LUX VERITAS

Biblioteca de Textos Sagrados

Apócrifos

Atos e Martírio de Mateus

Atos Apócrifos

1 capítulo · leitura e narração

Capítulos

Nota de leitura

Texto apócrifo ou pseudepígrafo — não faz parte do cânone das igrejas ocidentais, mas circulou amplamente entre judeus e cristãos antigos. Texto em inglês: Ante-Nicene Fathers, vol. 8 (Buffalo: Christian Literature Publishing Co., 1886), Alexander Walker, 1886 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: Ante-Nicene Fathers, vol. 8 (Buffalo: Christian Literature Publishing Co., 1886), Alexander Walker (1886) · domínio público

Conhecer o livro: contexto, autoria e temas ↓

Ouvir este estudo

 

Autoria, data e contexto

Os Atos e Martírio de São Mateus (Acta et Martyrium Matthaei) são um relato apócrifo grego, de autor desconhecido, que leva o nome do apóstolo e evangelista Mateus, embora a crítica histórico-literária aponte frequentes contaminações e confusões onomásticas nos manuscritos com o apóstolo Matias, figurando como uma continuação narrativa e temática dos Atos de André e Matias na Cidade dos Antropófagos.

A data de composição não é estabelecida com precisão nas fontes consultadas.

Estrutura

A obra chega pelos manuscritos como um só bloco narrativo, que o site apresenta em 1 capítulo, dividida modernamente em trinta e três parágrafos nas edições críticas de Tischendorf e Bonnet.

O argumento desdobra-se em quatro movimentos dramáticos articulados: a teofania inicial na montanha, onde Cristo aparece a Mateus sob a figura de uma criança do Paraíso e lhe entrega uma vara miraculosa ordenando-o a descer à cidade canibal de Mirna; a chegada à cidade, onde Mateus é recebido pelo bispo Platão e planta a vara, a qual brota instantaneamente tornando-se uma árvore monumental com frutos e fontes doces que despojam os antropófagos de sua ferocidade carnal; o conflito com o rei pagão Fulvano, motivado pela cura e conversão ascética da rainha, do príncipe e da nora do soberano; e o martírio no fogo, durante o qual as chamas poupam o apóstolo e perseguem os ídolos régios, culminando no repouso celestial de Mateus e na espetacular conversão de Fulvano, que abdica do trono para assumir o episcopado local.

Temas e passagens-chave

Os eixos teológicos fulcrais articulam a eficácia regeneradora do batismo simbolizada nas águas e frutos da árvore miraculosa, a soberania de Cristo sobre os poderes demoníacos encarnados pelo demônio Asmodeu, a inviolabilidade espiritual do corpo do mártir frente à violência material, e a transformação radical de perseguidores cruéis em pastores arrependidos da Igreja.

Dentre as passagens mais impactantes sobressaem a visão de Jesus como criança cantora do Éden que instrui o apóstolo na montanha; a metamorfose milagrosa dos antropófagos ao provarem dos frutos celestes e banharem-se na fonte, recebendo inteligência humana e mansidão; o momento em que a pira funerária de enxofre e piche toma a forma de um dragão de fogo que cerca o palácio e consome os deuses de ouro e prata do monarca; e a profecia póstuma de Mateus anunciando que o rei Fulvano, batizado com o nome de Mateus, sucederia ao bispo Platão no governo pastoral de Mirna, concluindo seu curso em dezesseis de novembro.

Resumo por partes

A aparição celeste e a árvore da vida em Mirna: Enquanto orava descalço numa montanha, Mateus recebe a visita de Cristo sob o aspecto de uma criança formosa, que lhe confere uma vara mágica e ordena que a plante junto à porta da igreja fundada com André na cidade de Mirna, terra dos canibais. Recebido pelo bispo Platão e o clero, Mateus finca a vara no chão e ela brota instantaneamente até as nuvens, derramando favos de mel, frutos de doçura e rios límpidos. Os antropófagos acorrem famintos, alimentam-se e banham-se nas águas sagradas, sendo libertados da avidez desumana de carne e convertidos à civilidade e à fé.

Curas régias, o demônio Asmodeu e a fúria de Fulvano: Mateus expulsa o demônio Asmodeu que atormentava a rainha Fulvana, o jovem herdeiro e sua esposa Erva. Curada e batizada, a família régia abraça a virgindade e o serviço de oração junto à igreja. Enfurecido com a separação matrimonial de seus familiares e acusando o apóstolo de feitiçaria desestabilizadora, o rei Fulvano envia soldados para prender Mateus; contudo, sucessivos destacamentos militares caem cegos ou aterrorizados por visões angelicais. O próprio rei marcha contra o templo cristão e ordena que Mateus seja pregado ao solo com estacas de ferro na orla marítima.

