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Autoria, data e contexto
A compilação patrística de Fragmentos de Papias e Quadrato reúne os testemunhos literários remanescentes de duas das personalidades mais arcaicas do cristianismo pós-apostólico. Papias, bispo de Hierápolis na Frígia e companheiro de Policarpo de Esmirna, redigiu por volta de 110 a 130 d.C. sua obra em cinco livros intitulada Exposição dos Oráculos do Senhor (Logion Kuriakon Exegesis). Por sua vez, Quadrato de Atenas, reconhecido por Eusébio de Cesareia como ouvinte dos apóstolos, compôs a mais antiga apologia cristã conhecida, entregue pessoalmente ao imperador Adriano em Atenas por volta de 124 ou 125 d.C.
Ambos os autores floresceram na Ásia Menor e na Grécia durante as primeiras décadas do segundo século, enfrentando o desaparecimento gradual das testemunhas oculares de Jesus e a necessidade urgente de registrar a autenticidade dos relatos evangélicos frente ao helenismo imperial.
Estrutura
O corpus organiza-se na tradição editorial da patrologia (notadamente nas coleções de Martin Routh e Philip Schaff) em onze capítulos ou fragmentos numerados.
Os fragmentos 1 a 10 recolhem as citações de Papias preservadas por Ireneu de Lião, Eusébio e cronistas bizantinos: o fragmento 1 contém o célebre prólogo sobre a tradição oral viva e as origens de Marcos e Mateus; o fragmento 2 relata prodígios apostólicos e a imunidade ao veneno; os fragmentos 3 e 4 transmitem a escatologia milenarista da fecundidade cósmica; os fragmentos 5 a 7 abordam a morte de Judas Iscariotes e o martírio apostólico; e os fragmentos 8 a 10 coligem notas teológicas sobre a criação e os parentescos evangélicos. O fragmento 11 coroa o conjunto com a única passagem sobrevivente da Apologia de Quadrato, extraída da História Eclesiástica de Eusébio (livro IV, capítulo 3).
Temas e passagens-chave
Os eixos teológicos centram-se na transmissão da memória apostólica por meio de cadeias vivas de discipulado, nas primeiras notas históricas sobre a redação dos Evangelhos de Marcos (intérprete de Pedro) e Mateus (dialeto hebraico), no milenarismo quiliástico e na historicidade incontestável dos milagres de Jesus atestada por testemunhas que sobreviveram até a era antonina.
Defendendo a superioridade do contato direto com os presbíteros em Hierápolis, Papias escreveu, na tradução inglesa da New Advent: "For I imagined that what was to be got from books was not so profitable to me as what came from the living and abiding voice" (o que se tirava dos livros não lhe era tão proveitoso quanto a voz viva e permanente).
Resumo por partes
A voz viva e a origem dos Evangelhos (fragmentos 1-2): Papias explica que inquiria viajantes sobre as palavras dos apóstolos André, Pedro, Filipe, Tomé, Tiago, João e Mateus, detalhando que Marcos anotou com exatidão as pregações de Pedro sem ordem cronológica, enquanto Mateus coligiu os oráculos em hebraico.
Esperança milenarista e o destino de traidores (fragmentos 3-7): Registra-se a profecia sobre vinhas cósmicas com miríades de ramos e grãos de trigo abundantes no reino messiânico terrestre, ao lado de crônicas severas sobre o fim corrupto de Judas Iscariotes e milagres de ressurreição operados pelas filhas de Filipe.
Ordem da criação e genealogias bíblicas (fragmentos 8-10): Escólios posteriores citam Papias descrevendo a designação dos anjos sobre o governo terreno, sua queda espiritual e a distinção genealógica das quatro Marias mencionadas nos Evangelhos.
A apologia de Quadrato aos poderosos (fragmento 11): Quadrato assevera ao césar romano que as obras miraculosas do Salvador eram sólidas e perenes, pois pessoas curadas de enfermidades incuráveis e ressuscitadas da morte continuaram vivendo por anos, sobrevivendo alguns até os seus próprios dias.
Recepção
Embora os cinco livros de Papias fossem lidos até o século treze em mosteiros medievais (com registro de catálogo em Nîmes em 1218), a obra perdeu-se quase integralmente, em parte devido à desconfiança de Eusébio e teólogos alexandrinos contra o seu quiliasmo literal. A apologia de Quadrato também desapareceu após a citação triunfal feita por Eusébio.
Martin Joseph Routh reuniu meticulosamente esses testemunhos dispersos em sua obra Reliquiae Sacrae (1814-1846), base para as edições consagradas de J. B. Lightfoot (The Apostolic Fathers) e a tradução em língua inglesa de Alexander Roberts e James Donaldson publicada na coleção de Edimburgo.
Fontes
- Alexander Roberts; James Donaldson, Fragments of Papias (Ante-Nicene Fathers, Vol. 1) (1885).
- Francis Gigot, Quadratus (The Catholic Encyclopedia, Vol. 12) (1911).