LUX VERITAS

Biblioteca de Textos Sagrados

Apócrifos

Livro de Jasher

Sefer haYashar

91 capítulos · leitura e narração

Nota de leitura

Citado por nome em Josué e em 2 Samuel, este é o texto tardio que circula com esse título: uma narrativa longa e novelesca de Adão a Josué, com episódios que a Bíblia só menciona de passagem. Texto em inglês: Sefer ha-Yashar, or the Book of Jasher (New York, 1840; reprint J. H. Parry, 1887), Moses Samuel, 1840 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: Sefer ha-Yashar, or the Book of Jasher (New York, 1840; reprint J. H. Parry, 1887), Moses Samuel (1840) · domínio público

Conhecer o livro: contexto, autoria e temas ↓

Ouvir este estudo

 

Autoria, data e contexto

O Livro de Jasher, também chamado Sefer ha-Yashar, é uma narrativa judaica anônima em hebraico. Sua moldura editorial antiga afirma que um exemplar foi salvo da destruição de Jerusalém, mas essa história não comprova uma origem no século I. Os estudiosos o tratam como uma composição medieval que reúne e amplia tradições bíblicas e interpretações posteriores. A data e o lugar da composição são discutidos: Leopold Zunz propôs a Espanha do século XII; Schulim Ochser, na Jewish Encyclopedia, preferiu o sul da Itália, possivelmente já no século XI, com base em nomes e episódios conhecidos pelo autor. A distância entre essas hipóteses aconselha distinguir a idade das histórias reunidas da idade do livro que as reúne.

O público pressuposto conhecia Gênesis, Êxodo, Números e Josué, pois o relato preenche seus intervalos, nomeia personagens pouco desenvolvidos nesses livros e acrescenta conversas e guerras. O hebraico da obra e o uso de material da literatura rabínica apontam para um meio de leitura judaico. Personagens antigos aparecem, portanto, por meio de uma narração muito posterior aos acontecimentos que ela descreve. Isso importa especialmente porque o nome do livro lembra uma obra citada em Josué 10:13 e 2 Samuel 1:18. As citações bíblicas não demonstram que o relato medieval seja aquela obra antiga.

Estrutura e temas

Os 91 capítulos podem ser lidos em oito partes: 1–7, das primeiras gerações ao dilúvio; 8–25, de Abrão a seus filhos; 26–40, de Isaque e Jacó aos conflitos em Canaã; 41–58, de José à morte de Jacó e às disputas posteriores; 59–71, do crescimento de Israel no Egito à juventude de Moisés; 72–80, da fuga de Moisés à libertação; 81–87, do mar à morte de Moisés; 88–91, das campanhas de Josué aos primeiros conflitos após sua morte. A divisão acompanha mudanças de geração e de cenário, sem atribuir ao autor títulos que ele não forneceu.

Cinco temas dão unidade a esse percurso. A violência entre irmãos aparece na morte de Abel (1:25) e na venda de José (42:1). A sobrevivência de uma família ameaçada se vê na saída da arca (6:40) e na libertação da escravidão (80:63). A fidelidade de Abraão é posta à prova quando recebe uma ordem relativa a Isaque (23:1). A rivalidade entre povos prolonga a rivalidade familiar depois da morte de Jacó (57:1). Por fim, a posse da terra exige combate e obediência, como mostram as campanhas de Josué e a resistência que continua após sua morte (88:65; 91:1). O texto desenvolve esses temas contando episódios, sem apresentar uma exposição sistemática.

Resumo por partes

1–7: A história começa com a criação de Adão e Eva, sua expulsão do jardim e o nascimento dos primeiros filhos. Caim mata Abel depois de uma disputa que a narrativa descreve com mais detalhes que Gênesis. As gerações seguintes incluem Enoque, cuja vida recebe atenção especial, e chegam a Noé. A corrupção da terra prepara o dilúvio; Noé constrói a arca, enfrenta a zombaria dos contemporâneos e entra nela com a família e os animais. Depois que as águas baixam, todos saem e a humanidade recomeça a se espalhar por meio dos filhos de Noé. Genealogias e nomes de povos completam a passagem do primeiro casal a um mundo novamente habitado. O percurso junta juízo, preservação e transmissão da vida (1:25; 6:40).

