LUX VERITAS

Biblioteca de Textos Sagrados

Apócrifos

Evangelho de Pedro

A Cruz

14 capítulos · leitura e narração

Nota de leitura

Narrativa da paixão com a cruz que fala e os guardas que veem a saída do sepulcro. Fragmento encontrado em Akhmim, no Egito, em 1886. Texto em inglês: Ante-Nicene Fathers, vol. 9, The Gospel According to Peter (Buffalo: Christian Literature Publishing Co.), J. Armitage Robinson, 1896 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: Ante-Nicene Fathers, vol. 9, The Gospel According to Peter (Buffalo: Christian Literature Publishing Co.), J. Armitage Robinson (1896) · domínio público

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Autoria, data e contexto

O Evangelho de Pedro é um evangelho apócrifo e pseudepigráfico cristão redigido originariamente em língua grega em primeira pessoa sob o nome do apóstolo Simão Pedro (como atestado explicitamente no capítulo 14). O escrito circulava em comunidades cristãs da Síria Ocidental no final do século II, sendo mencionado pelo bispo Serapião de Antioquia (c. 190 d.C.), que relata em epístola preservada por Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica VI, 12) haver inicialmente consentido sua leitura na congregação de Rosso, revogando a autorização após constatar ideias teológicas docéticas.

A crítica moderna diverge expressivamente sobre sua composição e relação com os textos do Novo Testamento. Pesquisadores como Ron Cameron, Helmut Koester e John Dominic Crossan sustentam que a obra testemunha tradições arcaicas independentes ou um estrato pré-canônico ("Evangelho da Cruz") composto na segunda metade do século I (entre 70 e 100 d.C.). Em contrapartida, Raymond E. Brown, F. F. Bruce, Adolf von Harnack e os editores da Encyclopaedia Britannica situam sua redação entre 130 e 160 d.C., argumentando que o autor reelaborou reminiscências dos quatro evangelhos canônicos agregando traços lendários, hostilidade aberta às autoridades judaicas e uma cristologia docetista.

Estrutura

O fragmento sobrevivente abrange quatorze capítulos numerados na edição crítica de H. B. Swete e J. Armitage Robinson, iniciando-se abruptamente no final do julgamento perante Pilatos e interrompendo-se subitamente na Galileia.

O texto divide-se em quatro unidades dramáticas contínuas: a primeira parte (capítulos 1 a 3) aborda a condenação proferida por Herodes Antipas, o pedido antecipado do corpo por José de Arimateia e os escárnios públicos infligidos a Jesus; a segunda unidade (capítulos 4 a 7) descreve a crucificação entre dois malfeitores, o silêncio de Cristo na dor, o clamor cósmico na morte, o terremoto que sacudiu a terra e o sepultamento no jardim de José; a terceira seção (capítulos 8 a 11) retrata a guarda armada com o centurião Petrônio e anciãos diante do sepulcro selado, a descida de seres angélicos e a espetacular ressurreição corpórea acompanhada por uma cruz que fala; a quarta unidade (capítulos 12 a 14) narra a visita de Maria Madalena ao túmulo vazio, o anúncio angélico e o retorno entristecido dos doze discípulos à faina da pesca no mar de Tiberíades.

Temas e passagens-chave

Os eixos teológicos centrais residem na desvinculação absoluta de Pôncio Pilatos de qualquer dolo penal (transferindo a sentença mortal integralmente a Herodes Antipas e aos juízes judeus), na concepção docética do sofrimento salvífico (o Salvador suporta o madeiro sem experimentar agonia física comum e Seu espírito é arrebatado antes da morte biológica ordinária) e na espetacularização visual da ressurreição, contemplada diretamente por sentinelas romanas e sacerdotes como uma teofania cósmica em que a cruz responde como entidade viva.

No instante culminante da agonia na cruz, o texto assinala a partida da divindade: "And the Lord cried out, saying, My power, my power, thou hast forsaken me."

Resumo por partes

Julgamento por Herodes e ultrajes ao Rei (capítulos 1-3): Nenhum dos líderes judaicos nem o tetrarca Herodes aceita lavar as mãos; Pilatos retira-se e Herodes comanda o suplício. José de Arimateia pede previamente autorização para o sepultamento. Tomando a custódia do Senhor, a multidão veste-O com manto de púrpura, faz-Lhe sentar no estrado do juiz zombando de Sua justiça, fere Seu rosto e escarnece de Sua dignidade divina.

