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Autoria, data e contexto
O Livro de Baruque é atribuído historicamente a Baruque, filho de Nerias, secretário e colaborador imediato do profeta Jeremias no exílio da Babilônia no século sexto a.C. No entanto, a crítica bíblica contemporânea, representada por exegetas como J. J. Kneucker, Emil Schürer e Crawford Howell Toy, identifica a composição como uma compilação de múltiplos estratos redigida entre o período macabaico (século II a.C.) e o primeiro século da era cristã.
A primeira porção em prosa (1:1 a 3:8) reflete forte coloração hebraica original, ao passo que as seções sapienciais e líricas (3:9 a 5:9) e a epístola apensa (capítulo 6) apresentam afinidades estilísticas com o grego alexandrino. O pano de fundo comunitário evoca a dispersão judaica, buscando reinterpretar a destruição de Jerusalém e reafirmar a fidelidade à Torá em ambiente gentílico adverso.
Estrutura
Na tradição canônica católica da Vulgata Latina, o volume abrange exatamente seis capítulos, distribuídos harmonicamente em quatro unidades literárias autônomas.
A introdução histórica e a grande confissão litúrgica de pecados dos deportados ocupam de 1:1 a 3:8. Segue-se o sublime poema sapiencial (3:9 a 4:4), que exalta a Sabedoria divina manifestada exclusivamente na Lei outorgada a Israel. O terceiro segmento (4:5 a 5:9) reúne quatro cânticos de consolação profética à personificada mãe Jerusalém e antecipa o retorno triunfante de seus filhos dispersos. Por fim, o capítulo 6 incorpora a denominada Epístola de Jeremias, uma sátira contundente e autônoma contra a nulidade e o desamparo dos ídolos babilônicos de ouro, prata e madeira.
Temas e passagens-chave
As teses mestras gravitam em torno da justiça retributiva de Deus frente à infidelidade nacional, da personificação da Sabedoria na Lei mosaica e da esperança inabalável na restauração messiânica de Sião. O capítulo derradeiro desmascara a futilidade das estátuas pagãs, incapazes de respirar, defender templos de saqueadores ou socorrer os necessitados.
Em célebre formulação do capítulo três interpretada cristologicamente pelos antigos doutores da Igreja, declara-se: 'Depois disto ela apareceu sobre a terra e conversou com os homens.'
Resumo por partes
Introdução e penitência babilônica (capítulos 1:1-3:8): Baruque lê o livro perante o rei Jeconias cativo; os exilados choram, jejuam, recolhem ofertas para o culto em Jerusalém e recitam uma comovente confissão coletiva de transgressões aliançais, suplicando o perdão celestial.
O louvor da Sabedoria incriada (capítulos 3:9-4:4): Interroga-se por que Israel envelhece em terra estranha e aponta-se que os poderosos e gigantes faleceram sem encontrar a ciência; o Criador, conhecendo todos os caminhos da luz, confiou a Sabedoria a Jacó sob a forma da Torá vivificante.
Alento e triunfo de Sião (capítulos 4:5-5:9): Jerusalém chora como viúva desolada pelo cativeiro dos rebentos, mas recebe a ordem de enxugar o pranto, vestir mantos de glória e contemplar os exilados que regressam coroados de esplendor divino desde o oriente até o poente.
A Epístola de Jeremias contra os falsos deuses (capítulo 6): Advertem-se os deportados contra a opulência dos ídolos forjados por ourives babilônicos, pontuando que deuses cobertos de poeira e corroídos por vermes são incapazes de proferir justiça ou resguardar suas próprias coroas.
Recepção
O texto foi incorporado na Septuaginta grega e proclamado deuterocanônico e inspirado pelo Concílio de Trento (1546), confirmando deliberações anteriores dos concílios de Hipona (393), Cartago (397) e Florença (1442). No cânon hebraico massorético e nas denominações protestantes reformadas, a obra permaneceu classificada como apócrifo veterotestamentário.
Patristas insignes como Ireneu de Lião, Clemente de Alexandria e Cipriano citavam frequentemente suas passagens sob a designação genérica de Jeremias. Manuscritos célebres como o Codex Vaticanus e o Codex Alexandrinus atestam sua leitura litúrgica contínua nas liturgias do Oriente e do Ocidente.
Fontes
- Francis Gigot, Book of Baruch (The Catholic Encyclopedia) (1907).
- Crawford Howell Toy, Baruch, Book of (The Jewish Encyclopedia) (1902).