LUX VERITAS

Biblioteca de Textos Sagrados

Apócrifos

História de José

O Carpinteiro

32 capítulos · leitura e narração

Nota de leitura

Texto apócrifo ou pseudepígrafo — não faz parte do cânone das igrejas ocidentais, mas circulou amplamente entre judeus e cristãos antigos. Texto em inglês: Ante-Nicene Fathers, vol. 8 (Buffalo: Christian Literature Publishing Co., 1886), History of Joseph the Carpenter, Alexander Walker, 1886 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: Ante-Nicene Fathers, vol. 8 (Buffalo: Christian Literature Publishing Co., 1886), History of Joseph the Carpenter, Alexander Walker (1886) · domínio público

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Autoria, data e transmissão

A História de José, o Carpinteiro não identifica um autor histórico verificável. O prólogo afirma que Jesus contou a história aos apóstolos no monte das Oliveiras e que eles a conservaram numa biblioteca em Jerusalém (1:1). Essa é a moldura que o próprio escrito reivindica, não uma confirmação independente de autoria apostólica. M. R. James considerou a obra egípcia, posterior ao século IV e provavelmente ainda mais tardia; não fixou um ano de composição. A narrativa pressupõe leitores cristãos familiarizados com Maria, Jesus e a expectativa de julgamento após a morte. Seu interesse principal é a partida de José e a comemoração de sua memória, como indica tanto a abertura quanto a promessa de celebração anual perto do fim (26:1; 30:1).

A transmissão também exige cautela. James descreveu uma forma completa em copta boárico e outra em árabe, além de fragmentos em copta saídico. O catálogo de Tony Burke registra manuscritos, edições e relações com outras narrativas da infância; entre as edições está a do texto árabe publicada por Antonio Battista e Bellarmino Bagatti em 1975. Alin Suciu editou e estudou um fragmento saídico hoje conservado na coleção da Duke University. A presença atual de um manuscrito numa biblioteca não demonstra onde foi redigido o original. Os trinta e dois capítulos apresentados aqui permitem acompanhar a obra do prólogo à conversa final, mas sua divisão em versículos é a da edição do site: o primeiro capítulo tem dois versículos e os demais têm um cada.

Estrutura e temas

A narrativa avança em seis movimentos: 1–4 apresentam a fala de Jesus, a primeira família de José e a chegada de Maria; 5–11 contam a concepção, o nascimento, a fuga, o retorno e a vida da casa; 12–17 acompanham o aviso da morte, a oração, a doença e as palavras de José; 18–24 descrevem a agonia, a proteção de sua alma e a reação da família; 25–29 narram o luto público, as promessas memoriais e o sepultamento; 30–32 retomam o diálogo entre Jesus e os apóstolos. Esses intervalos cobrem todos os capítulos disponíveis. O centro da obra é a morte de José, preparada por uma biografia que explica por que ele é chamado de pai de Jesus dentro do relato.

Há pelo menos seis temas recorrentes. A moldura apostólica apresenta a narração como ensinamento de Jesus (1:1; 30:1). A família anterior de José fornece a explicação narrativa para os irmãos e irmãs de Jesus (2:1; 11:1). A escolha de Maria por sorteio e o cuidado com Tiago ligam José ao templo e à casa (4:1). Seu ofício e seu sustento pelo trabalho aparecem antes e depois da fuga (2:1; 9:1). O medo da morte e do julgamento move a oração e o lamento de José (13:1; 16:1). Por fim, anjos acompanham sua alma e a lembrança anual é ligada a doações aos necessitados (23:1; 26:1). São afirmações internas da obra, não dados biográficos confirmados por registros contemporâneos.

Resumo por partes

1–4: O prólogo informa a idade atribuída a José e a data de sua morte, e apresenta a história como fala de Jesus preservada pelos apóstolos. Na cena do monte das Oliveiras, Jesus anuncia sua própria morte e ressurreição, fala de arrependimento e julgamento e prepara os ouvintes para a história de seu pai terreno. José é descrito como homem de Belém, sacerdote e carpinteiro, anteriormente casado e pai de quatro filhos e duas filhas. Depois da morte da esposa, continua a exercer o ofício. Maria, criada no templo, chega à idade em que os sacerdotes decidem confiá-la a um homem considerado justo. Um sorteio escolhe José. Em sua casa, ela passa a cuidar de Tiago, ainda entristecido pela perda da mãe; daí vem, segundo o relato, a designação de Maria como mãe de Tiago. A narrativa situa essa convivência antes da concepção de Jesus (1:1; 2:1; 4:1).

5–11: Jesus, como narrador, atribui sua concepção à ação divina. Ao encontrar Maria grávida, José pensa em afastá-la discretamente; um sonho com Gabriel o tranquiliza, e ele a recebe. A ordem de recenseamento leva a família a Belém, onde o nascimento é situado numa gruta perto do túmulo de Raquel. A ameaça de Herodes provoca a viagem ao Egito, acompanhada por Salomé. Depois da morte do governante, a família volta a Nazaré, e José se sustenta pela carpintaria. O texto então antecipa sua idade final de cento e onze anos e afirma que ele conservou por muito tempo a força física. Alguns filhos já formaram suas próprias casas, enquanto Judas e Tiago continuam com José, Maria e Jesus. A cena doméstica termina com Jesus dizendo que chamava Maria de mãe e José de pai e lhes obedecia. Esse bloco combina episódios de infância com um retrato de convivência familiar (5:1; 8:1; 11:1).

