Não ignorais o amor fraterno, do qual a divina e sapientíssima Providência deu herança àqueles que são gerados por seus pais, implantando-o neles desde o ventre materno; no qual os irmãos habitam por igual período, e tomam forma durante o mesmo tempo, e são nutridos do mesmo sangue, e são vivificados com a mesma alma, e são dados à luz após o mesmo espaço de tempo, e bebem o leite das mesmas fontes, pelas quais as suas almas fraternais são amamentadas juntas nos braços maternos; e unem-se ainda mais estreitamente mediante a comum criação, a diária convivência e a mútua instrução, e pela nossa disciplina sob a Lei de Deus.
2Sendo, pois, tão forte por natureza o afeto fraternal, os sete irmãos tinham a sua mútua concórdia ainda mais robustecida. Porque, exercitados na mesma Lei, disciplinados nas mesmas virtudes e criados juntos numa vida íntegra, amavam-se uns aos outros mais abundantemente. O seu zelo comum pela excelência moral e bondade aumentava a sua mútua concórdia, pois, em união com a sua piedade, tornava o seu amor fraternal mais fervoroso.
3Contudo, embora a natureza, a convivência e a sua virtuosa disposição aumentassem o ardor do seu amor fraterno, os filhos sobreviventes suportaram, mediante a sua religião, a visão de seus irmãos que estavam no suplício, sendo torturados até à morte; e mais ainda, chegaram a encorajá-los a enfrentar a agonia, de sorte que não somente desprezaram os seus próprios tormentos, mas também venceram a paixão do afeto fraternal por seus irmãos.
4Ó mentes guiadas pela Razão, mais régias que os próprios reis, mais livres que os homens livres, da harmonia dos sete irmãos, santa e perfeitamente afinada no tom da piedade!
5Nenhum dos sete jovens se acovardou, nenhum recuou diante da morte, mas todos se apressaram para a morte pelo tormento como quem corre pelo caminho da imortalidade.
6Pois, assim como as mãos e os pés se movem em harmonia com os impulsos da alma, assim aqueles santos jovens, como que impelidos pela alma imortal da religião, caminharam em concórdia para a morte por causa dela.
7Ó santíssima e sétupla fraternidade de irmãos em harmonia!
8Porque, assim como os sete dias da criação do mundo circundam a piedade, assim os jovens, à semelhança de um coro, cingiram a sua sétupla companhia e consideraram em nada o pavor dos tormentos.
9Nós agora estremecemos ao ouvir falar dos sofrimentos daqueles jovens; mas eles, não apenas vendo-os com os seus olhos, nem somente ouvindo a ameaça proferida e iminente, mas sentindo em si mesmos a dor, suportaram tudo até ao fim; e isto sob o suplício do fogo, além do qual que maior agonia se poderá encontrar?
10Pois penetrante e veemente é o poder do fogo, e velozmente consumiu os seus corpos até à destruição.
11E não julgueis admirável se naqueles homens a Razão triunfou sobre os tormentos, quando até a alma de uma mulher desprezou uma variedade ainda maior de dores; porquanto a mãe dos sete jovens suportou os suplícios infligidos a cada um de seus filhos.
12Considerai, porém, quão múltiplos são os anseios do coração materno, de modo que o seu apego aos filhos se torna o centro de todo o seu ser; e com efeito, até os animais irracionais têm para com as suas crias um afeto e um amor semelhantes aos dos homens.
13Por exemplo, entre as aves, as mansas que se abrigam sob os nossos telhados defendem os seus passarinhos; e as que nidificam nos cumes dos montes, e nas fendas das rochas, e nos ocos das árvores, e nos ramos, chocando ali os seus filhotes, afugentam igualmente o intruso.
14E se não conseguem afugentá-lo, esvoaçam ao redor dos filhotes em ardente afeto, chamando-os na sua própria linguagem, e socorrem os seus pequeninos de qualquer maneira que lhes é possível.
15E que necessidade temos de exemplos do amor pelos filhotes entre os animais irracionais, quando até as abelhas, no tempo em que constroem os favos, repelem os invasores e ferem com o seu ferrão, como com uma espada, aos que se aproximam das suas crias, pelejando contra eles até à morte?
16Ela, porém, a mãe daqueles valorosos jovens, dotada de uma alma semelhante à de Abraão, não foi demovida do seu propósito pelo afeto a seus filhos.