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Autoria, data e contexto
Os Atos de Filipe (em grego Praxeis Philippou) constituem uma narrativa cristã apócrifa anônima e pseudoepigráfica atribuída ao apóstolo Filipe. Críticos e historiadores da literatura cristã primitiva, a exemplo de Richard Adelbert Lipsius, Max Bonnet, M. R. James e, mais recentemente, François Bovon e Christopher Matthews, datam a composição em língua grega entre meados do século quarto e o início do século quinto (aproximadamente 350 a 400 d.C.), situando seu berço na Ásia Menor, na região da Frígia em torno de Hierápolis.
O escrito reflete a espiritualidade de círculos encratitas rigoristas da Anatólia imperial tardia. A teologia do autor preconiza o celibato incondicional como exigência basilar da salvação, exorta à separação de casais, impõe o vegetarianismo estrito (dieta de pão e sal ou ervas) e concede protagonismo missionário e litúrgico sem paralelo a Mariame (irmã de Filipe, associada a Maria Madalena), que veste trajes masculinos e atua como pregadora e apóstola itinerante.
Estrutura
A obra apresenta-se na tradição editorial histórica condensada em três partes ou capítulos maiores (conforme a divisão clássica divulgada nas edições de Constantin von Tischendorf, Alexander Walker e M. R. James), correspondendo aos três grandes blocos preservados nos códices parisienses e vaticanos.
A primeira parte (Ato II) narra o ministério em Atenas, a controvérsia com os filósofos helenos e o confronto miraculoso contra o sumo sacerdote Ananias. A segunda parte (Atos III a IX) congrega as viagens missionárias pela Pártia, Azoto e Nicatera, com o prodígio da conversão do leopardo e do cabrito que passam a articular linguagem humana e o aniquilamento do dragão voador. A terceira parte (Ato XV e Martírio) culmina na missão urbana em Ofiórima (Hierápolis da Ásia), santuário pagão da víbora, descrevendo a conversão de Nicanora, o martírio de Filipe suspenso pelos calcanhares de cabeça para baixo, o abismo subterrâneo que traga os perseguidores, a reprimenda de Jesus e a morte serena do apóstolo. (Na descoberta moderna do Codex Xenophontos 32 no Monte Athos por François Bovon, verificou-se que o texto integral organiza-se em quinze atos sucessivos).
Temas e passagens-chave
O nervo doutrinário da obra articula-se em torno do encratismo radical, da renúncia aos atrativos corpóreos mundanos e da guerra espiritual contra a serpente primordial (o Diabo), adorada sob a figura da víbora mãe dos répteis em Hierápolis. Ressalta com nitidez o contraste entre a vingança humana e a paciência evangélica, manifestado na severa censura de Jesus a Filipe por ter amaldiçoado seus algozes com a abertura do abismo.
Entre as cenas mais marcantes destacam-se a transfiguração de Mariame num tabernáculo de fogo e vidro inacessível aos verdugos que tentavam desnudá-la, a ereção celeste de uma cruz de luz descida como escada triunfal para resgatar os condenados do Hades, o discurso místico de Filipe proclamando que sua crucificação invertida restaura a postura cósmica do primeiro Adão (tornando o inferior superior e o esquerdo direito) e a promessa de que de seu sangue derramado brotará uma videira santa para a celebração da Eucaristia.
Resumo por partes
O apostolado em Atenas e a derrota de Ananias (capítulo 1 / Ato II): Filipe chega a Atenas desprovido de posses materiais e atrai a admiração de trezentos filósofos; os letrados enviam cartas a Jerusalém requerendo a presença do sumo sacerdote Ananias, que marcha com quinhentos guardas armados para prender o apóstolo; Ananias avança para agredir Filipe, mas tem as mãos paralisadas e a visão apagada juntamente com sua tropa; o céu rasga-se e Jesus surge em resplendor que despedaça as estátuas idolátricas; obstinado na incredulidade, Ananias é engolido pela terra em etapas sucessivas até submergir no abismo, enquanto os quinhentos soldados são curados e batizados.
Prodígios nos caminhos, animais falantes e o dragão (capítulo 2 / Atos III-IX): O apóstolo cruza o mar rumo a Azoto após serenar tormentas violentas e cura a jovem Caritine; em Nicatera, converte o nobre Ireu e ressuscita Teófilo sobre o féretro fúnebre; ao avançar pelo deserto dos ofianos em direção à Ásia, um leopardo feroz que capturara um cabrito é tocado por voz divina e ambos os animais prostram-se perante os apóstolos, recebendo inteligência e voz humana para proclamar a glória divina; os viajantes confrontam uma imensa serpente esfumaçada de cem côvados, destruída mediante oração e aspersão do ar em sinal de cruz.
Martírio em Hierápolis e a escada da cruz de luz (capítulo 3 / Ato XV e Martírio): Filipe, Bartolomeu e Mariame entram em Ofiórima e hospedam-se na casa de Estáquio; a nobre Nicanora, mulher do procônsul, é curada de enfermidades visuais e abraça a castidade perpétua; enfurecido, o tirano manda açoitar os missionários e prender Filipe numa árvore pelos artelhos e calcanhares de cabeça para baixo; irritado com as crueldades, Filipe profere imprecações em hebraico e a terra abre-se, tragando o procônsul, o templo da serpente e sete mil habitantes; Cristo intervém do céu, adverte o discípulo sobre a falta de amor aos inimigos e determina que ele permaneça quarenta dias fora do paraíso sob a espada chamejante; uma cruz fulgurante desce aos infernos e recolhe a multidão penitente; Filipe consagra Estáquio bispo e falece pacificamente, sendo sepultado envolto em folhas de papiro.
Recepção
Os Atos de Filipe foram excluídos formalmente do cânon oficial do Novo Testamento, figurando com reprovação no Decreto Gelasiano (De libris recipiendis et non recipiendis) no final do século quinto em razão de sua matriz encratita e elementos lendários extravagantes. Santo Agostinho e escritores ocidentais rejeitaram o escrito, ao passo que a Igreja bizantina preservou excertos hagiográficos integrados no sinaxário e nas leituras comemorativas do apóstolo em Hierápolis.
A tradição textual impressa inaugurou-se no século dezenove com a publicação dos Atos parciais por Constantin von Tischendorf (1851), Pierre Batiffol (1890) e a clássica edição de Max Bonnet em Acta Apostolorum Apocrypha (1903). Em 1974, a descoberta fortuita realizada pelos professores François Bovon e Bertrand Bouvier do Codex Xenophontos 32 (século XIV) no Monte Athos recuperou pela primeira vez os atos perdidos XI a XIV e o texto integral do grande romance apostólico.
Fontes
- Alexander Walker, The Acts of Philip (1870).
- Montague Rhodes James, The Acts of Philip (1924).