12–17: Um anjo avisa José de que sua morte está próxima. Ele vai ao templo em Jerusalém e pede a Deus que Miguel acompanhe sua alma, que os seres hostis não a detenham e que seus pecados não sejam expostos no julgamento. De volta a Nazaré, adoece gravemente; o narrador recapitula a duração de seu primeiro casamento e os anos ligados à chegada de Maria e ao nascimento de Jesus. No dia indicado para sua morte, José perde o gosto pela comida e a capacidade de trabalhar. Seu lamento percorre os membros do corpo e suas faltas, tornando concreto o medo da prestação de contas. Quando Jesus se aproxima, José recorda a suspeita inicial sobre a gravidez de Maria e a mensagem angélica que a dissipou. Ele também lembra um menino morto após a mordida de uma serpente e devolvido à vida por Jesus. O capítulo termina com um pedido de perdão e proteção (12:1; 13:1; 17:1).

18–24: Maria procura Jesus ao perceber a agonia de José. Ele responde que a mortalidade alcança todos, inclusive sua mãe e, quanto ao corpo, ele próprio. Juntos, observam os sinais físicos do fim: José já não consegue falar, suas mãos precisam de amparo e os pés esfriam. Os filhos são chamados e choram com Maria e Jesus. A narrativa então personifica a Morte, acompanhada por forças ameaçadoras; Jesus as afasta e pede ao Pai que envie Miguel, Gabriel e outros anjos. Os mensageiros envolvem a alma de José e a conduzem em segurança, enquanto a família ainda não sabe que ele morreu. Jesus fecha os olhos do corpo e anuncia aos presentes o descanso de José. A passagem reúne cuidado familiar, temor da separação entre corpo e alma e esperança de vida futura. Sua descrição dos anjos pertence ao universo religioso do texto, não a um relato observável dos últimos momentos de José (18:1; 21:1; 23:1).

25–29: O lamento atrai moradores de Nazaré e da Galileia. O corpo recebe unguentos, e Jesus manda anjos envolvê-lo em vestes luminosas. Em seguida promete que não se corromperá e associa a memória anual de José a ofertas, comida para pobres, viúvas e órfãos, água oferecida em seu nome e cópias da própria história. Essas promessas mostram que a devoção a José é um objetivo explícito da narrativa. Quando os presentes tentam preparar o sepultamento, não conseguem retirar o tecido aderido ao corpo. José é levado a uma gruta para ser colocado junto de seus antepassados. Antes da deposição, Jesus chora e discursa sobre a morte ligada à transgressão de Adão, acrescentando que também ele morrerá segundo a carne. O sepultamento encerra a biografia e repete a idade e a data atribuídas a José (25:1; 26:1; 29:1).

30–32: Os apóstolos retomam a palavra e perguntam por que José, embora justo e chamado de pai de Jesus, não foi preservado da morte como Enoque e Elias. A pergunta explicita a dificuldade que o próprio relato criou ao celebrar José e, ao mesmo tempo, contar sua morte. Jesus responde que a condição mortal decorrente da desobediência de Adão também alcançará aqueles dois personagens. Segundo a resposta, eles voltarão no fim dos tempos e serão mortos pelo Anticristo. A última pergunta pede os nomes de quatro vítimas; Jesus enumera Enoque, Elias, Schila e Tabita. O texto termina com louvor a Deus. Essa conclusão retorna ao cenário de instrução anunciado na abertura: a história familiar serve para discutir morte, justiça e esperança, e a celebração anual de José já fora pedida aos discípulos. O desfecho é uma expectativa interna da obra, não uma cronologia histórica comprovada (30:1; 31:1; 32:1).

Recepção e limites da leitura

A História de José, o Carpinteiro pertence à literatura cristã apócrifa e não integra o cânon do Novo Testamento. James relacionou a obra ao interesse egípcio pela festa de José; a insistência do próprio texto em ofertas e celebração anual confirma que sua memória ocupa lugar central. Burke documenta testemunhos em copta e árabe e aponta relações com o Protoevangelho de Tiago e outras tradições da infância. A edição estudada por Suciu mostra que fragmentos saídicos também fazem parte dessa história textual. As versões transmitidas não devem ser confundidas com uma ata dos apóstolos: essa atribuição é uma estratégia narrativa do prólogo. Do mesmo modo, a idade de cento e onze anos, os nomes dos filhos e o destino da alma são elementos da história conforme seus narradores cristãos os apresentaram. Ler os trinta e dois capítulos juntos permite perceber tanto o relato familiar inicial quanto seu objetivo principal, a morte e a comemoração de José.

Fontes

Dossiê

A morte de José contada por Jesus aos discípulos no monte das Oliveiras: a idade, o medo, o que ele disse no fim e quem estava ao lado da cama.

De onde vem este texto

Copta e árabe, dos séculos IV a VII d.C., com origem provável no Egito. O texto teve uso litúrgico ligado à festa de José.

Por que não está na Bíblia

Fora dos cânones. É literatura devocional tardia, feita para uma festa e uma comunidade específicas.

O que você vai encontrar

  • Dá a José cento e onze anos e uma primeira esposa com filhos, resolvendo à sua maneira a questão dos irmãos de Jesus.
  • A cena da morte é longa e concreta: o corpo esfriando dos pés para cima, o medo dos anjos que vêm buscar.
  • Jesus chora e reza pelo pai adotivo, e Maria fala pouco.

Perguntas frequentes

Quantos anos José tinha quando morreu?
Este texto diz cento e onze anos. Nenhum evangelho canônico informa a idade de José nem narra sua morte.

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