Verbete do dicionário
תְּשׁוּבָה
Teshuvá
teshuváh
Arrependimento como retorno: dar meia-volta no caminho, não sentir culpa.
Nome e raiz. Teshuvá translitera o hebraico tĕshûbâ, “retorno”, ligado ao verbo shuv. Brown–Driver–Briggs registra para o verbo sentidos concretos, como voltar a um lugar, e usos relacionais, como abandonar um caminho e voltar-se a Deus. A Jewish Encyclopedia observa que o substantivo teshuvá se tornou nome da ideia de arrependimento na literatura judaica posterior; os convites bíblicos empregam sobretudo a linguagem verbal do retorno. A imagem de mudar de rota ajuda, mas não constitui definição completa de cada passagem. Voltar também pode descrever restauração, resposta ou reversão, conforme o contexto. [Brown–Driver–Briggs, H7725; Jewish Encyclopedia, “Repentance”]
O chamado profético. Oseias 14:1 conclama Israel a voltar ao Senhor e relaciona a queda do povo à sua falta. O imperativo não é apenas uma sensação interior: dirige-se a uma comunidade com conduta e vínculos a rever. A forma de retorno imaginada pelos profetas varia conforme o problema denunciado. Às vezes envolve abandonar a exploração; em outros contextos, abandonar culto a outros deuses ou recuperar a fidelidade à aliança. O sentido concreto precisa ser extraído de cada discurso, e não de uma alegoria fixa de viagem. A raiz verbal é ampla, mas a cena de Oseias mostra claramente uma direção moral e religiosa. [Oseias 14:1; Brown–Driver–Briggs, H7725; Jewish Encyclopedia, “Repentance”]
Vida e mudança. Ezequiel 18:30-32 pede que os ouvintes se desviem das transgressões e adquiram coração e espírito novos. O convite vincula decisão, prática e possibilidade de vida. Isso impede reduzir arrependimento a remorso sem consequência. Ao mesmo tempo, a tradição não exclui emoção: reconhecimento da falta, lamento e desejo de reparação podem acompanhar a mudança. A Catholic Encyclopedia, ao discutir contrição cristã, dá especial atenção à tristeza pela culpa; seu foco é diferente do resumo de uma raiz hebraica. Dizer que movimento importa mais que sentimento pode funcionar como correção de um excesso, mas não como oposição absoluta válida para todos os textos. [Ezequiel 18:30-32; Jewish Encyclopedia, “Repentance”; Catholic Encyclopedia, “Contrition”]
Responsabilidade e reparação. A Jewish Encyclopedia descreve o arrependimento na tradição judaica como retorno que afeta atos e relações. Uma pessoa que prejudicou outra não resolve necessariamente o dano apenas com uma frase de pesar. A atenção a consequências concretas ajuda a explicar por que os profetas conectam voltar-se a Deus com mudanças visíveis. Também há textos em que a iniciativa divina de acolher ou restaurar recebe destaque. A discussão, portanto, não cabe na alternativa simples entre esforço humano e perdão concedido. Oseias fala a pessoas capazes de responder, ao passo que as tradições posteriores examinam como tal resposta se relaciona com misericórdia e expiação. [Jewish Encyclopedia, “Repentance”; Oseias 14:1; Ezequiel 18:30-32]
Uma oração posterior. Jubileus 1:19-21 põe na boca de Moisés uma súplica para que o povo não siga o erro do coração e receba espírito justo e coração limpo. A obra reconta a história de Israel e desenvolve temas de desobediência e restauração. Nessa cena, mudança não aparece como mera decisão individual isolada: Moisés pede uma transformação que alcance o povo. O livro preservado em diferentes línguas não deve ser citado como se cada tradução reproduzisse a mesma palavra hebraica do livro de Oseias. Seu valor para a comparação está na releitura, durante o judaísmo do Segundo Templo, da necessidade de voltar à fidelidade. [Jubileus 1:19-21; Jewish Encyclopedia, “Repentance”]
