LUX VERITAS

Biblioteca de Textos Sagrados

Apócrifos

Natividade de Maria

Nascimento da Virgem

10 capítulos · leitura e narração

Capítulos

Nota de leitura

Texto apócrifo ou pseudepígrafo — não faz parte do cânone das igrejas ocidentais, mas circulou amplamente entre judeus e cristãos antigos. Texto em inglês: Ante-Nicene Fathers, vol. 8, The Gospel of the Nativity of Mary (Buffalo: Christian Literature Publishing Co.), Alexander Walker, 1886 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: Ante-Nicene Fathers, vol. 8, The Gospel of the Nativity of Mary (Buffalo: Christian Literature Publishing Co.), Alexander Walker (1886) · domínio público

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Autoria, data e contexto

O Evangelho da Natividade de Maria (De Nativitate Mariae) é uma narrativa apócrifa latina composta na Europa ocidental durante o renascimento carolíngio (século IX), com forte probabilidade atribuída ao monge e teólogo beneditino Paschásio Radberto de Corbie (c. 790-865 d.C.). Na tradição manuscrita medieval, a obra circulava encabeçada por um intercâmbio epistolar pseudepigráfico atribuído a São Jerónimo, que afirmava ter traduzido o texto a partir de um original hebraico do apóstolo São Mateus a pedido dos bispos Cromácio de Aquileia e Heliodoro de Altino.

O escrito nasceu como uma depuração teológica e estilística do mais antigo Evangelho do Pseudo-Mateus (século VI), o qual, por sua vez, derivava do Protoevangelho grego de Tiago (século II). O redator latino buscou suprimir episódios excessivamente fantasiosos e detalhes chocantes do texto anterior, elaborando uma composição reverente, sóbria e harmonizada com a ortodoxia da Igreja ocidental, destinada a promover a virgindade perpétua de Maria e a devoção à sua santidade imaculada desde as origens.

Estrutura

O livro compreende dez capítulos dispostos em ordem cronológica contínua, narrando a genealogia, os prodígios e as provães que culminaram no nascimento do Salvador.

O capítulo 1 apresenta a estirpe davídica de Joaquim e Ana, sua caridade tripartida e a provão de vinte anos de matrimônio infecundo. O capítulo 2 relata a afronta sofrida por Joaquim no Templo perante o sumo sacerdote Issacar na festa da dedicação e seu retiro desolado para os pastos desérticos. O capítulo 3 contém a aparição do anjo do Senhor a Joaquim, lembrando as mães estéreis de Israel e anunciando o nascimento de Maria e o sinal da Porta Dourada. O capítulo 4 registra a teofania angélica correspondente a Ana em Jerusalém. O capítulo 5 descreve o encontro comovido dos esposos na Porta Dourada, o regresso ao lar e o nascimento de Maria. O capítulo 6 detalha a subida autônoma da menina pelos quinze degraus do Templo aos três anos e sua consagração sacerdotal. O capítulo 7 aborda seu voto virginal aos catorze anos e a consulta divina do sumo sacerdote para acolhê-la num matrimônio tutelar. O capítulo 8 narra o prodígio da vara florida e da pomba celeste que designou o ancião José como guardião esponsal. O capítulo 9 estampa a Anunciação do arcanjo Gabriel a Maria em Nazaré e o consentimento virginal. O capítulo 10 conclui a história com o dilema moral de José diante da gravidez visível, a revelação angélica em sonho e a natividade de Cristo em Belém.

Temas e passagens-chave

Sobressaem a consagração absoluta e perpétua da virgindade de Maria no santuário, a concepção de sua mãe como dádiva providencial operada por Deus para demonstrar que o fruto sagrado procede da graça e não da concupiscência carnal, e a figura de São José retratado como guardião ancião e casto da honra da Mãe do Messias.

Ao inaugurar o louvor solene das origens da Virgem no pórtico do primeiro capítulo, o apócrifo registra: "The blessed and glorious ever-virgin Mary, sprung from the royal stock and family of David, born in the city of Nazareth, was brought up at Jerusalem in the temple of the Lord."

Resumo por partes

A Esterilidade Provada e o Opróbrio de Joaquim (capítulos 1-2): Joaquim de Nazaré e Ana de Belém servem a Deus repartindo seus rendimentos entre o Templo, os pobres e o sustento caseiro; ao comparecer com ofertas nas solenidades de Jerusalém, Joaquim é repelido asperamente pelo pontífice Issacar por não possuir descendência, refugiando-se em lágrimas entre os rebanhos distantes.

