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Apócrifos

Atos de Barnabé

Atos Apócrifos

1 capítulo · leitura e narração

Capítulos

Nota de leitura

Texto apócrifo ou pseudepígrafo — não faz parte do cânone das igrejas ocidentais, mas circulou amplamente entre judeus e cristãos antigos. Texto em inglês: Ante-Nicene Fathers, vol. 8 (Buffalo: Christian Literature Publishing Co., 1886), Alexander Walker, 1886 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: Ante-Nicene Fathers, vol. 8 (Buffalo: Christian Literature Publishing Co., 1886), Alexander Walker (1886) · domínio público

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Autoria, data e contexto

Os Atos de Barnabé (Acta Barnabae, formalmente intitulados Viagens e Martírio do Santo Apóstolo Barnabé) apresentam-se sob o pseudônimo de João Marcos, companheiro apostólico de Paulo e Barnabé, relatando sua conversão em Icônio e seu ministério como auxiliar direto na ilha de Chipre. A crítica histórica e patrística rejeita unanimemente a autoria apostólica de João Marcos, classificando a obra como uma pseudepigrafia hagiográfica tardia elaborada em língua grega.

A redação original situa-se no final do século V d.C. (por volta de 485 a 488 d.C., sob o reinado do imperador bizantino Zenão) ou início do século VI, conforme estabelecido por Richard Adelbert Lipsius, Maximilien Bonnet, Hippolyte Delehaye e Tony Burke. O contexto histórico-eclesial reflete a renhida disputa jurídica entre o patriarcado de Antioquia (que reivindicava jurisdição eclesiástica sobre Chipre) e o episcopado cipriota liderado pelo arcebispo Antêmio de Salamina. O texto serviu como carta de fundação apostólica independente para justificar a autocefalia da Igreja de Chipre, corroborada pela narrativa da miraculosa descoberta do sepulcro de Barnabé contendo sobre o peito um exemplar autógrafo do Evangelho de São Mateus.

Estrutura

A obra não tem divisão em capítulos e aparece no site como um capítulo só, desprovida de divisões capitulares formais nos códices medievais.

O argumento articula-se em quatro sequências cronológicas sucessivas: a conversão de João em Icônio, a altercação de Paulo em Antioquia e a separação lacrimosa entre os apóstolos devido à permanência de Marcos em Panfília; a travessia marítima da Cilícia e a chegada à costa cipriota, operando a cura instantânea de servidores do templo mediante a imposição do Evangelho de Mateus; o itinerário missionário por diversas cidades de Chipre, a consagração episcopal de Heráclides em Tamaso, a destruição oracular de altares pagãos imorais em Cúrio e a perseguição persistente movida pelo mago Barjesus; e o clímax dramático em Salamina, onde Barnabé ensina na sinagoga, é linchado e queimado vivo por amotinados, tendo suas cinzas e o Evangelho resgatados em segredo por Marcos e sepultados numa caverna antes da fuga para Alexandria.

Temas e passagens-chave

Os eixos teológicos estruturais destacam a fundação apostólica autóctone e a autoridade patriarcal da Igreja cipriota, o estatuto taumatúrgico e sagrado do texto escrito do Evangelho de Mateus (usado como instrumento físico de cura e relíquia inseparável de Barnabé), o combate radical aos cultos pagãos imorais de Apolo e Afrodite, e a dignificação moral de João Marcos através da perseverança evangélica.

No momento em que Paulo rejeita a companhia de Marcos em Antioquia, Barnabé pronuncia o princípio orientador da fidelidade apostólica, textualmente preservado nas fontes: 'The grace of God does not desert him who has once served the Gospel and journeyed with us.'

Resumo por partes

Conversão de Marcos e cisão em Antioquia: João, ex-servo do sacerdote de Júpiter em Icônio, é batizado por Paulo e Barnabé e recebe em visão o nome de Marcos; após auxiliar na Panfília, reúne-se com os apóstolos em Antioquia; Paulo recusa terminantemente levá-lo por ter guardado pergaminhos e atrasado a jornada; Barnabé defende o companheiro, derrama lágrimas de afeto aos pés de Paulo e parte com Marcos rumo a Chipre.

Navegação na Cilícia e chegada a Chipre: Barnabé e Marcos aportam em Anemúrio, onde instruem e batizam dois gregos cobrindo-os com vestes incorruptíveis; cruzam para o cabo Cromiacita em Chipre, encontrando os servos Timon e Aríston abatidos por febres severas; Barnabé impõe sobre eles o códice do Evangelho que recebera de Mateus, operando a cura imediata.