Perdão e prática judaica. A Jewish Encyclopedia apresenta o retorno como requisito importante na reflexão judaica sobre perdão e expiação. O tema recebeu tratamento em ensinamentos rabínicos e em reflexões sobre dias de penitência. Esses desenvolvimentos não devem ser retroprojetados integralmente para cada profeta bíblico: mostram como leitores posteriores organizaram e ampliaram as antigas exortações. O mesmo artigo distingue manifestações de arrependimento, condição comunitária e resposta individual. Reconhecer essa história permite dizer que teshuvá é mais que um instante psicológico, sem inventar um rito uniforme para todas as comunidades judaicas antigas. O sentido de retorno ganha formas variadas quando passa da mensagem profética para a discussão ética posterior. [Jewish Encyclopedia, “Repentance”]
A palavra grega. Metánoia pertence ao grego, não é transliteração nem derivação de teshuvá. Thayer a descreve como mudança de mente associada ao reconhecimento da falta e à adoção de outra conduta. Traduzir as duas por “arrependimento” cria uma ponte útil, mas não torna idênticas suas etimologias. No Novo Testamento, Marcos 1:15 associa o chamado ao arrependimento à proximidade do reino de Deus e à confiança na boa notícia. A frase grega deve ser lida no seu próprio contexto, ainda que leitores percebam afinidade com convites proféticos a mudar de direção. Reduzi-la a simples opinião nova também seria pouco: a vida prática participa do conceito. [Thayer, G3341; Marcos 1:15; Brown–Driver–Briggs, H7725]
Conversão em Atos. Atos 3:19 reúne os convites a arrepender-se e converter-se, vinculando-os ao perdão dos pecados. A formulação mostra dois verbos em uma exortação cristã, não uma equação mecânica entre todos os termos hebraicos e gregos. Ela se dirige a ouvintes concretos após um discurso sobre Jesus. Compará-la com Oseias ajuda a perceber continuidade do chamado à resposta, mas as razões apresentadas pelos autores diferem. Em Marcos o anúncio do reino é imediato; em Atos o argumento inclui a pessoa de Jesus e a expectativa de restauração. Um estudo lexical responsável mantém essas diferenças narrativas visíveis. [Atos 3:19; Marcos 1:15; Oseias 14:1; Thayer, G3341]
Recepção cristã. Intérpretes cristãos antigos discutiram arrependimento em relação a perdão, disciplina comunitária e contrição. A Catholic Encyclopedia registra a importância da tristeza pela falta e da intenção de abandonar o mal em sua descrição de contrição. Esses debates surgem em contexto eclesial posterior e não oferecem uma tradução definitiva do hebraico shuv. A diferença entre perspectivas também não significa que judaísmo desconheça pesar ou que cristianismo ignore mudança de comportamento. As duas tradições examinaram culpa, ação e misericórdia, com ênfases distintas. É mais preciso nomear a fonte de cada formulação que atribuir uma regra única a séculos de interpretação. [Catholic Encyclopedia, “Contrition”; Jewish Encyclopedia, “Repentance”; Brown–Driver–Briggs, H7725]
Limites e leitura. Para entender uma passagem, convém verificar quem é chamado a voltar, de que prática deve afastar-se e qual promessa ou advertência acompanha a ordem. Em Oseias, o chamado é dirigido a Israel; em Jubileus, Moisés intercede pelo povo; em Marcos e Atos, mensagens cristãs convocam seus ouvintes. Nenhum exemplo sozinho esgota teshuvá ou metánoia. O retorno pode envolver mente, afeto, relações e atos, mas cada texto distribui esses elementos de maneira própria. A pesquisa moderna usa léxicos e comparação histórica para não confundir raiz verbal, substantivo posterior, tradução grega e teologia desenvolvida. Assim a imagem do caminho permanece útil sem ocupar o lugar da evidência. [Brown–Driver–Briggs, H7725; Jewish Encyclopedia, “Repentance”; Thayer, G3341]
Onde aparece
- Oseias 14:1
- Marcos 1:15
- Atos 3:19