às ondas, aplacando o furor marítimo e levando os marinheiros a oferecer sacrifícios e votos ao Deus verdadeiro.
O grande peixe e o cântico de livramento (capítulo 2): Um grande peixe providenciado por Deus engole Jonas, retendo-o vivo por três dias e três noites em suas entranhas; do fundo do abismo aquático, Jonas entoa um salmo de gratidão celebrando o socorro divino concedido em meio à angústia e à aflição; por comando do Senhor, o cetáceo vomita o profeta sobre a praia seca.
A pregação em Nínive e a teshuvá dos assírios (capítulo 3): Pela segunda vez a palavra divina conclama Jonas à capital assíria; o profeta percorre um dia de caminho bradando que Nínive será subvertida dentro de quarenta dias; a população crê na advertência, e o monarca decreta jejum estrito em pano de saco para homens e rebanhos; contemplando o arrependimento do mal praticado, Deus suspende a catástrofe anunciada.
A irritação do profeta e a lição do ricínio (capítulo 4): Profundamente desgostoso com o perdão concedido aos pagãos, Jonas censura a clemência divina e pede a própria morte; saindo a leste da cidade, constrói uma cabana para observar o destino do povo; Deus faz brotar um ricínio para dar-lhe sombra benfazeja, mas no dia seguinte envia um verme que corrói a planta e um vento oriental sufocante; ante o pranto egoísta de Jonas pela perda da folhagem, o Criador ensina que se o profeta se compadece de uma planta efêmera, com muito maior razão Ele próprio deve poupar uma metrópole de cento e vinte mil inocentes e incontáveis animais.
Recepção
No judaísmo, o Livro de Jonas foi acolhido de forma incontestada no cânon dos Doze Profetas, desempenhando papel litúrgico de culminância anual como a Haftará prescrita para a oração vespertina (Minchá) de Yom Kipur (Dia da Expiação), encarnando a mensagem universal da teshuvá e a infinita capacidade divina de perdoar qualquer ser humano sincero. Foi objeto de amplos desenvolvimentos no Midrash Jonas, no Zohar e em Pirkei de-Rabbi Eliezer.
No cristianismo primitivo e patrístico, a permanência de três dias de Jonas no peixe e seu livramento foram consagrados pelo próprio Jesus nos Evangelhos como 'o sinal de Jonas' (Mateus 12,39-41; Lucas 11,29-32), prefigurando a descida ao túmulo e a gloriosa Ressurreição ao terceiro dia. Essa tipologia pascal converteu a história de Jonas no tema bíblico mais amplamente retratado nas catacumbas e sarcófagos romanos dos primeiros séculos. Santos Padres como Jerônimo e Cirilo de Alexandria redigiram tratados e comentários sistemáticos sobre a obra, preservada na tradição manuscrita dos códices massoréticos, no Rolo dos Doze Profetas de Uádi Murabaat, na Septuaginta grega e na Vulgata latina.
Fontes
- James F. Driscoll, Jonah (The Catholic Encyclopedia, Vol. 8) (1910).
- Emil G. Hirsch; Karl Budde, Jonah, Book of (Jewish Encyclopedia, Vol. 7) (1906).