Circuito pelas cidades e combate aos ídolos: Percorrem Lapito e Lampadisto, consagrando Heráclides como primeiro bispo de Tamaso para ordenar clérigos na ilha; em Cúrio, deparam-se com uma corrida licenciosa de homens e mulheres desnudos e, ante a repreensão de Barnabé, o templo pagão desaba ferindo os idólatras; o feiticeiro judeu Barjesus, hostil a Paulo e Barnabé, fecha-lhes as portas de Pafos e Amathus, forçando os missionários a sacudir a poeira dos pés.

Martírio em Salamina e refúgio em Alexandria: Em Salamina, Barnabé desdobra o Evangelho de Mateus e ensina na sinagoga; instigados por Barjesus, judeus sublevados amarram o apóstolo pelo pescoço com cordas, arrastam-no ao hipódromo e o queimam até que seus ossos se transformem em cinzas; Marcos, Timon e Ródão resgatam as cinzas e as sepultam numa caverna secreta junto com o livro de Mateus; perseguidos pelos soldados, refugiam-se em grutas e embarcam em navio egípcio para Alexandria, onde Marcos firma seu ministério de batismo e pregação.

Recepção

Os Atos de Barnabé jamais foram integrados ao cânon do Novo Testamento, sendo catalogados pela crítica ocidental e pelo Decreto Gelasiano entre as narrativas apócrifas dos apóstolos. Não obstante, o escrito constituiu o pilar teológico e jurídico fundamental para a independência da Igreja Ortodoxa de Chipre, cuja autocefalia foi confirmada no Concílio de Éfeso (431 d.C.) e ratificada pelo imperador Zenão em 488 d.C., consolidando a veneração perpétua a São Barnabé como patrono e apóstolo nacional da ilha em 11 de junho.

A tradição grega conservou-se em manuscritos medievais notáveis a partir do século IX (destacando-se o Parisinus graecus 1470 de 890 d.C. e o Vaticanus graecus 1667 do século XI), além de recensões antigas em latim (Vita et passio Barnabae) e eslavo eclesiástico. A editio princeps grega foi publicada por Daniel Papebroek nos Acta Sanctorum (Iunii II, 1698), sendo fixada criticamente por Constantin von Tischendorf (1851) e Maximilien Bonnet em Acta Apostolorum Apocrypha (1903). Alexander Walker estabeleceu a tradução clássica para a língua inglesa em The Ante-Nicene Fathers (1886), reexaminada em edições modernas por Glenn E. Snyder (2016).

Fontes

Dossiê

O relato da missão e da morte de Barnabé em Chipre, escrito na primeira pessoa por quem diz ter estado lá: João Marcos.

De onde vem este texto

Grego, do século V d.C. Está ligado à descoberta do túmulo de Barnabé em Chipre, que garantiu à igreja cipriota o direito de se governar sozinha.

Por que não está na Bíblia

Fora de todos os cânones.

Datação, manuscritos e recepção

O texto se apresenta como obra de João Marcos, companheiro de Paulo, mas o autor real é desconhecido. A língua e a política eclesiástica que o texto reflete o situam no século V. Ele serve a uma disputa concreta: a independência da igreja de Chipre, declarada pelo Concílio de Éfeso em 431 e confirmada pelo imperador Zenão em 488, dependia de provar fundação apostólica, e o túmulo de Barnabé era essa prova.

O conteúdo alterna viagens de Barnabé e Paulo por Ásia Menor e Chipre, pregações e milagres, fundação de igrejas, consagração de bispos e, no fim, a morte e o sepultamento em Chipre. Não deve ser confundido com a Epístola de Barnabé, do século I ou II, nem com o Evangelho de Barnabé medieval, três obras sem ligação entre si.

O que você vai encontrar

  • É narrado por João Marcos, o mesmo que aparece em Atos dos Apóstolos, o que dá ao texto um tom de diário de viagem.
  • O itinerário pelas cidades de Chipre é detalhado o bastante para ter valor geográfico.
  • O martírio por apedrejamento e o corpo escondido numa gruta, com o evangelho de Mateus sobre o peito.

Perguntas frequentes

Por que este texto foi importante para Chipre?
Porque a descoberta do túmulo de Barnabé, que ele descreve, foi usada no século V para sustentar a autonomia da igreja de Chipre diante de Antioquia.

Fontes

  • A. Roberts & J. Donaldson (eds.), Ante-Nicene Fathers, vol. 8 (Buffalo: Christian Literature Publishing, 1886). (Acts of Barnabas).
  • R. A. Lipsius & M. Bonnet (eds.), Acta Apostolorum Apocrypha, 3 vols. (Leipzig: Mendelssohn, 1891–1903). (vol. 2.2).
  • F. Cross & E. Livingstone (eds.), The Oxford Dictionary of the Christian Church, 3rd ed. (Oxford: Oxford University Press, 2005), s.v. «Barnabas».

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