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Autoria, data e contexto
O termo siríaco Peshitta ('a versão simples' ou 'comum', do particípio passivo pshīṭtā) designa a versão padrão das Escrituras em língua siríaca (dialeto aramaico oriental de Edessa). No âmbito específico das coleções apócrifas de cinco partes referenciadas na tradição dos estudos bíblicos e pseudepigráficos ('Peshitta, 5 cap.'), os pesquisadores destacam o corpus célebre dos 'Cinco Salmos Siríacos de David' (Salmos 151 a 155), preservado com exclusividade ao lado do Saltério canônico em manuscritos antigos da Peshitta (notadamente no Codex Ambrosianus 12t1 de Milão e no manuscrito Mingana Syr. 31), conforme documentam James H. Charlesworth e J. A. Sanders no Early Jewish Writings e Emil G. Hirsch na Jewish Encyclopedia.
A gênese dessa literatura remonta ao judaísmo do Segundo Templo na Judeia entre o século terceiro a.C. e o século primeiro d.C., quando poemas davídicos circulavam em hebraico antes da destruição de Jerusalém. Simultaneamente, a própria Peshitta do Antigo Testamento teve suas cinco partes seminais (o Pentateuco) traduzidas do hebraico no século primeiro da nossa era, tradicionalmente associadas à corte de Adiabene (sob o rei Izates) e à difusão siríaca em Edessa.
Estrutura
O conjunto dos Cinco Salmos Apócrifos Siríacos da Peshitta estrutura-se organicamente em cinco composições poéticas numeradas correlativamente como Salmos 151 a 155 (ou Salmos 1 a 5 da série siríaca).
O Salmo 1 (Salmo 151) celebra a eleição de David do pastoreio campestre à unção real e sua vitória sobre Golias; o Salmo 2 (Salmo 154) constitui uma exortação comunitária sapiencial para glorificar o Senhor na assembleia dos justos; o Salmo 3 (Salmo 155) apresenta uma oração penitencial individual de súplica por livramento do pecado e dos abismos da morte; o Salmo 4 (Salmo 152) registra a prece de David em perigo contra o leão e o lobo que atacaram o rebanho paterno; e o Salmo 5 (Salmo 153) coroa a coletânea com uma ação de graças jubilosa pelo resgate diante das feras do campo.
Temas e passagens-chave
Os temas centrais expressam a teologia davídica da eleição divina dos humildes, a confiança inabalável no auxílio de Deus nas provações da vida pastoral e militar, o louvor comunitário da Sabedoria celestial e o resgate da alma sincera perante a opressão de inimigos e feras selvagens. Essas poesias testemunham a vitalidade espiritual e hinológica do judaísmo aramaico pré-rabínico conservado pelo cristianismo oriental.
Destacando a pioneira difusão acadêmica e a integridade filológica dessa tradição poética preservada nos manuscritos siríacos, James Charlesworth registra em sua análise histórica: "The Five Syriac Psalms were translated by W. Wright".
Resumo por partes
A eleição do pastor e a vitória sobre o gigante (Salmo 151): David recorda sua juventude apascentando ovelhas e fabricando harpas com as mãos, até que o Senhor enviou seu anjo para tirá-lo do rebanho, ungi-lo acima de seus irmãos formosos e conceder-lhe vitória decapitando o filisteu.
Louvor coletivo e consagração da Sabedoria (Salmo 154): A assembleia dos santos é convocada a entoar melodias sagradas ao Altíssimo, reconhecendo que a instrução de Deus ilumina os simples e recompensa os fiéis que meditam em seus preceitos.
Súplica penitencial e livramento da cova (Salmo 155): O salmista prostrado clama pelo perdão de suas culpas, implorando que a misericórdia de Yahweh afaste a angústia da condenação e preserve sua alma do poder de Sheol.
Combate contra as feras e ação de graças salvífica (Salmos 152 e 153): David suplica coragem contra o lobo e o leão predador que buscavam despedaçar seu rebanho e sua própria alma, concluindo com um cântico vibrante de louvor pela libertação miraculosa operada pela mão divina.
Recepção
A antiguidade venerável dos salmos siríacos da Peshitta foi espetacularmente confirmada em 1956 com a descoberta do grande Rolo de Salmos da Caverna 11 de Qumrán (11QPsa), onde os textos hebraicos originais dos Salmos 151, 154 e 155 foram encontrados copiados na primeira metade do primeiro século d.C., demonstrando que circulavam na Judeia muito antes de sua compilação em Edessa.
Na tradição eclesiástica, a Peshitta permaneceu como a Bíblia viva e litúrgica das Igrejas de tradição siríaca (Igreja do Oriente, Ortodoxa Siríaca e Maronita). Os cinco salmos foram editados criticamente no Ocidente moderno por William Wright em 1887, Alphonse Mingana em 1927 e Martin Noth em 1930, figurando na edição crítica monumental do Peshitta Institute de Leiden.
Fontes
- Peter Kirby; James H. Charlesworth; J. A. Sanders, More Psalms of David (Early Jewish Writings) (2013).
- Emil G. Hirsch; M. Seligsohn, Peshiṭta (Jewish Encyclopedia) (1906).