A Revelação Angélica e a Concepção Sagrada (capítulos 3-5): O anjo celeste assegura a Joaquim e a Ana que a esterilidade histórica é superada pela onipotência divina, exemplificada em Sara e Raquel; os esposos abraçam-se em ação de graças junto à Porta Dourada, gerando a filha cujo nome é fixado por ordem celeste como Maria.

A Educação no Templo e a Escolha de José (capítulos 6-8): Conduzida ao santuário aos três anos de idade, a menina ascende sem auxílio os quinze degraus dos salmos graduais e ali cresce visitada por anjos; ao completar catorze anos, reafirma seu voto de virgindade, levando o sacerdote a consultar o oráculo divino, que ordena a reunião dos varões de Davi, escolhendo José após sua vara brotar flores e acolher a pomba divina.

A Anunciação e o Nascimento em Belém (capítulos 9-10): Gabriel ilumina o aposento galileu de Maria e explica a concepção imaculada pelo poder do Altíssimo; de volta da Judeia, José percebe a gravidez aos três meses e cogita abandoná-la privadamente, mas é tranquilizado por visão celestial em sonho, assumindo a guarda da Virgem até o parto messiânico em Belém.

Recepção

O texto exerceu influência monumental na piedade popular, na literatura mariana e na iconografia artística do Ocidente medieval. Suas narrativas foram amplamente incorporadas no Speculum Historiale de Vicente de Beauvais e na festejada Legenda Áurea de Tiago de Varazze no século XIII, tornando-se a matriz visual predileta de grandes mestres da pintura gótica e renascentista (como Giotto na Capela Scrovegni, Frei Angelico, Ticiano e Rafael) para ilustrar os temas dos Esponsais da Virgem e da Apresentação no Templo.

Embora rejeitado pelo cânon bíblico oficial e destituído de valor histórico primordial pela crítica patrística, o escrito consolidou no calendário litúrgico ocidental a solenidade da Natividade da Virgem Maria e a memória de seus santos pais Joaquim e Ana. Sua transmissão consolidou-se em inúmeros códices latinos, sendo editado por Constantin von Tischendorf em Evangelia Apocrypha (1853 e 1876) e publicado em língua inglesa por Alexander Walker no oitavo volume da biblioteca Ante-Nicene Fathers (1886).

Fontes

Dossiê

Uma versão curta e organizada do nascimento de Maria, escrita para leitura litúrgica, sem os episódios mais estranhos das fontes que a originaram.

De onde vem este texto

Latim medieval, derivado do Pseudo-Mateus e, através dele, do Protoevangelho de Tiago. Circulou muito por ter sido incluído na Legenda Áurea.

Por que não está na Bíblia

Apócrifo em todas as tradições.

Datação, manuscritos e recepção

O Livro da Natividade de Santa Maria (Libellus de Nativitate Sanctae Mariae) nasceu de uma operação editorial: reuniu os doze primeiros capítulos do Evangelho de Pseudo-Mateus, com trechos dos evangelhos de Lucas e de Mateus. Não se sabe ao certo quando se separou de Pseudo-Mateus; a estimativa é de por volta do ano 1000, e a primeira referência conhecida está num sermão de Fulberto de Chartres.

A obra foi muito popular. Rita Beyers catalogou mais de 150 manuscritos, o que a coloca entre os apócrifos marianos mais copiados da Idade Média latina. O que os evangelhos canônicos dizem sobre o nascimento e a infância de Maria é muito pouco, e foi esse espaço que o texto veio ocupar.

O que você vai encontrar

  • É a versão mais enxuta da história de Ana e Joaquim, feita para ser lida em voz alta: quarenta dias de jejum no deserto e o lamento em casa.
  • Joaquim, o homem rico que oferecia em dobro, e Ana, que se lamentava sozinha — o texto alterna entre os dois até o anúncio.
  • A promessa de Maria ao templo e a escolha de José pelo sinal da vara.

Perguntas frequentes

Este texto é diferente do Protoevangelho de Tiago?
É uma reescrita latina posterior, mais curta e sem as cenas que a igreja ocidental achava problemáticas, como a prova da virgindade feita por Salomé.

Fontes

  • B. W. Hawk, The Gospel of Pseudo-Matthew and the Nativity of Mary, Westar Tools and Translations 8 (Eugene: Cascade Books, 2019).
  • R. Beyers, Libri de Nativitate Mariae: Libellus de Nativitate sanctae Mariae, Corpus Christianorum Series Apocryphorum 10 (Turnhout: Brepols, 1997).
  • J. K. Elliott, The Apocryphal New Testament (Oxford: Clarendon Press, 1993).

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