8–25: O nascimento de Abrão desperta receio na corte de Nimrode, e sua infância é narrada com episódios ausentes da breve história bíblica. Adulto, ele se opõe aos ídolos e enfrenta o rei; a prisão e a ameaça do fogo acentuam o conflito entre o patriarca e o poder local. A família parte, Abrão chega a Canaã e participa de guerras envolvendo reis vizinhos. As cidades de Sodoma recebem histórias extensas sobre injustiça e violência antes de sua destruição. Ismael e Isaque entram na sequência familiar; a ordem de oferecer Isaque leva Abraão e o filho ao monte, até que a ação é interrompida. A morte de Sara, seu sepultamento e os anos finais de Abraão fecham esse longo ciclo. As ampliações ligam escolhas familiares a destinos coletivos (8:1; 12:1; 23:1).

26–40: Rebeca dá à luz Esaú e Jacó, e a disputa pela primogenitura marca a casa de Isaque. Já idoso e com a visão enfraquecida, Isaque prepara uma bênção; Jacó a recebe e precisa partir diante da reação de Esaú. Na casa de Labão, trabalha, casa-se e forma uma família numerosa. Ao regressar, teme o reencontro com o irmão, mas consegue atravessá-lo. A violência praticada contra Diná em Siquém leva Simeão e Levi a atacar a cidade. O relato amplia as consequências: seus irmãos enfrentam uma série de reis e cidades cananeias, com combates que ocupam vários capítulos. Jacó também recebe a ordem de voltar a Betel. Assim, uma história doméstica passa a incluir migração, alianças instáveis e guerras regionais (29:1; 34:1; 36:1).

41–58: José, afastado pelos irmãos, é vendido e conduzido ao Egito. A família sente sua ausência, enquanto ele passa pela casa de seu senhor, pela prisão e finalmente pela corte do faraó. A fome força os irmãos a procurar alimento no Egito sem reconhecer o homem que os interroga. José testa sua atitude para com Benjamim; Judá intervém quando o irmão mais novo parece condenado a permanecer ali. A identidade de José é revelada, e Jacó viaja para rever o filho. Depois de viver no Egito, Jacó morre e é levado para sepultamento em Canaã. O livro não encerra aí as tensões da família: relata novos enfrentamentos entre os descendentes de Jacó e os de Esaú. A reconciliação de José convive com outras disputas pela herança (42:1; 48:1; 54:1).

59–71: Uma lista recorda as famílias israelitas que chegaram ao Egito. Após a morte de José, a relação com os egípcios piora, e o trabalho imposto aos israelitas torna-se severo. O relato intercala essa opressão com acontecimentos em Edom e em reinos vizinhos, seguindo uma cronologia que liga povos distintos. Na família de Amrão, nasce Moisés em meio às ameaças contra crianças hebreias. Ele é preservado e criado no ambiente da corte. Uma cena de sua infância põe à prova se um gesto diante do faraó foi deliberado; a escolha de uma brasa decide seu destino naquele momento. Já jovem, Moisés vê o sofrimento dos israelitas e mata um egípcio. A notícia chega ao faraó, levando-o a fugir. O crescimento do libertador ocorre, assim, sob o mesmo poder que oprime seu povo (59:28; 65:38; 70:26).

72–80: Fugindo do Egito, Moisés atravessa conflitos de outros povos. A narrativa o leva à terra de Cush, onde participa de uma guerra, alcança a realeza e mais tarde deixa o trono. Esses episódios ampliam muito o intervalo entre sua fuga e sua vida em Midiã. Depois, enquanto cuida do rebanho de Reuel, recebe a missão de voltar ao Egito. A corte resiste à exigência de libertar os israelitas, e sinais e pragas acompanham o confronto. A saída finalmente ocorre, mas os capítulos também seguem acontecimentos de outros reinos e a sucessão dos governantes egípcios. Quando os israelitas partem, levam consigo os restos de seus antepassados. O retorno de Moisés une sua trajetória errante à memória da família que fora ao Egito gerações antes (72:42; 79:1; 80:63).

81–87: Os israelitas deixam Ramessés, chegam ao mar e veem o exército egípcio aproximar-se. Moisés os exorta a permanecer firmes; a travessia permite que escapem. A marcha passa por lugares de falta de água e de combate até o Sinai. Ali, a entrega da Lei é seguida pela fabricação do bezerro e pela reação de Moisés. O relato prossegue com a construção do santuário, a investidura dos sacerdotes, rebeliões e novas etapas no deserto. Inclui a morte de Arão, conflitos com povos vizinhos e preparativos para entrar em Canaã. Já perto do fim, Moisés entrega a Josué a responsabilidade de conduzir o povo e morre. A geração que saiu do Egito dá lugar à que atravessará o Jordão (81:32; 82:19; 87:1).

