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Autoria, data e contexto
O Primeiro Livro dos Macabeus (1 Macabeus) foi redigido originalmente em hebraico por um autor judeu anônimo da Palestina, profundo conhecedor da topografia da Judeia e partidário da dinastia asmoneia. Embora o texto hebraico original tenha se perdido, sua existência é comprovada pelas construções hebraicas literais subjacentes à versão grega da Septuaginta e pelos testemunhos explícitos de Orígenes (que registra o título transliterado Sarbeth Sarbanaiel) e de São Jerônimo, que atesta no Prologus Galeatus ter encontrado o livro em hebraico.
A composição situa-se cronologicamente entre o final do século II a.C. e o início do século I a.C., após a morte de João Hircano I (104 a.C.) ou durante os seus últimos anos de governo, e impreterivelmente antes da intervenção romana de Pompeu em Jerusalém em 63 a.C., dado o tom abertamente favorável à aliança com Roma no capítulo 8. A obra reflete a resistência judaica contra a política de helenização forçada imposta pelo rei selêucida Antíoco IV Epifânio e a consolidação do Estado nacional sob a liderança sacerdotal e militar dos irmãos macabeus.
Estrutura
A obra compõe-se de dezesseis capítulos organizados em ordem estritamente cronológica, cobrindo o período de 175 a.C. a 134 a.C. (da ascensão de Antíoco IV até a morte de Simão Macabeu e o início do sacerdócio de João Hircano).
O texto divide-se em quatro unidades históricas principais: o prólogo helenístico e o levante inicial de Matatias em Modin (capítulos 1 e 2); as façanhas militares, a purificação do Templo e a liderança de Judas Macabeu (capítulos 3 a 9:22); a liderança diplomática e militar de Jônatas como sumo sacerdote e estrategista (capítulos 9:23 a 12:53); e a administração soberana de Simão, com a libertação fiscal da Judeia e sua confirmação dinástica pela Grande Sinagoga, concluindo com o atentado em Jericó e a ascensão de João Hircano (capítulos 13 a 16).
Temas e passagens-chave
Os temas fundamentais da obra incluem a fidelidade intransigente à Lei mosaica e à Aliança, a santidade do Templo de Jerusalém, o heroísmo patriótico e a legitimação do sacerdócio e da soberania da família asmoneia como instrumentos da providência divina na libertação de Israel.
Notavelmente, o autor evita mencionar os nomes diretos de Deus ou Senhor no texto grego mais antigo, recorrendo por reverência a substitutos como Céu. Na exortação testamentária de Matatias aos seus filhos em Modin, destaca-se o imperativo da valentia pela Lei divina em 2:64: Seja forte, portanto, meu filho, e mostre-se um homem em defesa da Lei.
Resumo por partes
A crise helenizante e o início da revolta (capítulos 1-2): Antíoco Epifânio saqueia o Templo de Jerusalém, decreta a apostasia forçada e profana o altar com a abominação da desolação; em Modin, o sacerdote Matatias mata um idólatra e o comissário real, refugia-se nas montanhas com seus cinco filhos e organiza guerrilhas até falecer.
Campanhas e consagração de Judas Macabeu (capítulos 3 a 9:22): Judas assume o comando, derrota generais selêucidas em Bete-Horom e Emaús, reconquista Jerusalém e purifica o Templo instituindo a dedicação de oito dias; após expedições para resgatar judeus na Galileia e em Gileade, Judas renova tratados diplomáticos e tomba valentemente na batalha de Elasa contra Báquides.
O governo e a diplomacia de Jônatas (capítulos 9:23 a 12:53): Jônatas assume o comando militar no deserto, explora rivalidades civis entre pretendentes ao trono selêucida, é nomeado sumo sacerdote por Alexandre Balas, estabelece embaixadas em Roma e Esparta, mas é capturado traiçoeiramente por Trifão em Ptolemaida.
A independência alcançada por Simão e o epílogo (capítulos 13 a 16): Simão consolida o território, expulsa a guarnição selêucida da fortaleza de Acra e obtém isenção tributária para a Judeia; o povo e os sacerdotes decretam Simão príncipe e sumo sacerdote hereditário até que surja um profeta fidedigno; após repelir a invasão de Cendebeu, Simão é assassinado por seu genro Ptolomeu, sucedendo-lhe seu filho João Hircano.
Recepção
O historiador Flávio Josefo utilizou 1 Macabeus como fonte primária e fidedigna em suas Antiguidades Judaicas (livros 12 e 13). Apesar de sua matriz hebraica, o livro não foi mantido no cânon rabínico judaico estabelecido no final do primeiro século d.C., embora a memória histórica da restauração do Templo permaneça celebrada no festival de Chanucá.
Na tradição cristã, o livro foi acolhido no cânon deuterocanônico pela Igreja Católica (confirmado solemnemente no Concílio de Trento) e pelas Igrejas Ortodoxas Orientais, enquanto as igrejas da Reforma Protestante o classificam na seção dos Apócrifos. O texto subsistiu na Septuaginta através dos códices unciais Sinaiticus, Alexandrinus e Venetus, bem como na versão da Vetus Latina acolhida na Vulgata e na versão siríaca Peshitta.
Fontes
- Florentine Bechtel, The Books of Machabees (The Catholic Encyclopedia, Vol. 9) (1910).
- Peter Kirby (ed.) / James King West; David A. deSilva, 1 Maccabees (Early Jewish Writings) (2013).