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Autoria, data e contexto
O Livro do Eclesiástico (designado em hebraico como Ḥokhmat ben Sira, 'A Sabedoria de Ben Sira'; em grego na Septuaginta como Sophia Iēsou hyiou Seirach, 'A Sabedoria de Jesus, Filho de Sira'; e no Ocidente latino como Liber Ecclesiasticus, 'Livro Eclesiástico' ou livro da assembleia) é a mais extensa obra sapiencial do Antigo Testamento. A autoria é atestada explicitamente no próprio texto (Eclo 50,27) e nos fragmentos hebraicos da Genizá do Cairo em nome de Jesus, filho de Eleazar, filho de Sira (Yeshua ben Sira), sábio e escriba jerosolimitano versado nas Escrituras ancestrais. Por volta de 132 a.C., no trigésimo oitavo ano do reinado de Ptolemeu VII Evérgeta II (Fícon), o neto do autor aportou em Alexandria, no Egito, e traduziu o compêndio original hebraico para o idioma grego, compondo o célebre prólogo descritivo que precede a obra.
A datação da composição hebraica original situa-se com segurança histórica entre 190 e 175 a.C., no período que antecedeu a perseguição religiosa de Antíoco IV Epifânio e a sublevação dos Macabeus. O ponto focal cronológico é o panegírico entusiasmado dedicado ao sumo sacerdote Simão II, filho de Onias (pontífice em Jerusalém c. 219–199 a.C.), cuja dignidade litúrgica e obras de restauração do santuário o autor presenciou pessoalmente. Embora uma minoria de exegetas tenha cogitado Simão I (c. 300 a.C.), a crítica textual moderna (representada por Israel Lévi, Crawford Howell Toy e Norbert Peters) converge para o início do século segundo a.C. O contexto histórico reflete a resistência cultural e doutrinária de Jerusalém contra o avanço das modas helenistas dos reinos ptolomaico e selêucida, contrapondo à filosofia grega a revelação sagrada da Aliança.
Estrutura
A obra articula-se em cinquenta e um capítulos canônicos, antecedidos pelo prólogo tradutório em língua grega e distribuídos em duas grandes seções doutrinárias complementares, rematadas por apêndices hímnicos.
A primeira seção (capítulos 1 a 42,14) constitui uma vasta coletânea de sentenças morais e instruções pedagógicas aplicadas à conduta da vida cotidiana, abordando honra filial, amizade sincera, prudência na língua, etiqueta social, educação familiar, equilíbrio nas refeições e deveres diante da pobreza e riqueza, entremeada por hinos solenes dedicados à essência e transcendência da Sabedoria. A segunda seção (capítulos 42,15 a 50,26) compõe-se de dois grandes ciclos celebrativos: a teofania da sabedoria cósmica na ordem da natureza criada (capítulos 42,15 a 43) e o grandioso 'Elogio dos Pais da Fé' (capítulos 44 a 50), desfilando os grandes vultos da história bíblica desde Henoc e os patriarcas até o sacerdócio esplendoroso de Simão II. O livro encerra-se (capítulo 51) com uma oração pessoal de gratidão pela libertação de ciladas mortais e um poema alfabético acróstico sobre a busca apaixonada da sabedoria.
Temas e passagens-chave
O pilar teológico e moral primordial de Ben Sira reside na equiparação perfeita entre a Sabedoria divina e a Torá de Moisés, postulando que o verdadeiro conhecimento de Deus se manifesta concretamente na observância reverente dos mandamentos da Lei e no temor do Senhor como princípio, plenitude e coroa da sabedoria humana.
Entre suas passagens mais célebres destacam-se a solene personificação da Sabedoria no capítulo vinte e quatro, em que ela declara ter procedido da boca do Altíssimo e recebido a ordem divina de fincar sua tenda perpétua em Sião e em Jerusalém (Eclo 24,1-23); as instruções sobre o respeito venerável aos pais que apaga pecados (Eclo 3,1-16); a clássica reflexão sobre a lealdade inabalável do amigo fiel comparado a um refúgio robusto e tesouro inestimável (Eclo 6,5-17); a afirmação taxativa do livre-arbítrio e da responsabilidade ética do homem, perante o qual estão postos a vida e a morte (Eclo 15,11-20); a teologia da profissão médica e dos remédios concedidos pela terra para benefício dos enfermos (Eclo 38,1-15); e o monumental hino que abre o memorial dos antepassados proclamando 'Elogiemos os homens ilustres e os nossos pais através das gerações' (Eclo 44,1).
