Verbete do dicionário
Manuscritos do Mar Morto
A biblioteca de Qumran, escondida em cavernas por dois mil anos.
Descoberta e alcance. Os primeiros rolos apareceram em 1947 em cavernas próximas de Qumran, junto ao Mar Morto. O nome abrange manuscritos de vários locais do deserto da Judeia, não um livro único. A maior parte do material de Qumran consiste em fragmentos de pergaminho ou papiro; um rolo excepcional foi gravado em cobre. As cópias datam aproximadamente do século III a.C. ao século I d.C. A Autoridade de Antiguidades de Israel distingue as descobertas de Qumran dos documentos de outros refúgios, alguns posteriores. [Israel Antiquities Authority, “Introduction” e “Discovery Sites”]
Biblioteca diversa. Nas cavernas de Qumran foram encontrados exemplares de todos os livros que hoje compõem a Bíblia hebraica, exceto Ester. Havia também hinos, comentários, regras comunitárias, textos legais e obras que recontam narrativas bíblicas. Cerca de 230 manuscritos são classificados como bíblicos pelo conteúdo. Isso não significa que os demais não tinham valor religioso. As cópias bíblicas apresentam semelhanças e diferenças em relação ao texto massorético posterior; permitem estudar a transmissão sem supor uma versão única e idêntica para todos os grupos do Segundo Templo. [Israel Antiquities Authority, “Introduction” e “Scrolls Content”]
Enoque e Jubileus. Gênesis 6:4 alude a uma cena que 1 Enoque 6:1 amplia na narrativa dos Vigilantes. Jubileus 1:1 situa uma revelação a Moisés no Sinai. Fragmentos dessas obras entre os rolos mostram que circulavam na Antiguidade e foram copiados por algumas pessoas. Isoladamente, não demonstram que todos os leitores as consideravam Escritura. A Autoridade de Antiguidades de Israel diz que certos escritos parabíblicos podem ter tido autoridade especial para grupos específicos. Judas 1:14 mostra que a tradição de Enoque chegou também a um autor do Novo Testamento. [Gênesis 6:4; 1 Enoque 6:1; Jubileus 1:1; Judas 1:14; Israel Antiquities Authority, “Scrolls Content”]
Comunidade e debate. Durante muito tempo, todos os rolos de Qumran foram atribuídos aos essênios. Muitos estudiosos ainda defendem uma relação, mas a identificação de todos os manuscritos com uma comunidade única foi revista. Alguns textos parecem refletir normas de um grupo específico; outros circularam amplamente. A descoberta fornece testemunhas materiais da diversidade do judaísmo do Segundo Templo e contexto para estudar o cristianismo inicial. Não há manuscritos identificados com segurança como livros do Novo Testamento. Sua importância está nos textos que sobreviveram, em suas variantes e nas circunstâncias arqueológicas de preservação. [Israel Antiquities Authority, “Introduction” e “Languages and Scripts”]
História da descoberta. O relato da Autoridade de Antiguidades de Israel começa com a descoberta de uma caverna por um pastor beduíno em 1947. Pesquisas posteriores encontraram material em outras cavernas; a Caverna 4 reuniu milhares de fragmentos e grande parte do conjunto de Qumran. Milhares de peças não significam milhares de livros completos. Muitos restos são pequenos e precisam ser identificados por escrita, suporte, conteúdo e comparação. Outras descobertas em locais do deserto da Judeia explicam por que o nome “Manuscritos do Mar Morto” pode ter alcance mais amplo do que “biblioteca de Qumran”. Não é prudente descrever todos os achados como se tivessem uma única origem arqueológica. [Israel Antiquities Authority, “Discovery and Publication” e “Discovery Sites”]
