LUX VERITAS

Biblioteca de Textos Sagrados

Apócrifos

Apocalipse de Pedro

Visão do Inferno

17 capítulos · leitura e narração

Nota de leitura

Descrição detalhada do juízo, com punições correspondentes a cada pecado. Constava de listas antigas de livros aceitos antes de ser deixado de fora. Texto em inglês: The Apocryphal New Testament, Apocalypse of Peter (Oxford: Clarendon Press), M. R. James, 1924 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: The Apocryphal New Testament, Apocalypse of Peter (Oxford: Clarendon Press), M. R. James (1924) · domínio público

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Autoria, data e contexto

O Apocalipse de Pedro é um escrito apocalíptico cristão primitivo redigido em grego e atribuído pseudepigraficamente ao apóstolo Simão Pedro. A cena inicial situa a revelação no Monte das Oliveiras, como desdobramento do sermão escatológico de Jesus sobre os sinais do fim dos tempos.

Pesquisadores contemporâneos, com destaque para Richard Bauckham, datam a composição entre os anos 132 e 135 d.C., associando a advertência do capítulo dois contra o falso messias perseguidor à revolta judaica de Simão Barcoquebas (Bar Kokhba), durante o reinado do imperador Adriano. Outros estudiosos, como C. Detlef G. Müller, propõem um arco temporal ligeiramente mais amplo entre 120 e 150 d.C., situando a obra no ambiente helenístico do Egito ou da Palestina, marcado pela expectativa iminente da Parusia e pela memória fresca das perseguições.

Estrutura

O texto integral preservado na tradição etíope organiza-se formalmente em dezessete capítulos numerados, diferindo do fragmento grego incompleto de Akhmîm que preserva cerca de metade da obra sem numeração antiga.

O conteúdo divide-se em quatro blocos temáticos: o discurso sobre os sinais da Parusia e a parábola da figueira identificada como a casa de Israel (capítulos 1 e 2); a ressurreição geral dos corpos, a reunião universal pela convocação de Uriel e o juízo pelo rio de fogo (capítulos 3 a 6); a descida e descrição pormenorizada dos tormentos no inferno segundo a justiça retributiva (capítulos 7 a 14); e a visão beatífica do Paraíso culminando no mistério da Transfiguração e na ascensão de Cristo ao céu com Moisés e Elias (capítulos 15 a 17).

Temas e passagens-chave

A obra é o documento inaugural da imaginação escatológica cristã dos tormentos pós-morte, introduzindo o princípio da lex talionis infernal, na qual cada pecado corpóreo é punido no membro correspondente. Destacam-se a certeza da ressurreição carnal universal, a reprovação drástica do aborto e da usura, e a exaltação da glória solar reservada aos mártires e justos.

Diante da severidade dos castigos contemplados no abismo, as almas dos justos proclamam no capítulo vinte e quatro do texto de Akhmîm: "O God, your judgment is just."

Resumo por partes

Profecia do monte e o enganador dos últimos dias (capítulos 1-2): Sentado no Monte das Oliveiras, Jesus adverte os apóstolos contra falsos profetas. Ele decifra a parábola da figueira como a casa de Israel, profetizando a vinda de um falso messias que matará os crentes com a espada, até a intervenção das testemunhas Enoque e Elias.

Ressurreição universal e o fogo do juízo (capítulos 3-6): No dia da decisão, Deus ordena aos animais, aves e abismos que devolvam toda carne devorada para a reconstrução dos corpos por Uriel. Cataratas de fogo dissolvem a criação, e Cristo manifesta-se sobre nuvens brilhantes acompanhado de sua cruz resplandecente para julgar os povos.

Catálogo dos suplícios e justiça retributiva (capítulos 7-14): Pedro presencia as penas do inferno: blasfemadores suspensos pela língua sobre chamas; adúlteros pendurados pelos pés em lodo fervente; homicidas cercados por serpentes e nuvens de vermes carnívoros; mulheres que praticaram aborto imersas em sangue pútrido até o pescoço enquanto raios de fogo partem dos olhos dos fetos; exploradores e usurários atolados em pântanos de sangue; e idólatras fustigados com varas incandescentes.

O Paraíso e a glória da Transfiguração (capítulos 15-17): Conduzido a um campo celestial radiante fora do cosmos, Pedro contempla os santos ornados de lírios imperecíveis, com corpos mais brancos que a neve e rubros como rosas. A revelação conclui-se com o episódio da Transfiguração, onde a voz do Pai troa da nuvem luminosa e o Senhor ascende gloriosamente aos céus com Moisés e Elias.

Recepção

O Apocalipse de Pedro gozou de prestígio quase canônico em comunidades dos séculos II e III. O Cânon Muratoriano (c. 170-200 d.C.) registra que tanto o Apocalipse de João quanto o de Pedro eram acolhidos em Roma, embora alguns rejeitassem sua leitura pública na igreja. Clemente de Alexandria citou-o como Escritura inspirada em suas Hipotíposes, e o historiador Sozomeno relatou no século V que o texto ainda era lido solenemente na Sexta-feira Santa em certas igrejas da Palestina.

Eusébio de Cesareia classificou a obra entre os livros espúrios (notha) em sua História Eclesiástica (III, 25). O texto grego foi recuperado em 1886-1887 na tumba de um monge em Akhmîm, no Alto Egito (publicado por Urbain Bouriant e Adolf von Harnack), enquanto a versão etíope completa em dezessete capítulos foi descoberta por Sylvain Grébaut e publicada em 1910, servindo de base para o estudo pioneiro de M. R. James em 1924.

Fontes

Dossiê

A primeira descrição cristã detalhada do céu e do inferno — com um catálogo de punições em que cada castigo espelha exatamente o pecado que o causou.

De onde vem este texto

Século II d.C., em grego. Sobrevive em duas formas: um fragmento grego achado em Akhmim, junto com o Evangelho de Pedro, e uma versão etíope mais completa, encontrada depois. As duas divergem em detalhes importantes.

Por que não está na Bíblia

Esteve na disputa. O Fragmento Muratoriano o lista entre os livros aceitos, com a ressalva de que alguns não permitiam sua leitura na igreja — ou seja, no século II ele era candidato real ao Novo Testamento. Acabou fora à medida que a autoria petrina foi posta em dúvida.

O que você vai encontrar

  • Os blasfemos pendurados pela língua, os assassinos num lugar cheio de répteis, as caluniadoras penduradas pelos cabelos: a lei do talião aplicada ao além.
  • É a matriz de toda a literatura de visão do inferno que vem depois, incluindo a que chega até Dante.
  • O paraíso é descrito com cores, perfumes e frutos, num contraponto detalhado ao castigo.
  • Na versão etíope há um momento em que os salvos pedem misericórdia pelos condenados — e a resposta é dada.

Perguntas frequentes

O Apocalipse de Pedro quase entrou no Novo Testamento?
Sim. O Fragmento Muratoriano, do século II, o inclui entre os livros recebidos, registrando que parte da comunidade recusava lê-lo na igreja. Foi ficando de fora nos séculos seguintes.
Qual a diferença entre o Apocalipse de Pedro e o Apocalipse de João?
São livros distintos. O de João é o último livro da Bíblia. O de Pedro é apócrifo e trata quase exclusivamente do destino das almas depois da morte, com um catálogo de punições.

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