LUX VERITAS

Biblioteca de Textos Sagrados

Apócrifos

Relato de Pilatos

Ciclo de Pilatos

1 capítulo · leitura e narração

Capítulos

Nota de leitura

Texto apócrifo ou pseudepígrafo — não faz parte do cânone das igrejas ocidentais, mas circulou amplamente entre judeus e cristãos antigos. Texto em inglês: Ante-Nicene Fathers, vol. 8 (Buffalo: Christian Literature Publishing Co., 1886), Alexander Walker, 1886 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: Ante-Nicene Fathers, vol. 8 (Buffalo: Christian Literature Publishing Co., 1886), Alexander Walker (1886) · domínio público

Conhecer o livro: contexto, autoria e temas ↓

Ouvir este estudo

 

Autoria, data e contexto

O Relato de Pilatos (Anaphora Pilati) apresenta-se como um despacho epistolar oficial enviado pelo governador Pôncio Pilatos ao imperador romano Tibério César, prestando contas dos acontecimentos que culminaram na condenação, morte e ressurreição de Jesus Cristo em Jerusalém. A crítica bíblica e patrística classifica o escrito como uma pseudepigrafia cristã anônima de redação grega. O texto sobreviveu em duas recensões gregas principais catalogadas pela erudição moderna: o Grego A (CANT 66), que habitualmente circula nos códices associado à Entrega de Pilatos (Paradosis Pilati), e o Grego B (CANT 65), frequentemente transmitido junto à Epístola de Tibério ou Cláudio.

No tocante à datação, embora tradições apologéticas dos séculos II e III (como Justino Mártir em sua Apologia e Tertuliano em seu Apologeticum) já aludissem a supostos relatórios enviados por Pilatos a Roma, pesquisadores como Tony Burke, Anne-Catherine Baudoin e J. K. Elliott estabelecem que a composição formal da Anaphora Pilati deu-se na Antiguidade Tardia, entre os séculos V e VI d.C., no ambiente bizantino. O contexto teológico e político do documento visa exculpar a autoridade provincial romana da culpa jurídica pela crucificação, retratando Pilatos como uma testemunha atemorizada diante dos prodígios cósmicos de Cristo e transferindo a responsabilidade integral do julgamento às lideranças sacerdotais da Judeia.

Estrutura

O Relato de Pilatos organiza-se literariamente em 1 capítulo único contínuo, estruturado em prosa epistolar de tom oficial dirigida à corte imperial de Roma.

O enredo reparte-se com clareza em quatro movimentos sucessivos: o prólogo protocolar em que o governador manifesta assombro e relata a conspiração dos judeus contra Jesus sob a acusação de transgressão do repouso sabático; a minuciosa enumeração dos milagres evangélicos de cura, exorcismo e ressurreição operados pelo acusado, cujos poderes superam os dos deuses romanos; o drama da condenação coagida pelo tumulto popular, seguido do eclipse solar, da lua ensanguentada e do terremoto que rasga o abismo; e a apoteose da Ressurreição na madrugada do primeiro dia da semana, com coros angélicos, a libertação das almas do Hades, a reaparição corpórea dos patriarcas bíblicos e a tragédia dos conspiradores engolidos pela terra.

Temas e passagens-chave

Os eixos temáticos capitais da obra são a superioridade ontológica do poder miraculoso de Cristo sobre todo o panteão pagão imperial, a proclamação da descida ao Hades (Harrowing of Hell) e da ressurreição física universal dos justos do Antigo Testamento, e a manifestação da justiça retributiva cósmica contra a iniquidade dos acusadores de Jesus.

No clímax da narrativa pascal, os seres celestiais ecoam em uníssono com os patriarcas libertados das profundezas a proclamação triunfal documentada na tradição textual do escrito: 'The Lord our God that has risen from the dead has brought to life all the dead, and has plundered Hades, and put him to death.'

Resumo por partes

Saudação e acusações sacerdotais: Pilatos saúda com temor e tremor a majestade imperial de Tibério, expondo que os chefes religiosos da Judeia lhe entregaram Jesus acusando-o falsamente de quebrar o descanso do sábado, quando em verdade Ele realizava curas milagrosas e beneficentes em favor do povo.

Catálogo de milagres e prodígios: O governador relata prodígios que superam qualquer poder dos deuses de Roma: restauração instantânea de leprosos, cegos e paralíticos; a expulsão de legiões de espíritos imundos que devoravam a própria carne e foram afogados no mar; a estancação da hemorragia da mulher de Paneas; e a ressurreição de Lázaro, chamado para fora do sepulcro após quatro dias de corrupção, surgindo exalando fragrância suave em vez de fétido odor.

