O exemplo da sede do rei Davi servirá, ao menos, para tornar este ponto ainda mais evidente.
2Pois tendo Davi combatido durante todo o dia contra os filisteus, e prostrado a muitos deles com o auxílio dos guerreiros de nossa pátria, recolheu-se ao cair da tarde, esgotado de suor e fadiga, à tenda real, ao redor da qual estava acampado todo o exército de nossos pais.
3Toda a hoste pôs-se a cear; o rei, porém, abrasado por veemente sede, conquanto dispusesse de águas em abundância, não podia saciá-la.
4Antes, um anelo descomedido pela água que se achava em poder dos inimigos consumia-o com crescente ardor, debilitando-lhe as forças.
5Então, quando os guardas reais murmuraram contra o anelo do rei, dois jovens valorosos guerreiros, envergonhados de que o seu soberano padecesse tal necessidade, cingiram todas as suas armas, tomaram um cântaro, galgaram as trincheiras inimigas, e, passando despercebidos pelas sentinelas das portas, atravessaram todo o arraial adverso; e, achando valentemente a fonte, tiraram dela água para o rei.
6Todavia Davi, embora abrasado de sede, ponderou que tal beberagem, tida em conta de sangue, trazia gravíssimo perigo para a sua alma.
7Por isso, opondo a sua Razão ao próprio apetite, derramou a água como libação em oferta a Deus.
8Porque a mente temperante e comedida pode vencer os impulsos das paixões, extinguir as chamas dos desejos carnais, pelejar vitoriosamente contra as agonias do corpo por mais violentas que sejam, e, pela retidão e soberania da Razão, escarnecer de todo o império das paixões.
9E agora a ocasião nos convida a expor a história da Razão plenamente senhora de si.
10Pois, num tempo em que os nossos pais desfrutavam de profunda paz pela estrita guarda da Lei, e viviam em tanta prosperidade que até Seleuco Nicanor, rei da Ásia, contribuía para os custos do culto do templo e honrava a nossa comunidade, foi precisamente então que certos homens, insurgindo-se facciosamente contra a concórdia geral, nos precipitaram em calamidades mui diversas e terríveis.