LUX VERITAS

Biblioteca de Textos Sagrados

Antigo Testamento

Josué

Yehoshua

24 capítulos · leitura e narração

Nota de leitura

A entrada na terra: Jericó, a divisão do território entre as tribos e a renovação da aliança em Siquém. Livro de conquista, com relatos de violência que a arqueologia e a teologia discutem até hoje.

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Autoria, data e contexto

O Livro de Josué (em hebraico Sefer Yehoshua, na Septuaginta Iesous e na tradição patrística frequentemente Iesous Nave) inaugura a seção dos Profetas Anteriores (Nevi'im Rishonim) no cânon hebraico. O tratado talmúdico Bava Batra 14b-15a atribuiu sua autoria ao próprio Josué filho de Num, com o adendo sobre sua morte (Josué 24,29-32) redigido pelo sumo sacerdote Eleazar, e o passamento deste (24,33) registrado por Fineias. Essa concepção tradicional de testemunha ocular foi contestada no século XV por Isaac Abravanel, que demonstrou que a fórmula recorrente 'até o dia de hoje' e a menção de fatos narrados em Juízes comprovam um autor posterior que consultou memórias arcaicas.

Na patrística e na teologia renascentista, Teodoreto de Ciro, Afonso Tostado e Andreas Masius (Maes) sustentaram que o livro foi compilado após a morte de Josué com base em anais contemporâneos. A exegese católica tradicional (Walter Drum, Rudolf Cornely) defende a unidade substancial pré-exílica da obra, redigida antes dos reinados de Davi e Salomão, quando os cananeus ainda habitavam Gezer (Josué 16,10) e os jebuseus ocupavam Jerusalém (15,63). Por outro lado, a crítica documental moderna (Wellhausen, Driver, Steuernagel e Holzinger) analisa o livro como coroamento do Hexateuco ou parte fundamental da história deuteronomista (Dtr), integrando camadas das fontes J, E, D e do Código Sacerdotal (P), com redação definitiva pós-exílica entre 440 e 400 a.C.

Estrutura

A obra distribui-se em vinte e quatro capítulos estruturados organicamente em dois blocos temáticos principais coroados por um apêndice de alianças e despedidas.

A primeira divisão (capítulos 1 a 12) relata a travessia miraculosa do rio Jordão em seco, os rituais memoriais em Gilgal e as campanhas militares sucessivas que subjugaram Jericó, Ai, a coalizão dos cinco reis amorreus no sul da Palestina e a grande federação de reinos cananeus no norte liderada por Hazor, encerrando com o inventário dos trinta e um reis derrotados. A segunda divisão (capítulos 13 a 21) narra a minuciosa repartição geográfica da terra prometida entre as nove tribos e meia ocidentais e a confirmação das herdades transjordanianas de Rúben, Gade e meia Manassés, culminando na demarcação de seis cidades de refúgio e quarenta e oito aldeias levíticas. O epílogo (capítulos 22 a 24) aborda o retorno pacífico dos guerreiros transjordanianos e os discursos finais e renovação da aliança em Siquém.

Temas e passagens-chave

O eixo teológico central é a fidelidade imutável de Iahweh no cumprimento das promessas territoriais juradas aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó (Josué 21,43-45), subordinando a estabilidade da posse da terra à estrita obediência comunitária à Torá. A narrativa acentua a solidariedade moral de Israel, ilustrada no delito de anátema de Acã que precipitou o desastre militar em Ai.

Dentre os momentos textuais mais célebres destacam-se a ordem divina de coragem e meditação incessante na Lei (capítulo 1), o resgate da estalajadeira Raabe com o cordão de escarlate (capítulo 2), a aparição do Príncipe do exército do Senhor com a espada desembainhada (capítulo 5), a ruína das muralhas de Jericó ao som dos shofares sacerdotais (capítulo 6), a súplica poética do Livro dos Justos que deteve o sol sobre Gibeão e a lua no vale de Aijalom (capítulo 10) e o memorável apelo final em Siquém proclamando a escolha irrevogável de servir ao Senhor (capítulo 24).

Resumo por partes

Travessia miraculosa e primeiras conquistas (capítulos 1-8): Josué mobiliza o exército e recebe o relatório favorável dos espias abrigados por Raabe; as águas do Jordão suspendem seu curso perante a Arca da Aliança e doze pedras memoriais são depositadas em Gilgal; celebra-se a Páscoa após a circuncisão coletiva e cessa o maná; as muralhas de Jericó desabam após treze voltas processionais; o furto sacrílego de Acã em Jericó causa mortes e recuo israelita em Ai, punido com lapidação no vale de Acor; Ai é tomada por emboscada e Josué transcreve o Decálogo no Monte Ebal.

Campanhas militares no sul e no norte (capítulos 9-12): Os habitantes de Gibeão enganam os líderes hebreus fingindo vir de terras remotas com vestes esfarrapadas, obtendo pacto de não agressão; as forças de Josué marcham à noite para socorrer Gibeão, destruindo a liga amorreia de Jerusalém, Hebrom, Jarmute, Laquis e Eglom enquanto o sol para no firmamento; Josué aniquila a coligação de Jabim de Hazor junto às águas de Merom, consolidando o controle sobre a serra, o Neguebe e as planícies.

Distribuição territorial e últimas exortações (capítulos 13-24): O território cananeu é partilhado mediante sortes em Siló diante da Tenda do Encontro, assegurando a herança especial de Calebe em Hebrom e concedendo propriedades às filhas de Zelofeade; instituem-se cidades para fugitivos de homicídio involuntário e cidades para os levitas; dissipa-se o mal-entendido com as tribos orientais sobre o altar de testemunho no Jordão; Josué reúne todas as tribos em Siquém, revisa a história sagrada e exige juramento de lealdade a Iahweh, sendo sepultado em Timnate-Sera ao lado dos ossos de José.

Recepção

No ambiente judaico, o livro é lido como a certidão fundacional da posse da terra sob a Torá, sendo fonte de Haftarot que acompanham as festividades de Páscoa e o livro de Bereshit. A comunidade samaritana produziu o Livro Samaritano de Josué (Chronicon Samaritanum, editado por Juynboll em 1848), obra medieval em árabe que incorpora tradições haggádicas ancestrais sobre o conquistador.

Na tradição cristã, Orígenes compôs vinte e seis homilías em grego sobre o livro, identificando Josué (Iesoûs) como tipo profético primordial de Jesus Cristo, condutor do povo redimido através das águas do batismo jordaniano rumo à pátria celeste. Manuscritos hebraicos de Qumran (4QJosh_a e 4QJosh_b) confirmam a antiguidade do texto, enquanto o texto grego da Septuaginta (Códice Vaticano) preserva leituras mais breves sem retoques secundários, suplementando onze cidades na partilha de Judá (15,59).

Fontes

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