E que há para admirar se o apetite natural da alma de fruir a formosura é mitigado e subjugado?
2Por esta causa, certamente, louvamos o virtuoso José, porque mediante a sua Razão, com esforço espiritual, reprimiu o impulso carnal; pois ele, sendo ainda jovem na idade em que o desejo físico é mais ardente, extinguiu pela Razão o ímpeto de suas paixões.
3E demonstra-se que a Razão subjuga não somente o estímulo da concupiscência carnal, senão também toda espécie de cobiça.
4Porque diz a Lei: «Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo».
5Em verdade, quando a Lei nos prescreve não cobiçar, confirma mui poderosamente, a meu ver, o argumento de que a Razão é capaz de refrear os desejos cobiçosos, assim como domina as paixões que pelejam contra a justiça.
6De que outro modo poderia o homem, glutão, avarento e bebedor por inclinação, ser ensinado a transformar o seu costume, se a Razão não fosse manifestamente senhora das paixões?
7Certamente, logo que um homem pauta a sua vida segundo a Lei, se é avarento, age contra a sua própria inclinação, emprestando ao necessitado sem usura, e perdoando a dívida a cada período de sete anos.
8E se é apegado aos bens, é subjugado pela Lei mediante a ação da Razão, abstendo-se de rebuscar as suas espigas caídas e de colher os derradeiros cachos de suas vinhas.
9E em tudo o mais podemos reconhecer que a Razão se assenta como soberana senhora sobre os afetos e paixões.
10Porque a Lei sobrepuja a afeição devida aos pais, de modo que ninguém renuncie à virtude por amor deles; e prevalece sobre o amor da esposa, para que o varão a repreenda se ela prevaricar; e governa o afeto para com os filhos, para que os castigue se procederem mal; e refreia os vínculos da amizade, para que admoeste os amigos se praticarem o mal.
11E não julgueis coisa estranha que a Razão, guiada pela Lei, possa sobrepujar até mesmo o ódio, de modo que o homem se abstenha de cortar as árvores frutíferas do inimigo, resguarde dos salteadores os bens de quem lhe é adverso, e ajunte o que se lhe havia extraviado.
12E o império da Razão manifesta-se igualmente eficaz contra as paixões mais arrogantes e nocivas, quais sejam a ambição, a vaidade, a jactância, a soberba e a maledicência.
13Porque a mente comedida e prudente repele todas essas vis afeições, assim como repele a ira, porquanto sobrepuja até a esta.
14Por certo, Moisés, quando se irou contra Datã e Abirão, não deu largas à sua indignação, mas sujeitou a sua ira ao governo da Razão.
15Porque a mente moderada é capaz, como declarei, de alcançar a vitória sobre as paixões, abrandando a umas e prostrando a outras de todo.
16Por que outra causa o nosso sábio pai Jacó censurou as famílias de Simeão e Levi pelo insensato extermínio dos siquimitas, exclamando: «Maldito seja o seu furor!»?
17Porque, se a Razão não tivesse poder para refrear a fúria deles, não teria ele falado de tal modo.
18Porquanto, no dia em que Deus criou o homem, implantou nele as suas paixões e inclinações; e, no mesmo instante, entronizou o entendimento sobre os sentidos, a fim de lhe ser guia sagrado em todas as coisas; e ao entendimento outorgou a Lei, pela qual, se o homem governar a si próprio, reinará sobre um império moderado, justo, virtuoso e valoroso.
19Pois bem, perguntará porventura alguém: se a Razão é senhora das paixões, por que razão não vence o esquecimento e a ignorância?
20Mas tal objeção é sumamente ridícula; porque a Razão não se demonstra senhora sobre as deficiências de sua própria substância, senão sobre as que procedem do corpo.
21Por exemplo, nenhum de vós é capaz de extirpar de si a concupiscência natural, mas a Razão pode livrar o homem de tornar-se escravo da concupiscência.
22Nenhum de vós pode desarraigar da alma a ira, todavia é possível que a Razão lhe venha em socorro contra a ira.
23Nenhum de vós pode aniquilar o ânimo malévolo, mas a Razão pode ser-lhe poderoso aliado para não deixar-se dobrar pela malevolência.
24Pois a Razão não é a desarraigadora das paixões, mas a sua justa antagonista e dominadora.