Resumo por partes
Fundamentos da sabedoria e preceitos para o viver diário (capítulos 1 a 23): O autor estabelece que toda sabedoria promana de Deus e reside eternamente com Ele; instrui a alma a suportar a provação na adversidade, detalha a retribuição da piedade filial, recomenda a esmola aos desvalidos, desmascara a hipocrisia e a maledicência, e aconselha a vigilância dos sentidos, o comedimento nas assembleias e o repúdio intransigente à fornicação e à falsidade de palavra.
O hino cósmico da Sabedoria e deveres comunitários (capítulos 24 a 42,14): A Sabedoria relata seu papel criador e habitação sacra no santuário israelita, identificada formalmente com o Livro da Aliança; desenrolam-se máximas sobre a dignidade do matrimônio e a perfídia da má consorte, a equidade no comércio e nos empréstimos, a disciplina austera na criação dos filhos, o discernimento na medicina e na dor do luto, admoestando contra as ilusões da prosperidade ímpia.
A glória divina na criação e a linhagem dos patriarcas (capítulos 42,15 a 50): Descreve com esplendor poético o firmamento celeste, os raios do sol, a rotação das fases lunares, a tempestade de neve e as profundezas dos oceanos governados pela palavra do Criador; em seguida, entoa o hino laudatório dos ancestrais gloriosos de Israel, louvando Abraão, Moisés, Aarão e o pacto sacerdotal de Fineias, Josué, Davi e Salomão, até culminar na magnificência litúrgica de Simão II trajando as vestes sagradas no altar durante a festa.
Prece de salvação e exortação acadêmica (capítulo 51): Ben Sira compõe um salmo de ação de graças a Deus por tê-lo preservado de falsas acusações, armadilhas políticas e chamas devoradoras; anexa um poema de aprendizado espiritual conclamando os jovens a acolherem a instrução sem despesas e a colocarem seus ombros sob o jugo vivificante da sabedoria, afirmando que a busca diligente da virtude receberá sua recompensa final.
Recepção
No judaísmo rabínico clássico, o Livro de Ben Sira não foi incluído no cânon das Escrituras hebraicas. O rabino Aquiba (Talmude de Jerusalém, Sanhedrin 28a) e a Tosefta (Yadayim 2,13) consideraram-no livro exterior que 'não contamina as mãos'. Não obstante essa exclusão oficial, a obra manteve extraordinária veneração popular entre os mestres de Israel, sendo copiosamente citada como provérbio com fórmulas de autoridade bíblica no Talmude Babilônico (Bava Kama 92b, Sanhedrin 100b, Berachot 11b) e estudada por sábios medievais como Saadia Gaon no século X.
Na cristandade, o livro obteve acolhida imediata desde a época apostólica, influenciando passagens da Epístola de Tiago, a Didaquê (4,5) e a Epístola de Barnabé (19,9), sendo citado como Escritura inspirada por Clemente de Alexandria, Orígenes e Santo Agostinho. A canonicidade de Eclesiástico foi formalmente afirmada nos concílios ocidentais de Hipona (393), Cartago (397), Florença (1442) e solenemente ratificada pelo Concílio de Trento (1546) como livro deuterocanônico, ao passo que as igrejas reformadas o reservaram aos apócrifos úteis para edificação. A transmissão textual foi revolucionada a partir de 1896 pela descoberta de cerca de dois terços do texto hebraico original na Genizá do Cairo por Solomon Schechter, A. E. Cowley e Israel Lévi (manuscritos A, B, C, D, E e F), enriquecida subsequentemente por pergaminhos hebraicos fragmentários de Qumran (2Q18) e pelo rolo hebraico de Massada (capítulos 39 a 44).
Fontes
- Crawford Howell Toy; Israel Lévi, Sirach, The Wisdom of Jesus the Son of (Jewish Encyclopedia) (1906).
- Francis Gigot, Ecclesiasticus (Sirach) (Catholic Encyclopedia) (1909).
- Encyclopaedia Britannica Editors, Ecclesiasticus (Encyclopaedia Britannica) (2026).