LUX VERITAS

Biblioteca de Textos Sagrados

Novo Testamento

Mateus

Mattityahu

28 capítulos · leitura e narração

Nota de leitura

O evangelho que apresenta Jesus como o cumprimento das Escrituras judaicas, com o Sermão do Monte e cinco grandes blocos de ensino. Escrito para leitores que conheciam a Lei.

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Autor, época e primeiros leitores

O evangelho não identifica seu redator dentro da narrativa. A tradição eclesiástica o associa ao apóstolo Mateus; Papias, citado por Eusébio, mencionou uma coleção de ditos em língua hebraica ou aramaica. A relação dessa notícia com o evangelho grego preservado é debatida. Muitos pesquisadores entendem que o texto atual foi composto por um cristão judeu anônimo, que conhecia o evangelho de Marcos e reorganizou materiais sobre Jesus. J. C. Fenton e F. W. Beare, citados por Early Christian Writings, situam sua redação depois da destruição de Jerusalém em 70 d.C.; uma faixa frequentemente proposta é cerca de 80–90 d.C. Há defensores de uma data anterior e da atribuição tradicional.

O texto que chegou até nós é grego e mostra familiaridade com escrituras e práticas judaicas. Sua comunidade provável discutia como manter a herança de Israel ao reconhecer Jesus como messias, num período de tensões entre grupos judaicos e seguidores de Jesus. A localização em Antioquia da Síria é uma proposta, não uma certeza demonstrável. A leitura de Yale destaca a alternância entre cenas de ação e grandes discursos; esse desenho serviria a uma comunidade que precisava transmitir ensinamentos, examinar sua conduta e definir sua missão.

Percurso dos vinte e oito capítulos

Os capítulos 1–2 tratam da genealogia e infância de Jesus; 3–4 apresentam João Batista, o batismo, a tentação e o começo da atividade pública. Em 5–7 está o Sermão do Monte. Os capítulos 8–10 juntam curas, chamados e instruções aos doze. Em 11–13, perguntas sobre Jesus e parábolas do reino ganham espaço. De 14–18, sinais, conflitos, a confissão de Pedro e instruções para a comunidade se sucedem. Os capítulos 19–23 acompanham a subida a Jerusalém e os debates na cidade; 24–25 reúnem ensinamentos sobre crise, vigilância e julgamento. Em 26–28 vêm a última ceia, a prisão, a morte, o túmulo vazio e a comissão final. Todos os intervalos ficam dentro dos 28 capítulos desta edição.

As transições entre discursos e narrativas impedem que os sermões sejam lidos como máximas isoladas. O ensino de 5–7 antecede curas e encontros concretos; a missão de 10 segue o retrato de multidões necessitadas; o discurso de 18 aparece depois de disputas sobre grandeza. Esse encaixe é uma das marcas literárias do livro.

Questões centrais e textos

A genealogia de 1:1–17 e as referências à escritura em 2:15 articulam a identidade de Jesus com a história de Israel. O reino dos céus orienta as bem-aventuranças de 5:3–12 e as parábolas de 13:31–33. A relação entre Jesus e a Lei é formulada em 5:17–20 e testada nas interpretações que seguem. Misericórdia e prática aparecem em 9:13 e 25:35–40, onde a resposta às necessidades alheias tem peso decisivo. A vida da comunidade é abordada em 18:15–20 e 18:21–22, com conflito e perdão no mesmo capítulo. A abrangência da missão aparece em 28:18–20, depois da ressurreição.

É importante ler também as passagens de confronto dentro de seu contexto judaico. O capítulo 23 contém críticas severas a dirigentes religiosos, mas o próprio livro nasce de uma discussão interna sobre a interpretação da Lei e sobre quem é Jesus. Transformar essas disputas antigas em um juízo genérico contra todos os judeus perderia o contexto histórico que ajuda a explicá-las.

Resumo por partes

1–2: A genealogia liga Jesus a Abraão e Davi, enquanto a narrativa do nascimento focaliza a decisão de José após um sonho. Magos chegam a Jerusalém procurando o recém-nascido; Herodes os recebe e depois ordena a morte de meninos em Belém. Avisada em sonho, a família foge para o Egito e retorna após a morte do rei. Outro aviso os conduz à Galileia, onde passam a viver em Nazaré. As deslocações e citações das escrituras enquadram a infância como parte da história de Israel, mas o texto também mostra o perigo político enfrentado pela criança (1:18–25; 2:13–23).

3–4: João Batista chama à mudança de vida no deserto e batiza Jesus no Jordão. Depois da cena do batismo, Jesus é conduzido ao deserto e responde a três tentações com passagens das escrituras. A prisão de João antecede o começo de sua proclamação na Galileia. Ele chama pescadores para acompanhá-lo e percorre a região ensinando, anunciando o reino e curando pessoas. O contraste entre a solidão do deserto e as multidões que passam a segui-lo prepara a longa instrução dos capítulos seguintes. Também situa sua atuação em localidades concretas da Galileia, não apenas em declarações gerais (3:13–17; 4:18–25).

