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Autoria, data e contexto
O Evangelho de Bartolomeu (designado nos manuscritos gregos e latinos sobreviventes como Questões de Bartolomeu, Quaestiones Bartholomaei) apresenta-se pseudepigraficamente como o relato das revelações místicas concedidas pelo Cristo ressuscitado ao apóstolo Bartolomeu. São Jerônimo, no prólogo do seu Comentário sobre Mateus, menciona expressamente a existência de um Evangelho atribuído a Bartolomeu entre os apócrifos antigos ao lado dos evangelhos de Tomé e Matias. A crítica histórico-filológica moderna, representada por Montague Rhodes James, André Wilmart e Eugène Tisserant, reconhece que as Questões de Bartolomeu preservam substancialmente o conteúdo desse texto antigo.
Composta originariamente em grego koiné no ambiente cristão oriental (com provável berço no Egito ou na Síria), a redação primitiva é situada pela maioria dos especialistas entre os séculos terceiro e quinto d.C. (por volta de 250 a 400 d.C.). O documento assume o formato literário do diálogo de revelação pós-pascal para explorar temas teológicos caros à piedade da Antiguidade tardia: a descida redentora de Cristo aos infernos (descensus ad inferos), a dignidade transcendente da Virgem Maria e a subjugação física do demônio Beliar perante a autoridade apostólica.
Estrutura
A obra organiza-se formalmente em cinco capítulos dialogais bem demarcados nas edições críticas contemporâneas.
A divisão dos conteúdos abrange cinco grandes núcleos temáticos: o capítulo I aborda o relato da descida triunfal de Cristo ao Hades durante as horas da crucifixão, a libertação de Adão e o cálculo escatológico das almas que perecem versus as que herdam o Paraíso; o capítulo II registra a narração íntima da Virgem Maria sobre a Anunciação e a concepção divina no Templo de Jerusalém, culminando na erupção de chamas de sua boca que quase consomem a criação; o capítulo III descreve a ascensão dos apóstolos ao Monte Máuria e a contemplação pavorosa do abismo cósmico desvelado pelos anjos do Ocidente; o capítulo IV, o mais extenso do livro, detalha a convocação de Beliar/Satanás do Tártaro em correntes incandescentes, sua humilhação sob os pés de Bartolomeu e sua confissão detalhada sobre a hierarquia angélica e as artes do engano humano; e o capítulo V encerra a revelação com inquirições morais sobre os pecados capitais, a blasfêmia contra o Espírito Santo e a bênção de envio apostólico.
Temas e passagens-chave
Os eixos teológicos fulcrais articulam a aniquilação do cativeiro da morte pelo descenso de Cristo ao abismo, a maternidade divina e pureza de Maria como sacrário inefável que conteve o Criador do universo, a derrota escatológica de Satanás e a complexa angelologia dos fenômenos climáticos e naturais (ventos, granizo, trovões e mares).
Subjugado no capítulo quatro por Bartolomeu, que pisa firmemente em seu pescoço sob o amparo do Salvador, o demônio revela sua identidade primordial e sua queda: 'at the first I was called Satanael, which is interpreted a messenger of God, but when I rejected the image of God my name was called Satanas'
Resumo por partes
A vitória sobre o Hades e o resgate de Adão (Capítulo I): Bartolomeu indaga o Senhor sobre seu mistério na cruz; Cristo responde que desceu ao mundo inferior para libertar o primeiro homem formado e os patriarcas a rogo de Miguel, apavorando os arcontes do Hades; revela também que trinta mil almas morrem a cada dia no mundo, mas pouquíssimas são recolhidas ao seio de Abraão.
O mistério da encarnação narrado por Maria (Capítulo II): Interrogada pelos apóstolos, a Mãe do Senhor relata como foi alimentada por um anjo no Templo e concebeu o Verbo após partilhar de um pão e cálice celestiais; quando chamas começam a sair de sua boca pelo teor insondável do mistério, Jesus intervém e sela os lábios marianos para poupar a terra.
A visão apavorante do abismo cósmico (Capítulo III): Conduzidos ao Monte Máuria, os discípulos pedem para enxergar as profundezas da criação; Jesus ordena aos anjos do Ocidente que enrolem a crosta terrestre como um livro, fazendo os apóstolos desmaiarem de pavor perante as voragens do abismo.
A convocação e subjugação de Beliar (Capítulo IV): Ao soar da trombeta de Miguel, o demônio Beliar surge do Tártaro escoltado por anjos com correntes de fogo; fortalecido por Cristo, Bartolomeu calca o pescoço da besta, que confessa a sua criação como o anjo primogênito Satanael, enumera as falanges angélicas que regem os ventos e expõe as rodas de tortura com que castiga idólatras, hipócritas e adúlteros.
Instrução moral e partida gloriosa (Capítulo V): O apóstolo recebe esclarecimentos sobre a gravidade da fornicação e a pureza matrimonial, sendo alertado de que o pecado contra o Espírito Santo é desprovido de remissão; confortando os Doze com a promessa de sua presença contínua, Cristo ascende aos céus.
Recepção
O Evangelho de Bartolomeu foi formalmente condenado como apócrifo e rejeitado para uso na Igreja no célebre Decreto Gelasiano (século sexto) e na literatura patrística ocidental e oriental. Não obstante as proibições institucionais, o escrito desfrutou de ampla aceitação devocional em mosteiros bizantinos, latinos e eslavos durante a Idade Média, inspirando sermões populares e a literatura escatológica sobre as penas infernais.
A tradição textual chegou à contemporaneidade por meio de três ramificações linguísticas: em grego (manuscritos de Viena e Jerusalém dos séculos doze e treze), em eslavo eclesiástico antigo (códices dos séculos treze a dezesseis) e em latim (dois fólios carolíngios do século nono e o manuscrito integral Casanatense 1080 do século onze, originário de Monte Amiata). As edições críticas de André Wilmart e Eugène Tisserant na Revue Biblique (1913) e de Ubaldo Moricca (1921-1922) forneceram o alicerce para a consagração acadêmica da obra na tradução de Montague Rhodes James em The Apocryphal New Testament (1924).
Fontes
- Montague Rhodes James, The Gospel of Bartholomew (The Apocryphal New Testament) (1924).
- Tony Burke; Rick Brannan, Questions of Bartholomew (e-Clavis: Christian Apocrypha) (2019).