Crucificação indolente, trevas e sepultura (capítulos 4-7): Dois criminosos são crucificados junto a Jesus, que permanece em silêncio absoluto como se não sentisse tormento algum. Ao meio-dia, trevas assombrosas cobrem a Judeia, levando pessoas a acender lâmpadas pelas ruas. Após o clamor por Seu poder, o Senhor é levado aos céus e o véu do Templo fende-se. Ao ser depositado no solo, a terra treme, e o corpo é entregue a José, que o lava e envolve em lençol de linho. Conhecendo a gravidade da culpa, os escribas e anciãos batem no peito lamentando a ruína iminente de Jerusalém, enquanto Pedro e os apóstolos jejuam escondidos.

Vigília militar e a ressurreição com a cruz falante (capítulos 8-11): Os sacerdotes obtêm de Pilatos o centurião romano Petrônio e uma guarnição militar, rolando uma pedra imensa sobre a entrada do sepulcro e selando-a com sete sinetes. Durante a madrugada do domingo, os céus rasgam-se e dois jovens celestes descem radiantes, fazendo a pedra mover-se sozinha. Os guardas veem três figuras gigantescas saírem do sepulcro — as cabeças dos dois anjos tocam o firmamento, enquanto a de Jesus ultrapassa as alturas celestes — seguidas por uma cruz de madeira. Uma voz dos céus indaga se a pregação alcançou os que dormem, e a própria cruz replica audivelmente: "Sim". Estupefata, a guarnição relata o prodígio a Pilatos, que ratifica sua inocência e impõe segredo.

O anúncio do sepulcro vazio e a partida para a Galileia (capítulos 12-14): Na aurora do primeiro dia da semana, Maria Madalena e suas companheiras aproximam-se do jazigo e encontram a entrada aberta, onde um mancebo envolto em luz informa que o Crucificado ressuscitou e partiu para a morada celeste. Apavoradas, as mulheres fogem. Concluída a Páscoa judaica, os doze discípulos dispersam-se em pranto, e Simão Pedro, acompanhado por André e Levi, filho de Alfeu, recolhe suas redes e ruma para a pesca no mar.

Recepção

O evangelho foi categoricamente rejeitado pela Grande Igreja dos primeiros séculos. Eusébio de Cesareia classificou-o na História Eclesiástica (III, 25) entre os livros forjados por hereges, totalmente desprovido de legitimidade apostólica, juízo repetido por São Jerônimo e ratificado pelo Decreto Gelasiano. Orígenes também assinalou seu emprego para justificar que os irmãos de Jesus seriam filhos de um matrimônio prévio de José.

O manuscrito fundamental para o conhecimento moderno do texto é o célebre fragmento de Acmim (Codex Panopolitanus), copiado em pergaminho entre os séculos VIII e IX, desenterrado na necrópole egípcia de Panópolis no inverno de 1886-1887 pela Missão Arqueológica Francesa do Cairo e publicado em 1892 por Urbain Bouriant e Adolphe Lods. Identificações posteriores de diminutos fragmentos gregos nos Papiros de Oxirrinco (P.Oxy. 2949 e P.Oxy. 4009) comprovaram a circulação do texto no Egito desde o século II ou III.

Fontes

Dossiê

Um relato da paixão em que a cruz sai do túmulo caminhando atrás de Jesus — e responde, com uma voz, à pergunta feita do céu.

De onde vem este texto

Um fragmento em grego foi encontrado em 1886 no túmulo de um monge em Akhmim, no Egito. O texto começa e termina no meio de frases. A composição é estimada em meados do século II d.C., embora alguns defendam que há material mais antigo por baixo.

Por que não está na Bíblia

Rejeitado ainda no século II. O bispo Serapião de Antioquia autorizou sua leitura na comunidade de Rhossos, leu o texto depois e voltou atrás, por achar que favorecia quem negava que Cristo tivesse sofrido de verdade. É um dos poucos casos em que se conhece o nome de quem decidiu e por quê.

O que você vai encontrar

  • Herodes, e não Pilatos, dá a ordem de execução — inversão que nenhum evangelho canônico faz.
  • Na cruz, Jesus diz "minha força, minha força, tu me abandonaste", e o texto afirma que ele "foi tomado" em vez de morrer.
  • A ressurreição é narrada em cena aberta, com soldados e anciãos vendo tudo: dois homens descem, a pedra rola sozinha, três saem do túmulo, e as cabeças dos dois primeiros chegam ao céu.
  • A cruz caminhante que fala é a imagem mais estranha de toda a literatura cristã antiga.

Perguntas frequentes

Por que o Evangelho de Pedro foi rejeitado?
Por suspeita de docetismo — a ideia de que Cristo só parecia ter corpo e não sofreu de fato. Serapião de Antioquia proibiu sua leitura depois de examiná-lo, no fim do século II.
O Evangelho de Pedro está completo?
Não. O que existe é um fragmento achado em Akhmim, cobrindo o julgamento, a crucificação e a ressurreição. Começa e termina no meio de uma frase.

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