Verbete do dicionário
κανών
Cânon
kanōn
A “régua”: a lista de livros aceitos como Escritura por uma tradição.
Palavra e critério. O grego kanōn designava uma vara reta e, por extensão, uma regra ou norma. Aplicado às Escrituras, o nome indica quais livros uma comunidade reconhece como autoridade religiosa. A Jewish Encyclopedia observa que o termo técnico se difundiu entre autores cristãos, enquanto a seleção de escritos sagrados já tinha uma história judaica anterior. Portanto, “cânon” não nomeia um livro adicional nem uma qualidade física do manuscrito. Nomeia o limite de uma coleção e o critério usado para reconhecê-la. Tradições podem compartilhar muitos livros e discordar sobre alguns sem que a diferença se resolva pela etimologia da palavra. [Jewish Encyclopedia, “Bible Canon”]
A coleção judaica. A Bíblia hebraica reúne Torá, Profetas e Escritos. Sua contagem tradicional de vinte e quatro livros agrupa numa unidade textos que muitas Bíblias cristãs numeram separadamente, como Samuel, Reis e os Doze Profetas. Uma diferença numérica não demonstra, sozinha, uma diferença de conteúdo. A Jewish Encyclopedia apresenta a história dessa coleção como processo, com testemunhos de épocas distintas sobre autoridade, uso e limites. Dizer que tudo se encerrou num único dia do século II simplifica excessivamente a evidência. É preciso perguntar qual parte da coleção, qual comunidade e qual documento se está descrevendo. [Jewish Encyclopedia, “Bible Canon”]
Testemunhos anteriores. O prólogo grego de Eclesiástico distingue a Lei, os Profetas e outros escritos dos antepassados. A fórmula mostra uma coleção em várias partes, mas não fornece uma lista exaustiva de títulos. Neemias 8 apresenta a leitura pública da Lei; sua autoridade naquele episódio não permite deduzir automaticamente a situação de todos os demais livros. No judaísmo do Segundo Templo também circularam Eclesiástico, Tobias, Jubileus e escritos atribuídos a Enoque. O uso de uma obra, mesmo quando prestigiada, nem sempre equivale à inclusão na coleção que uma comunidade posterior chamou de cânon. [Jewish Encyclopedia, “Bible Canon”; Pontifícia Comissão Bíblica, “O povo judeu e as suas Escrituras”]
Diversidade do Segundo Templo. A tradução grega das Escrituras e a literatura religiosa judaica mostram coleções e leituras que não coincidem exatamente com um índice moderno. A Jewish Encyclopedia menciona livros recebidos em meios alexandrinos e outros que ficaram fora da lista rabínica. A mera presença de um texto numa biblioteca antiga não demonstra que todos os leitores lhe atribuíssem a mesma autoridade. Também não se deve projetar para trás a separação posterior entre “bíblico” e “apócrifo” como se fosse uniforme em toda parte. A classificação depende de uma comunidade e de um momento histórico. [Jewish Encyclopedia, “Bible Canon”; Pontifícia Comissão Bíblica, “O povo judeu e as suas Escrituras”]
Novo Testamento e Escrituras. Lucas 24:44 menciona a Lei de Moisés, os Profetas e os Salmos; é indício de agrupamentos reconhecíveis, não catálogo completo. Em Judas 1:14-15 aparece uma profecia atribuída a Enoque. Citar uma obra ou usar sua tradição não prova, por si, que o autor apresentasse todas as suas partes como Escritura canônica. Uma fórmula de citação bíblica também precisa ser examinada no contexto. Os primeiros cristãos herdaram escrituras judaicas em hebraico e grego e escreveram novos textos para suas comunidades. O cânon cristão surgiu da recepção desses escritos, não de uma tabela inserida no Novo Testamento. [Pontifícia Comissão Bíblica, “O povo judeu e as suas Escrituras”; Jewish Encyclopedia, “Bible Canon”]
