E o anjo que me fora enviado, cujo nome era Uriel, respondeu-me,
2E disse: O teu coração foi longe demais neste mundo, e pensas tu compreender os caminhos do Altíssimo?
3Então disse eu: Sim, meu senhor. E ele me respondeu e disse: Sou enviado para te mostrar três caminhos e propor-te três parábolas;
4Das quais, se puderes declarar-me uma, também te mostrarei o caminho que desejas ver, e te ensinarei de onde procede o coração maligno.
5E eu disse: Fala, meu senhor. Então me disse ele: Vai, pesa-me o peso do fogo, ou mede-me o sopro do vento, ou faze-me voltar o dia que já passou.
6Então respondi e disse: Que homem é capaz de fazer isto, para que de mim exijas tais coisas?
7E ele me disse: Se eu te perguntasse quão grandes moradas há no meio do mar, ou quantas fontes há no princípio do abismo, ou quantas correntes de águas estão sobre o firmamento, ou quais são as saídas do paraíso;
8Talvez me dirias: Nunca desci ao abismo, nem até ao inferno, nem jamais subi ao céu.
9Contudo, agora não te perguntei senão acerca do fogo e do vento, e do dia pelo qual passaste, coisas das quais não podes estar separado; e contudo nada disto podes responder-me.
10Disse-me ainda: As coisas que são tuas e que cresceram contigo, não as podes conhecer;
11Como, pois, poderá o teu vaso compreender o caminho do Altíssimo, e, estando o mundo exteriormente corrompido, entender a corrupção que é patente aos meus olhos?
12Então lhe disse eu: Melhor nos fora não existir de modo algum, do que vivermos ainda na maldade, e sofrermos, sem saber por quê.
13Ele me respondeu e disse: Fui a uma floresta numa planície, e as árvores consultaram entre si,
14E disseram: Vinde, vamos e pelejemos contra o mar, para que ele se retire de diante de nós, e façamos para nós outras matas.
15Semelhantemente, as vagas do mar tomaram conselho e disseram: Vinde, subamos e sujeitemos os bosques da planície, para que ali também nos façamos outra região.
16Mas o desígnio do bosque foi vão, porque o fogo veio e o consumiu.
17Do mesmo modo o intento das ondas do mar se reduziu a nada, porque a areia se levantou e as deteve.
18Se fosses agora juiz entre estas duas coisas, a qual começarias a justificar, ou a qual condenarias?
19Respondi e disse: Verdadeiramente foi vão o pensamento que ambas maquinaram; porque a terra foi dada ao bosque, e o mar também tem o seu lugar para suster as suas vagas.
20Então me respondeu ele e disse: Deste um julgamento reto; porém por que não julgas a ti mesmo também?
21Porque, assim como a terra é dada à floresta e o mar às suas ondas, assim também os que habitam sobre a terra não podem entender senão o que está sobre a terra; e aquele que habita sobre os céus pode tão somente entender as coisas que estão acima da altura dos céus.
22Então respondi e disse: Rogo-te, ó Senhor, que me dês entendimento:
23Porque não foi meu intento indagar acerca das coisas do alto, mas daquelas que passam diariamente por nós; a saber, por que Israel é entregue como opróbrio aos gentios, e por que causa o povo a quem amaste foi entregue a nações ímpias; e por que a lei de nossos pais foi reduzida a nada, e os pactos escritos perderam o efeito;
24E nós passamos deste mundo como gafanhotos, e a nossa vida é espanto e temor, e não somos dignos de alcançar misericórdia.
25Que fará ele, pois, ao seu nome pelo qual somos chamados? Acerca destas coisas perguntei.
26Então ele me respondeu e disse: Quanto mais esquadrinhares, tanto mais te maravilharás; porque o mundo se apressa velozmente para passar,
27E não pode compreender as coisas que estão prometidas aos justos no tempo vindouro; porque este século está cheio de injustiça e de enfermidades.
28Mas acerca das coisas de que me perguntas, eu te direi; pois o mal foi semeado, mas a sua destruição ainda não veio.
29Se, pois, aquilo que foi semeado não for transtornado, e se não passar o lugar onde o mal foi semeado, não poderá vir o lugar onde o bem é semeado.
30Porque o grão de semente má foi semeado no coração de Adão desde o princípio; quanta impiedade não tem gerado até este tempo, e quanto produzirá ainda até que venha o tempo da debulha?
31Considera, pois, por ti mesmo, quão grande fruto de iniquidade produziu o grão de semente má.
32E quando forem ceifadas as espigas, as quais são sem número, quão grande eira encherão?
33Então respondi e disse: Como e quando hão de suceder estas coisas? Por que são os nossos anos poucos e maus?
34E ele me respondeu, dizendo: Não te apresses mais do que o Altíssimo; pois a tua pressa é vã para estar acima dele, porque nisso tens excedido muito.
35Não perguntaram também as almas dos justos acerca destas coisas nas suas câmaras, dizendo: Até quando esperarei desta maneira? Quando virá o fruto da eira da nossa recompensa?
36E a estas coisas respondeu-lhes o arcanjo Uriel, dizendo: Quando o número das sementes estiver completo em vós; porque ele pesou o mundo na balança.
37Por medida mediu os tempos, e por número contou os tempos; e não os moverá nem os agitará, até que a dita medida se cumpra.
38Então respondi e disse: Ó Senhor soberano, também nós todos estamos cheios de impiedade.
39E porventura por causa de nós é que as eiras dos justos não estão cheias, por causa dos pecados dos que habitam sobre a terra.
40Então ele me respondeu e disse: Vai ter com a mulher grávida, e pergunta-lhe se, tendo cumprido os seus nove meses, poderá o seu ventre reter o feto por mais tempo dentro de si.
41Então disse eu: Não, Senhor, isso não pode ela fazer. E ele me disse: Na sepultura, as câmaras das almas são semelhantes à madre da mulher:
42Porque, assim como a mulher que está de parto se apressa para escapar à necessidade das dores do parto, assim também estes lugares se apressam para entregar as coisas que lhes foram confiadas.
43Desde o princípio, eis que aquilo que desejas ver te será mostrado.
44Então respondi e disse: Se achei graça diante dos teus olhos, e se for possível, e se eu for idôneo para isso,
45Mostra-me, pois, se há mais por vir do que já passou, ou se o que já passou é mais do que o que está por vir.
46O que passou eu sei, mas o que há de vir não sei.
47E ele me disse: Põe-te em pé do lado direito, e eu te explicarei a parábola.
48Assim estive em pé, e vi, e eis que um forno ardente passou diante de mim; e sucedeu que, quando a chama havia passado, olhei, e eis que a fumaça ainda permanecia.
49Depois disto passou diante de mim uma nuvem carregada de água, e desceu muita chuva com tempestade; e, passada a chuva tempestuosa, as gotas ainda permaneciam.
50Então me disse ele: Considera contigo mesmo; assim como a chuva é mais do que as gotas, e como o fogo é maior do que a fumaça, todavia as gotas e a fumaça ficaram para trás: assim a porção que passou sobrepujou em muito.
51Então orei e disse: Julgas tu que viverei até esse tempo? Ou o que há de acontecer naqueles dias?
52Ele respondeu e disse: Quanto aos sinais acerca dos quais me perguntas, posso dizer-te deles em parte; mas, no tocante à tua vida, não sou enviado para to revelar, porque não o sei.