5–7: No monte, Jesus começa com bem-aventuranças dirigidas a pessoas aflitas, perseguidas e empenhadas na paz. Chama os discípulos de sal e luz, discute a Lei e aprofunda temas como violência, juramento e amor ao inimigo. O discurso passa da conduta pública à esmola, oração e jejum, insistindo nas intenções com que são praticados. Aborda riquezas, inquietação, julgamento dos outros e confiança em Deus. No fim, imagens de caminhos, árvores e casas pedem que a escuta se traduza em ação. A reação da multidão encerra a cena e leva o leitor de volta à narrativa (5:3–12; 6:9–13; 7:24–29).

8–10: Ao descer do monte, Jesus encontra um leproso, um centurião e várias pessoas doentes. A travessia do lago inclui uma tempestade; do outro lado surgem possessos. Ele perdoa e cura um paralítico, chama Mateus e partilha a mesa com publicanos. A pergunta sobre jejum e novos recipientes para vinho mostra que seus atos provocam debate. Curas e a compaixão diante das multidões conduzem ao envio dos doze. O discurso de missão os orienta sobre lugares, hospitalidade, rejeição, perseguição e coragem. A passagem termina associando acolher um enviado a um gesto tão simples quanto oferecer água (8:1–4; 9:35–38; 10:40–42).

11–13: João, preso, envia discípulos para perguntar sobre Jesus; a resposta aponta para o que ouvem e veem. Seguem avaliações das cidades que não responderam e um convite aos cansados. Controvérsias sobre o sábado, curas e acusações intensificam o conflito. Jesus redefine a família em torno de quem cumpre a vontade de Deus. À beira do mar, conta a parábola do semeador e outras comparações do reino com sementes, fermento, tesouro, pérola e rede. Explica algumas delas aos discípulos, mas o retorno à sua terra termina em incredulidade. Pergunta, resistência e ensino figurado se alternam no mesmo bloco (11:2–6; 12:46–50; 13:31–33).

14–18: A notícia da morte de João antecede a alimentação de uma multidão e a travessia em que Pedro tenta caminhar sobre a água. Debates sobre pureza seguem-se ao pedido de uma mulher cananeia e a novas curas e refeições. Pedro reconhece Jesus como messias; logo em seguida resiste ao anúncio de sofrimento. A transfiguração e a cura de um menino antecedem outra previsão da morte. Quando os discípulos discutem grandeza, Jesus põe uma criança no centro. O ensino sobre procurar quem se perdeu, lidar com ofensas e perdoar conclui a parte com uma parábola de dívida cancelada e perdão recusado (14:13–21; 16:13–23; 18:21–35).

19–23: Em direção a Jerusalém, Jesus discute casamento, acolhe crianças e responde a um homem rico. Parábolas sobre trabalhadores e a instrução sobre servir acompanham outra previsão da morte. Após curar cegos, entra na cidade, age no templo e enfrenta perguntas sobre sua autoridade. Histórias de dois filhos, lavradores e convidados a uma festa ampliam a disputa. Os interlocutores perguntam sobre tributo, ressurreição e o maior mandamento; Jesus responde antes de criticar publicamente escribas e fariseus. O lamento sobre Jerusalém encerra essa série de debates. As cenas mostram uma controvérsia situada, que pede leitura dentro do ambiente judaico do evangelho (19:13–15; 21:12–17; 22:34–40).

24–25: Ao sair do templo, Jesus anuncia sua ruína e responde aos discípulos no monte das Oliveiras. Fala de conflitos, falsos mensageiros, sofrimento e sinais, mas também insiste em que o momento exige atenção contínua. As imagens de um servo responsável e outro abusivo transferem o tema para a conduta cotidiana. Em seguida vêm as dez jovens com lâmpadas e os servos encarregados de bens durante a ausência do senhor. A cena final separa grupos pela maneira como trataram quem tinha fome, sede, falta de abrigo, doença ou prisão. Espera e ação aparecem unidas, sem que o discurso forneça um calendário simples para seus leitores (24:1–3; 25:14–30; 25:35–40).

26–28: A conspiração para prender Jesus encontra a decisão de Judas de entregá-lo. Uma mulher o unge, e a última refeição com os discípulos antecipa a traição e sua morte. Em Getsêmani, Jesus ora enquanto os companheiros dormem; depois é preso, interrogado, e Pedro nega conhecê-lo. Pilatos o entrega para a crucificação, enquanto a multidão e os soldados participam da cena. Após sua morte, José de Arimateia coloca o corpo num túmulo vigiado. Duas mulheres o encontram vazio e recebem a notícia da ressurreição. O evangelho termina na Galileia: os discípulos veem Jesus e recebem a missão de ensinar entre todos os povos (26:26–29; 27:57–66; 28:16–20).

Recepção

Mateus foi recebido como um dos quatro evangelhos do Novo Testamento pelas igrejas cristãs. A posição inicial no conjunto dos evangelhos e o volume de ensinamentos de Jesus contribuíram para seu uso frequente na catequese e na leitura comunitária. Pesquisadores notam sinais de que escritores cristãos do início do século II já conheciam seu texto. O judaísmo não o inclui em seu cânon; para o estudo histórico, porém, suas citações e debates conservam testemunho importante sobre a diversidade do judaísmo do primeiro século e das primeiras comunidades cristãs.

Fontes

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