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Autoria, data e contexto
Quem é o Rico que se Salva? (conhecido pelo título latino Quis Dives Salvetur? e no original grego como Tis ho sozomenos plousios) é um tratado homilético da autoria de Tito Flávio Clemente, mais conhecido como São Clemente de Alexandria, ilustre filósofo cristão e reitor da célebre Escola Catequética de Alexandria. A autenticidade da obra é consensual entre os historiadores eclesiásticos antigos e modernos, sendo expressamente atestada por Eusébio de Cesareia em sua História Eclesiástica (III, 23; VI, 13) e por São Jerônimo em De Viris Illustribus (capítulo 38).
A composição ocorreu em Alexandria entre os anos 190 e 202 d.C., durante o período mais fecundo do magistério de Clemente e antes de sua fuga para a Capadócia motivada pela perseguição imperial de Septímio Severo. O contexto socioeclesial correspondia à florescente comunidade cristã de Alexandria, que começava a atrair cidadãos abastados, comerciantes e intelectuais helenistas. Esses novos convertidos viam-se atormentados pelo desespero ante a interpretação literal das advertências do Evangelho de Marcos sobre a impossibilidade da entrada de ricos no Reino dos Céus. Clemente redigiu o tratado para afastar a lisonja interesseira, refutar o desespero paralisante e formular uma teologia pastoral do uso santificado e altruísta dos bens materiais.
Estrutura
A obra compõe-se formalmente de 42 capítulos numerados nas edições críticas de P. M. Barnard e Otto Stählin, estruturada organicamente como uma homilia exegética e pastoral em cinco divisões harmônicas.
O texto desenvolve-se na seguinte sequência: a introdução (capítulos 1 a 3), condenando a lisonja cortesã e o desânimo dos ricos, comparando o cristão abastado a um atleta que se exercita sob a direção do Logos; a exegese do diálogo evangélico do Jovem Rico em Marcos 10,17-31 (capítulos 4 a 10), demonstrando a transição pedagógica da Lei de Moisés para a perfeição em Cristo; a reflexão teológica sobre a essência da riqueza interior e exterior (capítulos 11 a 26), esclarecendo que a renúncia ordenada por Jesus visa a extirpação das paixões da alma e não a indigência material estéril; a teologia da caridade e da esmola como resgate espiritual (capítulos 27 a 41), reinterpretando a parábola do Bom Samaritano; e a conclusão narrativa (capítulo 42), que coroa a homilia com a célebre história do Apóstolo São João e do jovem líder de salteadores resgatado das montanhas.
Temas e passagens-chave
Os eixos teológicos estruturantes articulam a neutralidade moral dos bens materiais (adiaphora), a riqueza compreendida como instrumento (organon) a serviço da justiça ou do pecado conforme a intenção do coração, e o ideal patrístico alexandrino da apatheia (o domínio virtuoso das paixões desordenadas). Clemente defende que despojar-se do dinheiro mantendo a concupiscência na alma resulta em dupla aflição, ao passo que partilhar os bens com os necessitados granjeia amigos nas moradas eternas.
Na definição central do capítulo catorze sobre o estatuto ético do patrimônio exterior, Clemente sintetiza com precisão filosófica a vocação subserviente do dinheiro: 'Such an instrument is wealth. Are you able to make a right use of it? It is subservient to righteousness. Does one make a wrong use of it? It is, on the other hand, a minister of wrong.'
Resumo por partes
Lisonja, desespero e o atleta espiritual (capítulos 1-3): Clemente censura os adulares vis que alimentam a soberba dos potentados e exorta os ricos a não desesperarem da salvação eterna; convida-os a ingressarem no estádio da virtude sob o treinamento do Logos, tendo os mandamentos como dieta sagrada e a caridade como ornamento.
O encontro com o Jovem Rico (capítulos 4-10): Transcreve o episódio de Marcos 10; observa que o jovem cumpria a Lei mosaica desde a mocidade, mas carecia da vida autêntica que somente o Salvador outorga; Jesus não condena a posse física dos bens, mas exige a entrega volitiva e o desapego para que a alma encontre seu único tesouro em Deus.
Desapego interior e a riqueza como instrumento (capítulos 11-26): Desfere vigorosa crítica contra a mendicância vazia de filósofos pagãos como Crates e Demócrito, que abandonavam bens por glória vã; esclarece que a renúncia evangélica ordena erradicar a cobiça, o orgulho e as ansiedades que sufocam a alma; ensina que o rico que põe seu ouro a serviço dos irmãos é o verdadeiro 'pobre em espírito' bem-aventurado no Evangelho.
Caridade cristã e o Bom Samaritano (capítulos 27-41): Estimula o acolhimento generoso dos pobres e a prática de esmolas fraternas; contempla Jesus como o divino Médico e Samaritano que verte o vinho de sua graça e o óleo do Pai sobre as feridas humanas; demonstra que os anjos e os santos oram e intercedem pelos benfeitores que aliviam o sofrimento dos indigentes.
O Apóstolo João e o capitão dos bandidos (capítulo 42): Narra que o Apóstolo João confiara a um bispo local a custódia formativa de um jovem nobre; descuidado pelo prelado, o rapaz caiu em vícios e tornou-se chefe temível de salteadores armados; ao saber da apostasia, o idoso João cavalga desarmado até o esconderijo dos bandidos, persegue o jovem em fuga chorando paternalmente, beija sua mão ensanguentada, obtém seu arrependimento profundo e o reconduz solenemente batizado e perdoado à comunhão da Igreja.
Recepção
A homilia de Clemente tornou-se o texto patrístico fundacional para a ética cristã da economia, das finanças e da responsabilidade social da riqueza. Citada textualmente por Eusébio de Cesareia no livro III de sua História Eclesiástica e recomendada por São Jerônimo, influenciou diretamente as reflexões posteriores de São Basílio Magno, São João Crisóstomo e Santo Agostinho sobre o destino universal dos bens e o papel da caridade eclesial.
O texto integral sobreviveu milagrosamente em códices gregos antigos (destacando-se o manuscrito Escorialensis Ω.III.19 do século XI e o Vaticanus Graecus 1302), tendo seu epílogo preservado de forma independente em florilégios e compilações hagiográficas. Foi impresso em 1623 pelo erudito jesuíta Michael Ghislerius e reeditado criticamente por P. M. Barnard em Cambridge Texts and Studies (1897) e por Otto Stählin no corpus da Academia de Berlim (GCS 12, 1908). Encontra-se traduzido integralmente para a língua inglesa no segundo volume da prestigiosa série The Ante-Nicene Fathers (1885).
Fontes
- Francis Havey, Clement of Alexandria (The Catholic Encyclopedia, Vol. 4) (1908).
- Alexander Roberts; James Donaldson; A. Cleveland Coxe, Who is the Rich Man That Shall Be Saved? (Ante-Nicene Fathers, Vol. 2) (1885).