Verbete do dicionário
שְׁאוֹל
Sheol
she’ol
A morada dos mortos no pensamento hebraico — nem céu nem inferno.
Nome e incerteza. Sheol translitera o hebraico she'ol, palavra cuja origem exata continua discutida. A Jewish Encyclopedia registra tentativas de relacioná-la a outros vocábulos semíticos, mas não estabelece uma derivação segura. Traduzir o nome como se significasse literalmente “pergunta” ou “cova” já escolheria uma hipótese. Nos textos bíblicos ele designa a região dos mortos e, em certas passagens poéticas, a própria condição de estar sob o poder da morte. Termos como cova, abismo e destruição aparecem próximos, mas não são sinônimos perfeitos em todos os contextos. A interpretação deve começar pelo emprego da palavra na frase, não por uma etimologia imaginada. [Jewish Encyclopedia, “Sheol”; Brown-Driver-Briggs, hebraico 7585]
A descida de Jacó. Ao acreditar que José morreu, Jacó diz que descerá ao Sheol lamentando o filho, em Gênesis 37:35. O patriarca não está anunciando que receberá punição por maldade. O verbo “descer” corresponde à imagem de uma região inferior, frequente na poesia bíblica. Em 1 Samuel 2:6, o cântico de Ana atribui a Deus o poder de fazer descer ao Sheol e de fazer subir. As duas passagens mostram por que identificar automaticamente Sheol com um lugar destinado apenas aos ímpios produz leitura errada. A linguagem da morte e da restauração tem funções diferentes em lamento e louvor. [Jewish Encyclopedia, “Sheol”; Jewish Encyclopedia, “Death, Views and Customs Concerning”]
Pó, sombra e silêncio. Jó 10:21-22 descreve a ida para uma terra escura; Jó 14:13 deseja ser escondido no Sheol até passar a ira. Salmos 88:10-12 relaciona a morte à dificuldade de proclamar as obras de Deus, e Eclesiastes 9:10 fala da ausência de trabalho e conhecimento no lugar para onde se vai. São formulações poéticas e sapienciais, não medições de um recinto físico. Elas exprimem a perda da atividade conhecida entre os vivos. A Jewish Encyclopedia também menciona sombras, portas e profundidade. Ler essas imagens em conjunto esclarece o horizonte antigo sem obrigar todos os autores a fornecerem uma descrição arquitetônica idêntica. [Jewish Encyclopedia, “Sheol”; Brown-Driver-Briggs, hebraico 7585]
Reis e pobres. Isaías 14:9-11 imagina os mortos se agitando para receber o rei de Babilônia e ironizar sua queda. Ezequiel 32 apresenta nações e guerreiros na região dos mortos, ainda identificados por seus nomes e história. Já Jó 3:13-19 imagina ali descanso para grandes e pequenos, servos e senhores. Essas cenas não combinam se forem lidas como reportagem literal de uma só viagem; sua finalidade literária muda. Isaías satiriza o poder imperial, Ezequiel julga nações e Jó fala do sofrimento de quem deseja repouso. A condição comum de mortalidade une os exemplos, enquanto as diferenças impedem reduzir Sheol a um quadro simples. [Jewish Encyclopedia, “Sheol”; Jewish Encyclopedia, “Death, Views and Customs Concerning”]
Deus e o Sheol. Salmos 139:8 afirma que nem ali a presença de Deus deixa de alcançar o salmista. Amós 9:2 usa a descida ao Sheol para dizer que ninguém escapará do juízo divino. Salmos 16:10 expressa esperança de não ser abandonado naquele lugar, e Oseias 13:14 fala de resgate do poder da morte. Os textos não apagam a imagem sombria encontrada em Jó e outros salmos; acrescentam a possibilidade de livramento por Deus. Há debate sobre o alcance de cada promessa, especialmente quando versos poéticos são lidos à luz de crenças posteriores sobre ressurreição. É mais seguro registrar a tensão que atribuir uma doutrina inteiramente uniforme a todo o Antigo Testamento. [Jewish Encyclopedia, “Sheol”; Jewish Encyclopedia, “Death, Views and Customs Concerning”]