Línguas e materiais. O hebraico predomina nas cópias de Qumran; aproximadamente quinze por cento foram escritos em aramaico, e há também textos em grego. A maior parte é de pergaminho, com alguns papiros e um rolo gravado em cobre. A língua do fragmento informa sua forma textual, mas não identifica automaticamente a pessoa que compôs a obra. É possível que cópias de tradições distintas tenham sido reunidas no mesmo lugar. Por isso, o conjunto não pode ser reduzido a uma “Bíblia hebraica primitiva”. Ao lado dos livros hoje bíblicos havia normas, orações, interpretações e outras obras religiosas. As diferenças materiais e linguísticas fazem parte da evidência histórica, não são detalhes decorativos. [Israel Antiquities Authority, “Introduction” e “Languages and Scripts”]
Comparação textual. Algumas cópias bíblicas se parecem muito com o texto massorético conhecido por manuscritos posteriores; outras registram diferenças de redação, acréscimos ou omissões. Isso permite investigar a transmissão de livros específicos ao longo do tempo. Não autoriza dizer que cada versículo mudou, nem que exista uma “Bíblia secreta” uniforme. Para fazer uma afirmação sobre variantes é preciso indicar qual manuscrito e qual trecho estão em comparação. A ausência de Ester nas cavernas de Qumran é uma observação sobre o material encontrado, não prova de que ninguém conhecesse o livro na Antiguidade. A instituição responsável pelo acervo também ressalta que a concepção de uma coleção autorizada podia variar entre comunidades do Segundo Templo. [Israel Antiquities Authority, “Introduction”]
Formas de interpretação. Comentários chamados pesharim aplicam profecias bíblicas à experiência e às expectativas de um grupo. Hinos e orações mostram outros usos de linguagem sagrada. Obras sapienciais, regras e textos parabíblicos revelam práticas diferentes de estudo e culto. Jubileus reorganiza narrativas da Torá; o Rolo do Templo apresenta normas relacionadas ao santuário e à cidade. Chamar todas essas composições de “apócrifas” apagaria diferenças de gênero e função. A Autoridade de Antiguidades de Israel trata as categorias como instrumentos descritivos: um escrito pode caber em mais de uma delas. O valor do conjunto está justamente em tornar visível essa variedade de formas de ler e transmitir tradições antigas. [Israel Antiquities Authority, “Scrolls Content” e “Discovery Sites”]
Enoque e recepção. O fragmento aramaico de Enoque destacado pela Autoridade de Antiguidades de Israel fala de anjos que descem e se relacionam com mulheres, ampliando a breve cena de Gênesis 6:1-4. Sua presença em Qumran documenta a circulação de uma narrativa específica. Judas 1:14 oferece outro tipo de testemunho: um autor cristão emprega uma tradição atribuída a Enoque. Um fragmento material e uma citação literária respondem a perguntas diferentes. Nenhum deles, sozinho, define os limites da Escritura para todos os grupos antigos. A leitura de Jubileus 1:1 mostra ainda que uma obra pode reivindicar voz mosaica sem que a cópia descoberta tenha sido escrita pelo próprio Moisés. [Israel Antiquities Authority, “Featured Scrolls”; Gênesis 6:4; Judas 1:14; Jubileus 1:1]
Hipótese comunitária. Muitos estudiosos relacionaram os rolos à comunidade essênia mencionada em fontes antigas. A Autoridade de Antiguidades de Israel registra que a hipótese foi modificada e contestada, embora a conexão continue defendida. Um texto que parece descrever regras de um grupo não determina a procedência de todas as cópias bíblicas guardadas perto dele. Semelhanças temáticas com o Novo Testamento tampouco tornam os fragmentos documentos cristãos: tentativas de identificar textos gregos de Qumran como passagens neotestamentárias não se firmaram. Examinar proveniência, data, língua e conteúdo de cada peça é mais seguro do que construir uma única história para a biblioteca inteira. Os rolos iluminam um período diverso, sem eliminar seus debates. [Israel Antiquities Authority, “Introduction” e “Languages and Scripts”]
Onde aparece
- Gênesis 6:4
- 1 Enoque 6:1
- Jubileus 1:1
- Judas 1:14