O martírio do apóstolo e a conversão do rei episcopal: Mateus é coberto de papiros embebidos em pez, banha e enxofre, ateando-se fogo voraz. O apóstolo permanece orando ileso em meio às labaredas, enquanto o fogo transmuta-se numa serpente flamejante que persegue o rei até seu trono e calcina seus ídolos idolátricos. Mateus entrega serenamente o espírito a Deus. Atormentado pela culpa, Fulvano fecha os restos mortais num esquife de chumbo e os lança no abismo marinho; milagrosamente, as correntes depositam o caixão intacto na praia diante da catedral. Comovido com o prodígio, Fulvano professa Cristo, recebe o batismo com o nome de Mateus e, após o trânsito do bispo Platão três anos mais tarde, renuncia à coroa para se consagrar como segundo bispo da cidade.

Recepção

Os Atos e Martírio de Mateus jamais foram acolhidos no cânon das Escrituras do Novo Testamento, sendo classificados pela Igreja antiga e medieval entre os apócrifos apostólicos secundários de entretenimento piedoso. Apesar da desaprovação formal de tratados canônicos como o Decretum Gelasianum contra apócrifos pseudoapostólicos, a narrativa circulou amplamente na literatura litúrgica e lendária bizantina, fornecendo detalhes para o Menológio de Basílio II e as histórias eclesiásticas tardias de Nicéforo Calisto.

A tradição manuscrita conservou o texto em dezenas de códices gregos medievais, como o Vaticanus Graecus 866 (século XI) e o Vindobonensis Theologicus Graecus 34 (século XII). A obra alcançou difusão ecumênica no Oriente cristão através de versões em siríaco, árabe, copta, etíope (no Gadla Hawaryat), armênio e eslavão eclesiástico. A primeira edição crítica do texto grego original foi impressa por Constantin von Tischendorf em 1851 (Acta Apostolorum Apocrypha), aprimorada por Max Bonnet em 1898, e traduzida para o inglês por Alexander Walker em 1870 na série Ante-Nicene Fathers.

Fontes

Dossiê

A missão de Mateus na cidade dos comedores de homens e o martírio pelo fogo, que não o queima.

De onde vem este texto

Grego, de datação tardia e incerta, da mesma família de relatos que os Atos de André e Matias.

Por que não está na Bíblia

Fora de todos os cânones.

Datação, manuscritos e recepção

Este relato traz o apóstolo Mateus numa cidade de comedores de homens e termina com o seu martírio. Ele pertence à mesma família de atos que os Atos de André e Matias, em que André resgata Matias da cidade dos antropófagos, e as edições de referência dos textos gregos são as de Lipsius e Bonnet, publicadas entre 1891 e 1903.

O título pode enganar. A obra não deriva do Evangelho de Mateus nem o comenta: é uma narrativa de missão, milagres e martírio, escrita muito depois do século I. Os atos apócrifos, em geral, são lidos hoje como romances de edificação, e não como história da missão dos apóstolos, o que vale também para esta narrativa. A tradução inglesa mais acessível está no volume 8 da série Ante-Nicene Fathers.

O que você vai encontrar

  • A vara plantada que vira árvore com fonte e fruto ao mesmo tempo.
  • O fogo que se volta contra quem o acendeu, poupando o apóstolo.
  • O rei que se converte no fim e enterra o corpo com honras.

Perguntas frequentes

Este texto tem relação com o Evangelho de Mateus?
Nenhuma. É uma narrativa tardia sobre a missão e a morte do apóstolo, sem ligação literária com o evangelho canônico.

Fontes

  • R. A. Lipsius & M. Bonnet (eds.), Acta Apostolorum Apocrypha, 3 vols. (Leipzig: Mendelssohn, 1891–1903). (vol. 2.1).
  • A. Roberts & J. Donaldson (eds.), Ante-Nicene Fathers, vol. 8 (Buffalo: Christian Literature Publishing, 1886). (Acts and Martyrdom of Matthew).
  • W. Schneemelcher (ed.), New Testament Apocrypha, rev. ed., 2 vols. (Cambridge: James Clarke; Louisville: Westminster John Knox, 1991–1992). (vol. 2).

Leia também

↑ Voltar aos capítulos