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Autoria, data e contexto
O relato de Susana constitui uma adição deuterocanônica ao Livro de Daniel, fixado no capítulo treze da Vulgata Latina. Críticos textuais e historiadores bíblicos, como Louis F. Hartman, David A. deSilva e Carey A. Moore, situam a redação anônima no período helenístico tardio ou hasmoneu, entre os séculos segundo e primeiro a.C., no contexto da Diáspora judaica babilônica ou alexandrina.
Desde a Antiguidade debate-se a língua de composição: Júlio Africano sustentou em carta célebre a Orígenes (c. 221 d.C.) que o original era grego devido aos trocadilhos sonoros intraduzíveis entre as árvores mencionadas pelos juízes e as sentenças de punição proferidas por Daniel (esquino com esquise; prino com prise). Por sua vez, Orígenes e exegetas modernos admitiram a hipótese de um conto tradicional semítico prévio enriquecido por recursos poéticos no ambiente de língua grega.
Estrutura
A narrativa perfaz um único capítulo autônomo e coeso, estruturado convencionalmente em sessenta e quatro versículos com forte dinâmica dramática.
Os versículos 1 a 14 introduzem o domicílio nobre de Joaquim na Babilônia, a virtude de sua esposa Susana e a concupiscência clandestina de dois anciãos magistrados do tribunal comunitário. Os versículos 15 a 27 mostram a emboscada no pomar fechado durante o banho, a recusa heroica de Susana e a calúnia armada pelos magistrados rejeitados. Os versículos 28 a 44 relatam o julgamento sumário perante o povo, a condenação injusta à morte por apedrejamento e o clamor confiante da inocente aos céus. A resolução final (versículos 45 a 64) apresenta a intervenção inspirada de Daniel, a separação dos acusadores para inquirição individual, o desmascaramento do perjúrio e a execução da retribuição da Lei mosaica.
Temas e passagens-chave
O cerne narrativo celebra a castidade conjugal inviolável, o primado do temor de Deus sobre a coerção social e a salvação do justo desprotegido mediante a sabedoria jurídica conferida pelo Espírito Divino. O episódio introduziu na jurisprudência clássica o princípio processual da inquirição separada de testemunhas.
Diante da chantagem imoral no jardim, Susana expressou sua resolução inabalável no versículo vinte e três, quando prefere cair nas mãos dos anciãos sem ceder a pecar diante do Senhor.
Resumo por partes
Cobiça dos magistrados e cerco (versículos 1-14): Susana, formosa e devota filha de Hilquias, passeia pelo pomar de Joaquim; dois juízes idosos encarregados da governança do povo ardem em paixão secreta e combinam surpreendê-la a sós.
A chantagem no jardim e o falso testemunho (versículos 15-27): Aproveitando o retiro das criadas que foram buscar óleos de banho, os anciãos exigem que Susana ceda ao desejo carnal sob ameaça de denunciarem que a flagraram com um jovem adúltero; aos gritos de socorro, o falso escândalo é disseminado.
O tribunal iníquo e a oração da vítima (versículos 28-44): Reunida a comunidade no dia seguinte, os réprobos prestam depoimento juramentado; a assembleia dá crédito cego aos magistrados e condena a mulher à morte, momento em que Susana eleva os olhos às alturas atestando sua pureza absoluta perante o Deus dos segredos.
A acareação de Daniel e o triunfo da verdade (versículos 45-64): O Espírito de Deus comove o jovem Daniel, que repreende a leviandade do povo e interroga cada ancião isoladamente; um alega ter visto o crime sob um lentisco e o outro sob uma azinheira, comprovando-se a farsa e punindo-se os perversos com a pena de talião.
Recepção
O conto ingressou nas Escrituras gregas em duas recensões famosas: a Septuaginta antiga (preservada no Papiro 967 e no Códice Chisianus) e a versão de Teodócio, que foi preferida pela Igreja primitiva e incorporada por Jerônimo na Vulgata Latina. O Concílio de Trento (1546) confirmou solenemente seu caráter canônico e inspirado.
Nas catacumbas de Roma, afrescos do século terceiro (como os de Priscila e Calisto) pintavam Susana entre os anciãos como ícone de oração e prefiguração da Igreja perseguida liberta pelo Redentor. A Reforma Protestante retirou-a do livro bíblico canônico, alocando-a entre os apócrifos de Daniel.
Fontes
- Francis Gigot, Book of Daniel: Deutero-canonical Portions (The Catholic Encyclopedia) (1908).
- Peter Kirby; James King West; Louis F. Hartman, Susanna (Early Jewish Writings) (2013).