Escritos do Segundo Templo. Em Eclesiástico 51:6 aparece linguagem de profundidade e morte; o livro de 1 Enoque 22 descreve lugares distintos onde almas aguardam o juízo. Não se deve assumir que ambos repetem exatamente a mesma visão de Sheol. A cena de Enoque distribui os mortos em divisões e atribui a alguns a expectativa de julgamento futuro, sinal de desenvolvimento das imagens do além. Outras tradições do período destacam ressurreição, vindicação ou castigo. Essa diversidade ajuda a explicar por que a frase “todos descem” não resolve sozinha as perguntas posteriores sobre o destino final. O que um autor diz deve ser localizado em sua obra e em sua época. [Jewish Encyclopedia, “Sheol”; Jewish Encyclopedia, “Eschatology”]
Do hebraico ao grego. A Septuaginta frequentemente verte she'ol por hadēs, palavra grega usada também em discussões sobre os mortos. Uma tradução aproxima vocabulários, mas não faz desaparecer as diferenças de contexto. Em Atos 2:27 e 2:31, a citação de Salmos 16:10 usa Hades ao argumentar sobre Jesus. O leitor do Novo Testamento encontra, portanto, uma passagem hebraica transmitida em grego e interpretada num novo argumento. Hades não é a mesma palavra que Geena, empregada nas advertências sobre juízo. Versões que chamam ambos de “inferno” podem ocultar a distinção e induzir a imaginar que o Salmo falava do destino dos condenados. [Jewish Encyclopedia, “Sheol”; Brown-Driver-Briggs, hebraico 7585]
Outras cenas do Novo Testamento. Em Lucas 16:23, o rico está em Hades numa narrativa sobre a inversão de fortuna e a responsabilidade de ouvir Moisés e os Profetas. Em Apocalipse 20:13-14, Morte e Hades entregam seus mortos e depois são lançados no lago de fogo. Se Hades pode entregar os mortos e ser destruído na visão, não se pode simplesmente identificá-lo com o próprio lago de fogo. O Apocalipse trabalha com imagens simbólicas em sequência; Lucas conta uma história com finalidade moral. Essas diferenças impedem transferir mecanicamente cada detalhe de um texto para o outro. [Jewish Encyclopedia, “Sheol”; Jewish Encyclopedia, “Eschatology”]
Recepção e debate. Autores da Igreja antiga leram Salmos 16 e Atos 2 ao tratar da morte e da ressurreição de Cristo. Isso acrescentou uma camada cristã à interpretação de Sheol e Hades. Estudos modernos separam a pergunta lexical, “como a palavra é usada?”, da pergunta teológica, “como uma tradição reúne suas passagens?”. A primeira exige atenção ao hebraico, às traduções gregas e aos gêneros literários; a segunda envolve escolhas interpretativas posteriores. Nem a etimologia incerta nem uma tradução uniforme para “inferno” podem resolver ambas de uma vez. O consenso mais firme é que Sheol nas narrativas e poemas hebraicos não equivale automaticamente à Geena do Novo Testamento. [Jewish Encyclopedia, “Sheol”; Jewish Encyclopedia, “Eschatology”]
Como ler cada ocorrência. Pergunte se a frase descreve a morte de alguém, lamenta a perda de louvor, ironiza um rei ou proclama esperança de livramento. Observe também quem desce, quem pode subir e se o texto fala de uma imagem futura de juízo. Jacó, Jó, os guerreiros de Ezequiel e o salmista não foram colocados nas passagens para ilustrar a mesma sentença moral. O nome Sheol preserva esse horizonte antigo com mais precisão que uma tradução automática por “inferno”. Ele não resolve por si as diferentes crenças judaicas e cristãs sobre ressurreição; indica onde a discussão começa e quais textos precisam ser comparados. [Jewish Encyclopedia, “Sheol”; Jewish Encyclopedia, “Death, Views and Customs Concerning”; Brown-Driver-Briggs, hebraico 7585]
Onde aparece
- Salmos 16:10
- Jó 14:13
- Isaías 14:9