88–91: Josué assume a liderança e conduz a travessia do Jordão. Jericó cai; depois de um revés em Ai, o grupo identifica a transgressão atribuída a Acã. A guerra contra os amorreus inclui o dia prolongado pela intervenção divina. O capítulo seguinte apresenta um cântico de Josué e prossegue com campanhas e distribuição da terra. Mais tarde, o líder reúne Israel para insistir na observância da Lei e morre; também se relata o sepultamento dos ossos trazidos do Egito. O último capítulo continua além de Josué: Judá e Simeão combatem cananeus, e a casa de José toma Betel. A conclusão afirma o cumprimento da promessa territorial, mas reconhece que ainda há resistência na terra. Por isso, a chegada não elimina imediatamente os conflitos (88:65; 89:1; 90:47; 91:1).

Edições e recepção

A Jewish Encyclopedia registra uma edição hebraica em Nápoles, em 1552, seguida por Veneza, em 1625, e muitas reimpressões. Há divergência bibliográfica sobre a primeira impressão: Edward J. Brandt observa que os repertórios por ele consultados tomavam Veneza como a primeira edição. Em ambos os casos, a testemunha acessível é uma obra hebraica impressa, não um manuscrito antigo recuperado em Jerusalém; a história dessa descoberta pertence aos prefácios e não fornece proveniência verificável. A tradução inglesa publicada em Nova York em 1840, associada a Moses Samuel como tradutor e a Mordecai M. Noah como editor, difundiu os 91 capítulos. Sua numeração de capítulos e versículos não corresponde a divisões antigas das edições hebraicas.

O livro foi lido como expansão narrativa judaica, mas não integra o cânon da Bíblia hebraica nem os cânones bíblicos católico e protestante. A obra antiga citada em Josué e 2 Samuel continua sendo uma questão separada. Leitores cristãos posteriores se interessaram pela versão inglesa; Brandt documenta sua circulação entre santos dos últimos dias, sem que o livro tenha se tornado escritura canônica desse grupo. É prudente ler as cenas adicionais como tradições interpretativas: elas esclarecem como autores posteriores imaginaram lacunas da narrativa bíblica, mas não são testemunho independente dos acontecimentos atribuídos aos patriarcas ou a Moisés.

Fontes

Dossiê

Uma recontagem contínua da história de Israel, de Adão aos juízes, cheia de episódios que a Bíblia não conta: a juventude de Abraão, as guerras de Jacó, a vida de Moisés antes do Egito.

De onde vem este texto

É preciso separar duas coisas. A Bíblia cita duas vezes um Livro do Justo — em Josué 10:13 e em 2 Samuel 1:18 — e esse livro está perdido, sem nenhum vestígio. O texto que se lê hoje com esse nome é o Sefer haYashar, uma obra hebraica medieval, impressa pela primeira vez em Veneza em 1625, traduzida para o inglês em 1840. Há ainda uma falsificação inglesa de 1751 que também usou o nome.

Por que não está na Bíblia

Fora de todos os cânones, e não poderia ser diferente: a compilação que temos é de mais de mil anos depois do fechamento das listas. O interesse dela é outro — é um panorama da tradição judaica narrativa, reunindo lendas que circulavam havia séculos.

O que você vai encontrar

  • Abraão contra Nimrod, e a fornalha de tijolos que os servos mantêm acesa noite e dia para lançá-lo dentro.
  • A vida de Moisés entre a fuga do Egito e o retorno, com um reinado na Etiópia que nenhum livro bíblico menciona.
  • As guerras dos filhos de Jacó contra os cananeus, contadas em detalhe militar.
  • A morte de Esaú e o acerto de contas final entre as duas linhagens.

Perguntas frequentes

O Livro de Jasher é o livro citado na Bíblia?
Não. O livro mencionado em Josué 10:13 e 2 Samuel 1:18 está perdido. O texto conhecido hoje como Livro de Jasher é o Sefer haYashar, compilação hebraica medieval impressa em 1625 — outra obra, com o mesmo nome.
O Livro de Jasher é confiável historicamente?
Como registro do período que narra, não. Como testemunho da tradição narrativa judaica medieval — o que se contava sobre os patriarcas fora do texto bíblico — é uma fonte rica.

Leia também

↑ Voltar aos capítulos