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Autoria, data e contexto
O Apocalipse de Pedro é um escrito apocalíptico cristão primitivo redigido em grego e atribuído pseudepigraficamente ao apóstolo Simão Pedro. A cena inicial situa a revelação no Monte das Oliveiras, como desdobramento do sermão escatológico de Jesus sobre os sinais do fim dos tempos.
Pesquisadores contemporâneos, com destaque para Richard Bauckham, datam a composição entre os anos 132 e 135 d.C., associando a advertência do capítulo dois contra o falso messias perseguidor à revolta judaica de Simão Barcoquebas (Bar Kokhba), durante o reinado do imperador Adriano. Outros estudiosos, como C. Detlef G. Müller, propõem um arco temporal ligeiramente mais amplo entre 120 e 150 d.C., situando a obra no ambiente helenístico do Egito ou da Palestina, marcado pela expectativa iminente da Parusia e pela memória fresca das perseguições.
Estrutura
O texto integral preservado na tradição etíope organiza-se formalmente em dezessete capítulos numerados, diferindo do fragmento grego incompleto de Akhmîm que preserva cerca de metade da obra sem numeração antiga.
O conteúdo divide-se em quatro blocos temáticos: o discurso sobre os sinais da Parusia e a parábola da figueira identificada como a casa de Israel (capítulos 1 e 2); a ressurreição geral dos corpos, a reunião universal pela convocação de Uriel e o juízo pelo rio de fogo (capítulos 3 a 6); a descida e descrição pormenorizada dos tormentos no inferno segundo a justiça retributiva (capítulos 7 a 14); e a visão beatífica do Paraíso culminando no mistério da Transfiguração e na ascensão de Cristo ao céu com Moisés e Elias (capítulos 15 a 17).
Temas e passagens-chave
A obra é o documento inaugural da imaginação escatológica cristã dos tormentos pós-morte, introduzindo o princípio da lex talionis infernal, na qual cada pecado corpóreo é punido no membro correspondente. Destacam-se a certeza da ressurreição carnal universal, a reprovação drástica do aborto e da usura, e a exaltação da glória solar reservada aos mártires e justos.
Diante da severidade dos castigos contemplados no abismo, as almas dos justos proclamam no capítulo vinte e quatro do texto de Akhmîm: "O God, your judgment is just."
Resumo por partes
Profecia do monte e o enganador dos últimos dias (capítulos 1-2): Sentado no Monte das Oliveiras, Jesus adverte os apóstolos contra falsos profetas. Ele decifra a parábola da figueira como a casa de Israel, profetizando a vinda de um falso messias que matará os crentes com a espada, até a intervenção das testemunhas Enoque e Elias.
Ressurreição universal e o fogo do juízo (capítulos 3-6): No dia da decisão, Deus ordena aos animais, aves e abismos que devolvam toda carne devorada para a reconstrução dos corpos por Uriel. Cataratas de fogo dissolvem a criação, e Cristo manifesta-se sobre nuvens brilhantes acompanhado de sua cruz resplandecente para julgar os povos.
Catálogo dos suplícios e justiça retributiva (capítulos 7-14): Pedro presencia as penas do inferno: blasfemadores suspensos pela língua sobre chamas; adúlteros pendurados pelos pés em lodo fervente; homicidas cercados por serpentes e nuvens de vermes carnívoros; mulheres que praticaram aborto imersas em sangue pútrido até o pescoço enquanto raios de fogo partem dos olhos dos fetos; exploradores e usurários atolados em pântanos de sangue; e idólatras fustigados com varas incandescentes.
O Paraíso e a glória da Transfiguração (capítulos 15-17): Conduzido a um campo celestial radiante fora do cosmos, Pedro contempla os santos ornados de lírios imperecíveis, com corpos mais brancos que a neve e rubros como rosas. A revelação conclui-se com o episódio da Transfiguração, onde a voz do Pai troa da nuvem luminosa e o Senhor ascende gloriosamente aos céus com Moisés e Elias.
Recepção
O Apocalipse de Pedro gozou de prestígio quase canônico em comunidades dos séculos II e III. O Cânon Muratoriano (c. 170-200 d.C.) registra que tanto o Apocalipse de João quanto o de Pedro eram acolhidos em Roma, embora alguns rejeitassem sua leitura pública na igreja. Clemente de Alexandria citou-o como Escritura inspirada em suas Hipotíposes, e o historiador Sozomeno relatou no século V que o texto ainda era lido solenemente na Sexta-feira Santa em certas igrejas da Palestina.
Eusébio de Cesareia classificou a obra entre os livros espúrios (notha) em sua História Eclesiástica (III, 25). O texto grego foi recuperado em 1886-1887 na tumba de um monge em Akhmîm, no Alto Egito (publicado por Urbain Bouriant e Adolf von Harnack), enquanto a versão etíope completa em dezessete capítulos foi descoberta por Sylvain Grébaut e publicada em 1910, servindo de base para o estudo pioneiro de M. R. James em 1924.
Fontes
- Montague Rhodes James, The Apocalypse of Peter (The Apocryphal New Testament) (1924).
- Andrew Rutherfurd; Allan Menzies, The Apocalypse of Peter (Ante-Nicene Fathers, Vol. 9) (1896).