Condenação e cataclismo cósmico: Pressionado pela rebelião fomentada por Herodes, Arquelau, Filipe, Anás e Caifás, Pilatos ordena o suplício da cruz contra a própria convicção; no instante da execução, trevas espessas cobrem o meio-dia, o sol oculta-se, as estrelas perdem o brilho, a lua tinge-se em sangue e as entranhas da terra fisionam-se em abismos rugidores.

Ressurreição gloriosa e juízo: Na noite de domingo, uma claridade celestial perpétua ilumina todo o firmamento enquanto miríades de anjos resplandecentes descem clamando a libertação do Hades; patriarcas como Abraão, Isaque, Jacó, Noé e Moisés reaparecem em corpos glorificados; fendas abissais tragam a maior parte dos perseguidores e destroem os templos adversários, restando uma única sinagoga em Jerusalém, ao passo que Pilatos encerra seu despacho tremendo de espanto diante da divindade de Cristo.

Recepção

O Relato de Pilatos jamais foi admitido no cânon do Novo Testamento, sendo rejeitado no Ocidente latino como literatura apócrifa segundo as diretrizes doutrinárias do Decreto Gelasiano. Em contrapartida, desfrutou de grande prestígio e difusão devocional nas igrejas cristãs orientais (grega, síria, copta, árabe e eslava), alimentando a simpatia pela figura de Pilatos que culminou na sua inclusão como confessor e mártir no calendário litúrgico da Igreja Etíope Ortodoxa Tewahedo.

O texto preservou-se em copiosos manuscritos medievais do século X em diante, incluindo códices gregos das bibliotecas de Paris, Viena e do Monte Athos, bem como traduções antigas em siríaco (Sinai syr. 82) e árabe (Sinai ar. 445 e 508) publicadas por Margaret Dunlop Gibson em 1896. Na modernidade, teve edições críticas inauguradas por Johann Albert Fabricius (1719) e fixadas por Constantin von Tischendorf em Evangelia Apocrypha (1853/1876). Alexander Walker produziu a célebre versão inglesa para a coleção The Ante-Nicene Fathers (1886), e a obra influenciou produções literárias e mistérios teatrais medievais na Europa, a exemplo da peça de Eustache Marcadé no século XV.

Fontes

Dossiê

Uma segunda versão do relatório de Pilatos ao imperador, mais dramática que a primeira, com o eclipse e os mortos que apareceram na cidade.

De onde vem este texto

Grego, dos séculos IV ou V d.C. Conhecido em latim como Anaphora Pilati.

Por que não está na Bíblia

Fora de todos os cânones.

Datação, manuscritos e recepção

O Relato de Pilatos, também chamado Anáfora de Pilatos, se apresenta como um informe de Pilatos ao imperador Tibério sobre a execução de Jesus. Tertuliano, por volta de 197, diz que Pilatos escreveu ao imperador sobre Cristo (Apologético 21), mas não descreve o conteúdo, e pode estar falando de outro texto.

A estimativa de data mais aceita é o fim do século IV ou o século V. As versões mais antigas conservadas são gregas, do século VI, e há versões em árabe e em caršuni, dos séculos X e XIII. A obra tem forte tom polêmico contra os judeus: os milagres de Jesus são evidentes para Pilatos, e ele só permite a execução para evitar uma rebelião. Como todo o ciclo de Pilatos, nenhum estudioso moderno a atribui a Pilatos.

O que você vai encontrar

  • A descrição dos prodígios da crucificação, ampliada bem além do que dizem os evangelhos.
  • O tom é de quem se defende de uma acusação futura.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre a Carta e o Relato de Pilatos?
São duas composições distintas do mesmo ciclo, com conteúdo parecido. O Relato é mais longo e insiste nos prodígios; a Carta é breve e administrativa.

Fontes

  • Tertullian, Apologeticum 21, in Ante-Nicene Fathers, vol. 3.
  • A. Roberts & J. Donaldson (eds.), Ante-Nicene Fathers, vol. 8 (Buffalo: Christian Literature Publishing, 1886). (Report of Pilate, Anaphora).
  • J. K. Elliott, The Apocryphal New Testament (Oxford: Clarendon Press, 1993).

Leia também

↑ Voltar aos capítulos