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Autoria, data e contexto
O Livro de João sobre a Dormição de Maria (tradicionalmente intitulado na literatura erudita como O Relato de São João, o Teólogo, sobre a Dormição da Santa Mãe de Deus ou sob o título latino De Obitu S. Dominae) é uma obra apócrifa cristã redigida originariamente em língua grega sob a autoridade pseudepigráfica do apóstolo e evangelista São João, o Teólogo, a quem o Senhor crucificado confiara a guarda filial da Virgem Maria junto à cruz.
Pesquisadores da patrística e das tradições apócrifas marianas, como Frederick Holweck e George Reid na Catholic Encyclopedia, bem como Brian Daley e Stephen Shoemaker, situam a cristalização dessa recensão grega entre o final do século IV e o século V d.C. (por volta de 400 d.C.) no ambiente cultural da Palestina e de Bizâncio. O escrito emergiu no contexto da definição dogmática de Maria como Theotokos (Mãe de Deus) no Concílio de Éfeso (431 d.C.) e acompanhou o florescimento das festividades litúrgicas da Dormição (fixada no calendário imperial pelo imperador Maurício no século VI no dia 15 de agosto).
Estrutura
O texto estrutura-se na tradição manuscrita e nas edições modernas em capítulo único contínuo, articulado pela crítica histórico-literária em quatro blocos narrativos bem demarcados.
O primeiro segmento descreve a anunciação angélica da partida da Virgem por Gabriel no Santo Sepulcro em Jerusalém, o retorno a Belém e a súplica orante para que Cristo envie o apóstolo João e os demais discípulos. O segundo momento retrata a reunião miraculosa do colégio apostólico conduzido sobre nuvens celestes dos confins do mundo e a ressurreição provisória de apóstolos já falecidos, seguida por prodígios de cura em Belém e a transferência portentosa da casa para Jerusalém em meio à cólera dos sacerdotes. A terceira seção relata a teofania de Cristo, que desce em glória sobre trono de querubins na alvorada do domingo, abençoa a mãe, promete socorro eterno a quantos invocarem seu nome e recolhe Sua alma puríssima entre aclamações celestes de Aleluia. O quarto segmento coroa o relato com o cortejo fúnebre rumo ao Getsêmani, a amputação e reintegração miraculosa das mãos do hebreu Jefonias, o sepultamento virginal e a transladação corpórea de Maria ao Paraíso contemplada em visão gloriosa pelos apóstolos.
Temas e passagens-chave
Os temas fundamentais abraçam a santidade perene da Theotokos, a união universal de toda a Igreja apostólica (tanto os vivos em terras remotas quanto os mártires adormecidos) ao redor do trânsito de Maria, a eficácia redentora e protetora de sua intercessão celestial e a vitória sobre a morte expressa na transladação corporal incorrupta ao Paraíso celeste.
Em promessa consoladora proferida antes de recolher a alma materna, o Salvador proclama o valor perene do patrocínio de Maria: "every soul that calls upon thy name shall not be ashamed, but shall find mercy, and comfort, and support, and confidence"
Resumo por partes
Anúncio de Gabriel e oração de Maria: Orando no sepulcro de Jesus, a Virgem é visitada pelo arcanjo Gabriel, que lhe anuncia que suas preces foram aceitas e que sua partida deste mundo para a vida eterna junto ao Filho dar-se-á em breve. Em Belém, assistida por três virgens, Maria queima incenso e roga a Cristo que lhe envie João e todos os apóstolos dispersos pelas nações.
A reunião miraculosa dos apóstolos em nuvens: Arrebatado repentinamente de Éfeso em uma nuvem luminosa, o apóstolo João surge na porta da casa de Maria. Em resposta à súplica, o Espírito Santo transporta os demais apóstolos de seus campos de missão — Pedro de Roma, Paulo de Tibéria, Tomé da Índia, Bartolomeu da Tebaida e Marcos de Alexandria —, despertando milagrosamente dos túmulos os discípulos falecidos para saudarem a Senhora. Enquanto multidões acorrem recebendo alívio de enfermidades e cegueiras, sacerdotes hostis exigem a expulsão da família sagrada, mas o Espírito transporta a moradia em nuvem para Jerusalém, onde uma labareda angelical afugenta os perseguidores.
A descida de Cristo e o trânsito da alma: No domingo da ressurreição, Jesus descende sobre um carro de querubins com miríades de potestades celestes. Maria pede bênçãos e clemência para qualquer pessoa que no futuro recorde seu nome em oração, petição deferida solenemente pelo Salvador. Entoando Pedro o hino sagrado sob o uníssono do Aleluia angélico, a face de Maria irradia uma luz celestial fulgurante, e o Senhor recebe Sua alma sem mácula, enchendo o ambiente de suaves aromas.
O milagre de Jefonias e a glória no Paraíso: Durante o cortejo fúnebre para o Getsêmani, o nobre hebreu Jefonias investe furiosamente contra o féretro para derribá-lo; de imediato, um anjo com espada de fogo corta-lhe ambos os braços na altura dos ombros. Implorando misericórdia de joelhos e proclamando que Cristo gerado de Maria é o verdadeiro Deus, Jefonias é curado por São Pedro, tendo as mãos recolocadas no corpo. Após depositarem o corpo sagrado em sepulcro novo, ouvem-se harmonias angélicas por três dias ininterruptos, findos os quais os apóstolos contemplam a santa Mãe de Deus corpóreamente transladada ao Paraíso celestial, cercada pelos patriarcas e profetas na luz eterna.
Recepção
O escrito representou uma das matrizes teológicas e litúrgicas mais fecundas do ciclo do Transitus Mariae na cristandade antiga. Seus episódios nutriram diretamente a hinografia bizantina e as célebres homilias dos Padres da Igreja sobre a Dormição, proferidas por teólogos renomados como São João Damasceno, São Modesto de Jerusalém, Santo André de Creta e João de Tessalônica. No Ocidente medieval, elementos de sua narrativa foram integrados por São Gregório de Tours em De Gloria Martyrum e moldaram a festa litúrgica da Assunção de 15 de agosto.
A preservação textual assenta-se em conceituados códices gregos medievais, como os manuscritos da Biblioteca Marciana de Veneza (gr. II 42), da Biblioteca Nacional da França em Paris e do mosteiro de São João em Patmos. A obra foi publicada em edição crítica monumental por Constantin von Tischendorf em Apocalypses Apocryphae (Leipzig, 1866) e vertida ao inglês por Alexander Walker no oitavo volume da coleção Ante-Nicene Fathers.
Fontes
- Alexander Walker (trad.); Philip Schaff (ed.), The Book of John Concerning the Falling Asleep of Mary (ANF vol. 8) (1885).
- Frederick Holweck, The Feast of the Assumption (Catholic Encyclopedia) (1907).
- George Reid, Apocrypha (Catholic Encyclopedia) (1907).