LUX VERITAS

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Apócrifos

José de Arimatéia

Declaração

5 capítulos · leitura e narração

Capítulos

Nota de leitura

Texto apócrifo ou pseudepígrafo — não faz parte do cânone das igrejas ocidentais, mas circulou amplamente entre judeus e cristãos antigos. Texto em inglês: Ante-Nicene Fathers, vol. 8, The Narrative of Joseph of Arimathaea (Buffalo: Christian Literature Publishing Co.), Alexander Walker, 1886 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: Ante-Nicene Fathers, vol. 8, The Narrative of Joseph of Arimathaea (Buffalo: Christian Literature Publishing Co.), Alexander Walker (1886) · domínio público

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Autoria, data e contexto

A Narrativa de José de Arimateia (Narratio Iosephi de Arimathaea, catalogada como CANT 76 e BHG 779r) é uma obra apócrifa cristã pseudepígrafa atribuída a José de Arimateia, o discípulo que solicitou a Pôncio Pilatos o corpo de Jesus para sepultamento. Análises críticas e filológicas fundamentadas nas edições de Constantin von Tischendorf e nos estudos da Sociedade Norte-Americana para o Estudo da Literatura Cristã Apócrifa (NASSCAL) situam a redação original em língua grega entre os séculos V e VI d.C., vinculada ao ciclo literário de Pilatos.

O contexto literário da obra reflete o desenvolvimento tardo-antigo das tradições narrativas em torno da Paixão de Cristo e a ampliação devocional da figura do Bom Ladrão (denominado Demas) em contraste com o Mau Ladrão (Gestas). O enredo incorpora polêmicas anticlericais contra as autoridades do templo de Jerusalém, apresentando Caifás e Judas conspirando para atribuir falsamente a Jesus o roubo do rolo sagrado da Lei que havia sido saqueado por Demas.

Estrutura

O escrito organiza-se com precisão em cinco capítulos contínuos nas edições textuais clássicas baseadas nos códices gregos.

O capítulo 1 estabelece o testemunho pessoal de José de Arimateia, traça os retratos morais opostos dos salteadores Gestas e Demas e descreve o suborno de Judas por Caifás para incriminar Jesus pelo furto da Torá. O capítulo 2 relata o julgamento perante o Sinédrio, o silêncio de Jesus perante as acusações e sua prisão noturna com o beijo de Judas. O capítulo 3 narra a condenação por Pilatos, a crucificação mútua, a blasfêmia de Gestas, a oração suplicante de Demas e a epístola celeste que Jesus lhe entrega para franquear o Paraíso. O capítulo 4 aborda o sepultamento do Senhor, a prisão de José no sábado e sua miraculosa libertação por Cristo e Demas, trazendo a carta de louvor dos querubins. O capítulo 5 culmina na transfiguração gloriosa de Jesus na Galileia, na aparição triunfal de Demas em vestes reais diante do apóstolo João e na exortação final de José à fé cristã.

Temas e passagens-chave

O tema dogmático fulcral da narrativa é a soberania messiânica de Jesus Cristo, Filho de Deus incriado que desceu aos abismos humanos para resgatar a posteridade de Adão. A obra magnifica a redenção imediata e plena concedida pela cruz à fé penitente, exaltando Demas como o primeiro ser humano a habitar o Éden celestial com um corpo glorificado antes da ressurreição geral.

A passagem de maior impacto teológico localiza-se no capítulo 3, onde Jesus escreve uma ordem solene dirigida aos querubins e sentinelas da espada flamejante para que admitam Demas incontinente no Paraíso. No capítulo 4, os próprios querubins atestam por escrito que a espada de fogo se extinguiu ao vislumbrar o fulgor das chagas e o sinal da cruz no ladrão arrependido.

Resumo por partes

Apresentação dos ladrões e a trama sacerdotal (capítulo 1): José de Arimateia proclama sua fé e narra como Gestas perpetrava assassinatos hediondos, enquanto Demas era um ladrão caritativo que sepultava mortos como Tobite e havia furtado o livro da Lei do santuário; temendo a fúria popular na Páscoa, Anás e Caifás pagam Judas para afirmar que Jesus fora o autor do roubo sacrílego.

Interrogatório de Jesus e a traição de Judas (capítulo 2): Conduzido à presença das autoridades judaicas, Jesus recusa responder sobre o sumiço da Torá; Judas recebe trinta moedas de ouro para guiar a guarda e entregar o Mestre mediante um beijo na noite de quinta-feira, enquanto Nicodemos e José se afastam horrorizados da conspiração.

