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Autoria, data e contexto
O Livro de Rute é uma narrativa histórica anônima da Bíblia hebraica ambientada no período pré-monárquico dos juízes de Israel. A tradição rabínica clássica preservada no tratado talmúdico Baba Batra 14b atribuiu a autoria ao profeta Samuel ("Samuel escreveu seu livro, Juízes e Rute"), assertiva descartada pela erudição bíblica moderna, tanto católica quanto protestante e judaica, pela constatação de que a narrativa conclui com a genealogia de Davi.
No debate cronológico, os exegetas divergem profundamente entre duas correntes fundamentadas. Pesquisadores como S. R. Driver e Francis Gigot na Catholic Encyclopedia defenderam uma datação pré-exílica (séculos VIII a VII a.C.), apontando a pureza literária e a beleza clássica do hebraico narrativo, tratando os raros aramaísmos como dialetais. Em contrapartida, a maioria dos críticos modernos (como A. Kuenen, C. H. Cornill, J. A. Bewer, George A. Barton e os editores da Encyclopaedia Britannica) situa a redação final no período pós-exílico persa (séculos V ou IV a.C.), argumentando que a época dos juízes é evocada como passado remoto (Rute 1:1), que o rito de descalçar a sandália na transferência de propriedades é explicitado como costume arcaico e obsoleto (Rute 4:7), e que o relato funcionou como manifesto ético contra o rigorismo xenófobo das reformas de Esdras e Neemias que ordenavam o repúdio a esposas estrangeiras.
Estrutura
O livro compõe-se organicamente de quatro capítulos (totalizando 85 versículos), distribuídos na crítica literária em quatro atos narrativos simétricos culminando em um epílogo genealógico.
O capítulo 1 apresenta a crise familiar: a fome em Judá, a migração de Elimeleque para Moabe, a morte do chefe de família e dos filhos Malom e Quiliom, e a decisão de Noemi de regressar a Belém acompanhada pela fidelidade inabalável de Rute. O capítulo 2 descreve a providência no campo de cevada: Rute recolhe espigas respigadas e encontra o favor e a proteção do abastado Boaz. O capítulo 3 desenvolve a estratégia noturna na eira: seguindo as instruções de Noemi, Rute deita-se aos pés de Boaz, que reconhece suas virtudes e assume o compromisso solene de atuar como resgatador caso o parente mais próximo decline. O capítulo 4 sela a resolução jurídica e comunitária à porta da cidade diante dos anciãos: a renúncia do parente mais próximo mediante o descalçar do calçado, as núpcias de Boaz e Rute, o nascimento de Obede e a genealogia davídica (versículos 18 a 22) estendendo-se de Perez até o rei Davi.
Temas e passagens-chave
O núcleo temático irradia o conceito bíblico de chesed (lealdade, compaixão e misericórdia ativa da aliança), demonstrado mutuamente entre as protagonistas humanas e coroado pela providência silenciosa de Deus. Sobressaem igualmente os costumes do resgate familiar (go'el) e da lei do levirato aplicados à proteção de viúvas vulneráveis, bem como a dignidade dos gentios piedosos incorporados à comunidade eleita.
Sua célebre profissão de devoção incondicional a Noemi no primeiro capítulo resume o espírito da obra: "De onde quer que tu fores, irei eu; e de onde quer que viveres, viverei. Teu povo será meu povo, e teu Deus meu Deus" (Rute 1:16).
Resumo por partes
Luto em Moabe e retorno com lealdade (capítulo 1): Flagelada pela carestia em Belém, a família de Elimeleque emigra para Moabe, onde ele morre e seus dois filhos casam-se com as moabitas Rute e Orfa. Após dez anos, falecidos ambos os jovens sem filhos, Noemi resolve voltar à terra natal. Orfa beija a sogra e despede-se, mas Rute recusa afastar-se, jurando comunhão de vida, povo, fé e sepultura até a morte, chegando ambas a Belém no início da colheita da cevada.
A respiga nos campos de Boaz (capítulo 2): Para prover sustento ao lar empobrecido, Rute sai a respigar espigas atrás dos ceifeiros e chega casualmente à propriedade rural de Boaz, parente honrado de Elimeleque. Admirado com a abnegação dedicada à anciã desamparada, Boaz concede-lhe proteção contra insultos, partilha a refeição e ordena aos trabalhadores que deixem feixes caírem intencionalmente.
A súplica na eira de Belém (capítulo 3): Instruída por Noemi para buscar repouso seguro, Rute perfuma-se e vai à eira durante a debulha noturna, deitando-se discretamente aos pés de Boaz. Despertado à meia-noite, o patriarca elogia sua retidão moral por não ter procurado homens jovens e promete resgatá-la, revelando que existe um parente de grau mais próximo que possui a prioridade legal do resgate.
O resgate legal e a linhagem de Davi (capítulo 4): Na porta de Belém, diante de dez anciãos do conselho cívico, Boaz apresenta ao parente próximo a herança das terras de Elimeleque condicionada às núpcias com a viúva moabita para suscitar o nome do falecido. Temendo prejudicar a própria herança, o parente descalça a sandália e cede seu direito a Boaz. Consumado o casamento, Rute dá à luz Obede, que se tornará pai de Jessé e avô do grande rei Davi.
Recepção
No cânon hebraico masorético, Rute figura nos Ketuvim (Escritos) como o segundo dos Cinco Rolos (Megillot), sendo lido cerimonialmente nas sinagogas durante o festival litúrgico de Shavuot (Pentecostes), que comemora as primícias da colheita do trigo e a outorga da Torá no Sinai. Na Septuaginta grega e na Vulgata Latina de São Jerônimo, o livro foi alocado imediatamente após o Livro de Juízes, ordem adotada em todas as versões bíblicas cristãs posteriores devido à coincidência temporal declarada no versículo inicial.
No Novo Testamento e na teologia patrística, Rute é celebrada por sua inclusão explícita na árvore genealógica de Jesus Cristo no Evangelho de Mateus (Mateus 1:5), constituindo uma das quatro mulheres singulares mencionadas na linhagem messiânica e pré-figurando a vocação da Igreja gentílica desposada pelo verdadeiro Redentor celestial.
Fontes
- George A. Barton, Ruth, Book of (1906).
- Francis Gigot, Book of Ruth (1912).
- Britannica Editors, Ruth (2026).