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Autoria, data e contexto
O Segundo Livro dos Macabeus (2 Macabeus) não é uma continuação cronológica do Primeiro, mas um relato independente redigido diretamente em grego helenístico por um compilador anônimo (o epitomador). No próprio prólogo do livro (2:23), o autor declara expressamente que sua obra é um resumo (epítome) em um único volume da volumosa história em cinco volumes composta por Jasão de Cirene, um judeu helenístico da Diáspora norte-africana que conhecia profundamente os acontecimentos da Judeia.
Quanto à cronologia, os cinco livros de Jasão foram compostos provavelmente entre 160 e 130 a.C., logo após as campanhas de Judas Macabeu. A redação da epítome situa-se entre 124 a.C. (ano expressamente datado da primeira carta introdutória enviada aos judeus do Egito) e 63 a.C. (antes da conquista de Jerusalém por Pompeu), com alguns eruditos estendendo o limite até meados do século I d.C. O contexto histórico visa encorajar a Diáspora judaica no Egito a manter a fidelidade estrita à Lei e ao Templo de Jerusalém, celebrando a festa da Dedicação (Chanucá).
Estrutura
O livro compõe-se de quinze capítulos distribuídos em uma introdução documental com prólogo editorial, seguida da narrativa histórica dos acontecimentos entre 176 a.C. e 161 a.C., encerrando-se com um epílogo.
A obra estrutura-se em cinco seções orgânicas: duas cartas de judeus de Jerusalém exortando os judeus do Egito a celebrar a Dedicação do Templo e o fogo sagrado recuperado por Jeremias (1:1 a 2:18); o prólogo do epitomador definindo a tarefa do historiador e o método de abreviar a obra de Jasão de Cirene (2:19-32); a tentativa profana de Heliodoro no sacerdócio de Onias III (3:1 a 4:6); a apostasia de Jasão e Menelau, a perseguição de Antíoco IV, os martírios heroicos de Eleazar e dos sete irmãos com sua mãe, e a revolta vitoriosa de Judas Macabeu com a purificação do Templo (4:7 a 10:9); e as campanhas contra Antíoco V Eupátor e Demétrio I, culminando na derrota definitiva e decapitação do blasfemo general Nicanor, seguida pelo epílogo reflexivo do autor (10:10 a 15:39).
Temas e passagens-chave
Diferenciando-se da sobriedade política de 1 Macabeus, 2 Macabeus enfatiza a teologia da retribuição, a intervenção angélica sobrenatural, a oração e o sacrifício expiatório pelos mortos (12:43-46), a comunhão e intercessão celestial dos santos profetas Onias e Jeremias (15:12-16) e a fé inabalável na ressurreição corporal dos justos.
Em 7:28, a mãe dos mártires formula com clareza pioneira a intuição da criação a partir do nada ao exortar seu filho mais novo: Eu te suplico, meu filho, contempla o céu e a terra, e repara em tudo o que neles existe, e reconhece que Deus os fez não a partir de coisas existentes.
Resumo por partes
Correspondência com o Egito e prólogo do epitomador (capítulos 1-2): Os líderes de Jerusalém enviam cartas exortando os correligionários egípcios a guardar a festa dos Tabernáculos do mês de Quislev (Dedicação) e relatam a preservação milagrosa do fogo do Templo escondido pelo profeta Jeremias; o epitomador explica o esforço intelectual de condensar os cinco volumes de Jasão de Cirene.
A proteção divina do Templo contra Heliodoro (capítulos 3 a 4:6): O ministro sírio Heliodoro tenta confiscar os depósitos de órfãos e viúvas no santuário, mas é aterrorizado e prostrado por uma aparição celestial de um cavaleiro com armadura de ouro ladeado por dois jovens resplandecentes, sendo salvo pela intercessão do sumo sacerdote Onias III.
Helenização corrupta, profanação e martírios (capítulos 4:7 a 7:42): Os ímpios Jasão e Menelau compram o pontificado introduzindo costumes gentílicos; Antíoco Epifânio saqueia o Templo e ordena ritos pagãos sangrentos; o ancião Eleazar aceita a flagelação até a morte para não fingir comer carne suína, e uma nobre mãe assiste estoicamente ao suplício de seus sete filhos que professam fé na ressurreição eterna.
Restauração de Judas e libertação do santuário (capítulos 8 a 10:9): Judas reúne guerreiros devotos, aniquila contingentes de Nicanor, purifica o Templo no terceiro aniversário da profanação e institui a comemoração anual de oito dias; Antíoco IV morre miseravelmente consumido por vermes e dores atrozes nas entranhas.
Campanhas finais e vitória sobre Nicanor (capítulos 10:10 a 15:39): O exército macabeu rechaça ataques de generais selêucidas e governa com justiça; Judas tem uma visão animadora de Onias III e Jeremias entregando-lhe uma espada de ouro; o general Nicanor ameaça demolir o santuário, mas é desbaratado e executado, instituindo-se o Dia de Nicanor em treze de Adar.
Recepção
Na tradição judaica, os episódios dramáticos da obra alimentaram o folclore rabínico talmúdico sobre a mãe e seus sete filhos mártires (Miriã bat Tanhum) e as tradições festivas de Chanucá, muito embora o livro não tenha ingressado na Bíblia hebraica.
Na cristandade, 2 Macabeus foi integrado no cânon deuterocanônico da Igreja Católica no Concílio de Trento e nas Igreja Ortodoxas, sendo valorizado teologicamente pela doutrina da ressurreição da carne e pela oração em sufrágio das almas no purgatório (12:46), ponto que suscitou rejeição por parte de Martinho Lutero durante a Reforma Protestante. O texto grego subsiste nos códices Alexandrinus e Venetus (estando ausente do Sinaiticus) e na Vetus Latina da Vulgata.
Fontes
- Florentine Bechtel, The Books of Machabees (The Catholic Encyclopedia, Vol. 9) (1910).
- Peter Kirby (ed.) / James King West; J. Alberto Soggin; David A. deSilva, 2 Maccabees (Early Jewish Writings) (2013).