Crucificação e a carta régia para o Paraíso (capítulo 3): Pilatos entrega Jesus para ser crucificado entre Gestas à esquerda e Demas à direita; Gestas pragueja desdenhoso até seu corpo tornar-se monstruoso como um dragão, enquanto Demas clama por misericórdia ao contemplar a realeza de Cristo; Jesus perdoa Demas, promete-lhe o Éden imediato e redige uma epístola às potestades angélicas autorizando sua entrada celestial antes de render o espírito entre trevas e abalos cósmicos.

O cárcere de José e a visita ressurreta (capítulo 4): José envolve Jesus no sepulcro novo e é trancafiado pelos sacerdotes em uma masmorra escura; na noite que inaugura a semana, Cristo ressuscitado surge acompanhado por Demas, inunda o recinto de luz e resgata José, lendo a missiva de júbilo dos querubins que atestam a comoção do Hades e o triunfo sobre a morte.

Aparição gloriosa e a realeza de Demas (capítulo 5): José viaja com Jesus transfigurado em luz pura para a Galileia; após três dias, o apóstolo João aproxima-se e suplica para avistar o ladrão justificado; Demas surge radiante com coroa e cruz em postura soberana diante de João estupefato, sumindo em seguida para o Paraíso, o que leva José de Arimateia a concluir sua memória exortando todos a crerem no Senhor.

Recepção

A Narrativa de José de Arimateia desfrutou de significativa difusão hagiográfica e litúrgica no Império Bizantino e no meio eslavo medieval como apêndice devocional das tradições pascais ligadas aos Atos de Pilatos (Evangelho de Nicodemos). Jamais recebeu sanção canônica oficial de nenhuma igreja histórica, permanecendo como romance apócrifo de edificação popular.

Os principais testemunhos manuscritos gregos sobreviventes são o Codex Ambrosianus E 100 sup. (século XII) de Milão e códices parisienses como o Parisinus graecus 770 e 929. O texto grego foi editado por Andreas Birch (1804) e consolidado criticamente por Constantin von Tischendorf em Evangelia Apocrypha (1853/1876), base para a versão inglesa de Alexander Walker na coleção Ante-Nicene Fathers (1886) e para os verbetes de referência da NASSCAL organizados por Mark G. Bilby.

Fontes

Dossiê

A narrativa de José de Arimateia sobre os três dias: o que houve com o corpo, com os guardas, e com o ladrão que morreu ao lado.

De onde vem este texto

Grego, medieval, do ciclo de Nicodemos. É uma das peças mais tardias ligadas ao julgamento e à sepultura.

Por que não está na Bíblia

Fora de todos os cânones.

Datação, manuscritos e recepção

José de Arimateia aparece nos quatro evangelhos como o homem que pediu a Pilatos o corpo de Jesus e o sepultou em túmulo novo (Mateus 27:57–60; Marcos 15:43; Lucas 23:50–53; João 19:38). O evangelho de Mateus o descreve como rico e discípulo. Mais do que isso os textos canônicos não dizem, e foi essa lacuna que os apócrifos preencheram.

A Narrativa de José de Arimateia integra o ciclo de textos ligados ao Evangelho de Nicodemos, obra que se estabilizou em sua forma atual entre os séculos IV e V. Justino Mártir já falava em «atos de Pilatos» por volta de 155, mas se referia a registros que supunha existir. A ligação de José com o Graal é criação medieval, muito posterior a este ciclo.

O que você vai encontrar

  • Dá nomes aos dois ladrões e conta a história de cada um antes da cruz.
  • José é preso pelos judeus e libertado por aparição, versão que amplia o que diz o Evangelho de Nicodemos.
  • É a semente literária de onde nascem, muito depois, as lendas do Graal ligadas a José.

Perguntas frequentes

Este texto tem relação com as lendas do Santo Graal?
Indiretamente. José de Arimateia se torna figura central do ciclo do Graal na literatura medieval, e narrativas apócrifas como esta são o ponto de partida daquela tradição.

Fontes

  • A. Roberts & J. Donaldson (eds.), Ante-Nicene Fathers, vol. 8 (Buffalo: Christian Literature Publishing, 1886). (Gospel of Nicodemus e Narrative of Joseph of Arimathaea).
  • C. von Tischendorf, Evangelia Apocrypha, 2nd ed. (Leipzig: Mendelssohn, 1876).
  • J. K. Elliott, The Apocryphal New Testament (Oxford: Clarendon Press, 1993).

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