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Autoria, data e contexto
A Septuaginta (frequentemente designada pelo numeral romano LXX) é a mais influente tradução grega antiga das Escrituras hebraicas, vertida no dialeto koiné alexandrino a partir de meados do século III a.C. A tradição literária registrada na Carta de Pseudo-Aristeas narra que o rei Ptolomeu II Filadelfo (285-247 a.C.), por sugestão do bibliotecário Demétrio de Falero para enriquecer a célebre Biblioteca de Alexandria, solicitou ao sumo sacerdote Eleazar de Jerusalém setenta e dois sábios escribas (seis de cada uma das doze tribos) para traduzir a Lei na ilha de Faros em setenta e dois dias.
A crítica histórica contemporânea e os estudos patrísticos esclarecem que a narrativa de Aristeas carrega contornos lendários, mas fundamenta um fato autêntico: o Pentateuco (do qual fazem parte os primeiros capítulos do Gênesis) foi traduzido em Alexandria por volta de 250 a.C. para atender à vasta comunidade judaica helenizada que já não dominava o hebraico e necessitava da Torá para a instrução sinagogal e o culto litúrgico. Os livros proféticos e históricos foram vertidos gradualmente nas décadas subsequentes até cerca de 130 a.C.
Estrutura
A presente seção canônica compreende precisamente os cinco primeiros capítulos do Livro do Gênesis da Bíblia grega, articulados na sequência das origens cósmicas e patriarcais.
O capítulo 1 expõe a criação do universo e de toda a biodiversidade em seis dias mediante o fiat da Palavra divina, culminando na criação do homem e da mulher à imagem de Deus. O capítulo 2 descreve a consagração do repouso sabático no sétimo dia, a modelagem de Adão a partir do pó da terra animado pelo sopro vital, a localização do Jardim do Éden com suas árvores sagradas e rios primordiais, a denominação dos animais e a formação da mulher a partir da costela do homem para consumar a unidade matrimonial. O capítulo 3 relata o diálogo sedutor da serpente com a mulher, a transgressão alimentar com o fruto proibido, a autoconsciência da nudez, o julgamento divino com a promessa da inimizade entre a serpente e a semente da mulher (protoevangelho) e a expulsão do paraíso terrestre. O capítulo 4 abrange o drama de Caim e Abel, a rejeição da oferenda cainita e o assassinato fratricida, a errância do homicida sob a marca tutelar divina, o desdobramento da civilização de Lameque e o consolo restaurador pelo nascimento de Sete. O capítulo 5 apresenta o livro das gerações de Adão até Noé, catalogando a sucessão dos patriarcas antediluvianos, o arrebatamento celestial de Enoque e o nascimento de Sem, Cam e Jafé.
Temas e passagens-chave
Sobressaem os temas da criação ex nihilo ordenada pela vontade e inteligência soberana do Criador, a bondade intrínseca da matéria (em oposição às teogonias pagãs violentas ou ao dualismo helênico), a dignidade sacerdotal do ser humano revestido da imagem divina, a ruptura trágica introduzida pelo pecado na harmonia cósmica e a linha genealógica providencial da promessa de redenção.
No pórtico de abertura que inaugura a cosmogonia sagrada no primeiro capítulo, a Septuaginta registra a declaração fundacional: "In the beginning God made the heaven and the earth."
Resumo por partes
A Arquitetura dos Seis Dias da Criação (capítulo 1): Deus pronuncia a luz em meio à escuridão primordial, divide as águas pelo firmamento celeste, reúne os mares para desvelar a terra seca fértil, estabelece os luminares celestes para governar as estações e o tempo, povoa mares e céus com seres viventes e coroa o cosmos criando o ser humano, a quem concede autoridade de zelo sobre toda a terra.
O Jardim do Éden e a Aliança do Matrimônio (capítulo 2): Santifica-se o sétimo dia como descanso da obra criadora; descreve-se a irrigação da terra e a insuflação da alma vivente no vaso de barro humano; Adão é colocado no santuário edênico para cultivá-lo sob a proibição da árvore da ciência do bem e do mal, recebendo como companheira idônea a mulher formada de seu próprio corpo.
A Queda Frutífera e a Primeira Fratricida (capítulos 3-4): A serpente questiona o mandamento divino e incita a desobediência; consumada a falta, sobrevêm a vergonha, as advertências sobre o parto doloroso e a morte corporal, selando-se a expulsão vigiada por querubins; no exílio, a rivalidade de Caim consome a vida do pastor Abel, originando a cidade dos forjadores de armas ao passo que o culto ao Senhor ressurge na linhagem de Sete.
A Linha Patriarcal Antediluviana até Noé (capítulo 5): O memorial cronológico enumera os decênios e séculos dos antepassados da humanidade, pontuados pela mortalidade universal decorrente da Queda, destacando a exceção luminosa de Enoque que agradou a Deus e foi trasladado vivo, culminando na figura de Noé chamado a trazer alívio perante o solo amaldiçoado.
Recepção
A Septuaginta converteu-se na Bíblia por excelência da Igreja cristã primitiva: a imensa maioria das citações do Antigo Testamento presentes nos Evangelhos, nas epístolas de Paulo e na Epístola aos Hebreus foram extraídas diretamente de seu texto grego. Padres gregos e latinos (como Justino Mártir, Ireneu de Lião e Agostinho de Hipona) defenderam a inspiração divina da versão alexandrina, enquanto Orígenes a confrontou com variantes na monumental Hexapla.
O texto permanece até a atualidade como a Bíblia oficial da Igreja Ortodoxa Oriental e constituiu a matriz sobre a qual foram elaboradas a Vetus Latina, a versão cópta e as traduções armênias antigas. Seus testemunhos fundamentais repousam nos grandes códices unciais do século IV (Vaticanus, Sinaiticus e Alexandrinus), tendo sido consagrada em edições impressas como a Poliglota Complutense (1514), a edição Aldina (1518), a edição Romana Sístina (1587), a tradução em língua inglesa de Sir Lancelot C. L. Brenton (1851) e o texto crítico de Alfred Rahlfs (1935).
Fontes
- Achille Vander Heeren, Septuagint Version (The Catholic Encyclopedia, Vol. 13) (1912).
- Sir Lancelot C. L. Brenton, The Septuagint Version of the Old Testament with an English Translation (1851).