Formação cristã. Os quatro evangelhos, Atos e cartas apostólicas circularam antes de existir uma lista universalmente fixada de vinte e sete livros. A Pontifícia Comissão Bíblica assinala que listas aparecem a partir do fim do século II e que alguns escritos, entre eles Hebreus e Apocalipse, suscitaram dúvidas em determinados meios. Marcião propôs uma coleção restrita; as respostas cristãs integram a história do reconhecimento e da delimitação. Não basta atribuir todo o processo a um concílio. Leitura litúrgica, atribuição apostólica e recepção por diferentes igrejas foram fatores discutidos ao longo do tempo. [Pontifícia Comissão Bíblica, “A inspiração e a verdade da Sagrada Escritura”]
Um manuscrito revelador. O Códice Sinaítico, do século IV, conserva todo o Novo Testamento e também a Epístola de Barnabé e o Pastor de Hermas. Sua parte grega do Antigo Testamento inclui livros que várias comunidades protestantes colocam entre os apócrifos. A presença desses escritos mostra que foram copiados juntos; sozinha, não explica completamente como cada leitor classificava sua autoridade. A ordem dos livros também difere da de muitas Bíblias atuais. Um códice fornece evidência material de transmissão e seleção, mas não substitui declarações explícitas de uma comunidade sobre seu cânon. [Codex Sinaiticus Project, “Content”]
Listas que permanecem. O Catecismo da Igreja Católica enumera quarenta e seis livros do Antigo Testamento e vinte e sete do Novo, contando Lamentações separadamente. A coleção protestante do Antigo Testamento acompanha os títulos da Bíblia hebraica, ainda que costume dividi-los de outra forma; os vinte e sete escritos neotestamentários são compartilhados. Tradições ortodoxas e etíopes têm histórias próprias de recepção e listas que não cabem nessa comparação ocidental. A presença de Enoque e Jubileus na tradição bíblica etíope ilustra que não existe lista cristã idêntica em todas as igrejas. Dizer “fora do cânon” exige especificar de qual. [Catecismo da Igreja Católica, “O cânon das Escrituras”; Pontifícia Comissão Bíblica, “O povo judeu e as suas Escrituras”; Goff, Forgotten Scripture]
Concílios e debate. No Ocidente, decisões regionais da antiguidade e definições posteriores expressaram a recepção dos livros. O Concílio de Trento estabeleceu uma definição católica no contexto das disputas da Reforma; isso não significa que ninguém lesse esses livros antes. Tampouco significa que um sínodo tenha produzido os escritos que enumerou. A Pontifícia Comissão Bíblica distingue o desenvolvimento da recepção da data em que uma lista ganhou formulação oficial. Estudiosos debatem como avaliar evidências fragmentárias de épocas anteriores e quanto acordo havia entre regiões. Uma cronologia honesta precisa deixar lugar para essa incerteza. [Pontifícia Comissão Bíblica, “A inspiração e a verdade da Sagrada Escritura”; Pontifícia Comissão Bíblica, “O povo judeu e as suas Escrituras”]
Uso preciso do termo. “Canônico” significa reconhecido como parte de uma coleção normativa por determinada tradição; não significa necessariamente que um texto externo a ela seja falso, tardio ou desprovido de valor histórico. Eclesiástico, Enoque e Jubileus ajudam a estudar o judaísmo antigo mesmo quando seu estatuto varia entre comunidades. Também é preciso distinguir o cânon, que pergunta quais livros entram, do texto de cada livro, que envolve cópias, variantes e traduções. A existência de códices com conteúdos diferentes mostra por que as duas perguntas não devem ser confundidas. Ao comparar Bíblias, identifique a tradição, a época, a língua e o modo de contar os livros. [Jewish Encyclopedia, “Bible Canon”; Codex Sinaiticus Project, “Content”]
Fontes
- Hirsch, Blau, Kohler e Schmidt, Bible Canon (1906)
- Pontifícia Comissão Bíblica, O povo judeu e as suas Escrituras (2002)
- Pontifícia Comissão Bíblica, La inspiración y la verdad de la Sagrada Escritura (2014)
- Codex Sinaiticus Project, Content (2009)
- Igreja Católica, The Canon of Scripture (1992)
- Matthew Goff, Forgotten Scripture: 1 Enoch and Jubilees (2024)