LUX VERITAS

Biblioteca de Textos Sagrados

Antigo Testamento

Judite

Yehudit

16 capítulos · leitura e narração

Nota de leitura

Uma viúva entra sozinha no acampamento inimigo e volta com a cabeça do general. Narrativa de resistência que a tradição judaica preservou fora da Bíblia hebraica. Texto em inglês: King James Version, Apocrypha, King James Version translators, 1611 (domínio público). Português e espanhol: tradução do Lux Veritas a partir dessa edição.

Fonte: King James Version, Apocrypha, King James Version translators (1611) · domínio público

Conhecer o livro: contexto, autoria e temas ↓

Ouvir este estudo

 

Autoria, data e contexto

O Livro de Judite é obra de um autor judeu anônimo, cuja composição original se deu em hebraico, conforme atestado pelas construções sintáticas e hebraísmos manifestos na versão grega preservada pela Septuaginta. Entre os estudiosos há divergência considerável quanto à datação e ao cenário histórico: correntes tradicionais católicas, representadas por comentaristas como Calmet e Vigouroux, defendem a existência de um núcleo histórico real nos tempos do cativeiro do rei Manassés sob o domínio assírio de Assurbanípal no século VII a.C., interpretando Nabucodonosor como figuração imperial de monarcas orientais.

Em contrapartida, a crítica moderna e historiadores como Fritzsche, Ball e Torrey situam a redação no período asmoneu ou macabaico, por volta do final do século II a.C. ou início do século I a.C. Sob essa perspectiva, o relato reflete o patriotismo e a luta judaica contra a tirania helenística de Antíoco IV Epifânio, utilizando nomes babilônicos e persas para compor uma narrativa teológica de resistência centrada na praça-forte de Betúlia.

Estrutura

A narrativa desdobra-se em dezesseis capítulos, estruturados de maneira equilibrada em dois grandes atos de oito capítulos cada.

O primeiro ato (capítulos 1 a 7) desenvolve a ameaça imperial externa: relata a vitória de Nabucodonosor sobre Arfaxade, o envio do general Holofernes com um exército avassalador para castigar os povos ocidentais rebeldes, a advertência do amonita Aquior sobre a proteção divina a Israel, o cerco à cidade montanhosa de Betúlia e o desespero de seus moradores após o corte dos mananciais de água. O segundo ato (capítulos 8 a 16) introduz a heroína Judite: sua censura à fraqueza dos anciãos da cidade, sua oração fervorosa, a infiltração no arraial inimigo por meio de sua beleza e astúcia, o banquete e a decapitação de Holofernes em sua tenda, a fuga com a cabeça do general, o contra-ataque vitorioso de Israel e o cântico triunfal de louvor ao Altíssimo.

Temas e passagens-chave

O eixo teológico da obra assenta-se na confiança inabalável na soberania de Deus, que humilha a arrogância militar dos impérios mundiais valendo-se da fidelidade e fraqueza de uma mulher piedosa. O livro enfatiza a eficácia da oração, da mortificação e da observância estrita da Lei de Moisés, destacando como Judite manteve escrupulosamente a dieta pura e os ritos de ablução mesmo no interior do acampamento assírio.

Uma das passagens culminantes ocorre no capítulo 8, quando Judite reprova publicamente o governador Ozias e as autoridades de Betúlia por fixarem um prazo de cinco dias para Deus manifestar Seu socorro, declarando que os seres humanos não possuem a prerrogativa de impor prazos nem condicionar a clemência do Criador.

Resumo por partes

A marcha de Holofernes e o cerco de Betúlia (capítulos 1-7): Após triunfar sobre os medos, Nabucodonosor envia Holofernes para aniquilar as cidades que recusaram prestar vassalagem; enquanto nações costeiras se rendem, o povo de Israel ergue defesas nas passagens montanhosas da Judeia; informado pelo amonita Aquior de que os judeus são invencíveis a menos que pequem, Holofernes manda amarrá-lo às portas de Betúlia; os assírios ocupam as fontes de água e sitiam a praça-forte até que os habitantes esgotados exigem a rendição em cinco dias.

O estratagema de Judite e o golpe decisivo (capítulos 8-13): Judite, ilustre viúva conhecida por sua contínua oração e jejum, condena a presunção dos magistrados e promete salvar a cidade; após prostrar-se em súplica e perfumar-se com vestidos festivos, apresenta-se no posto avançado inimigo afirmando trazer informações seguras sobre a queda de Israel; deslumbrado por sua prudência e elegância, Holofernes oferece um banquete no quarto dia; vencido pelo excesso de vinho, o comandante adormece e Judite decepa-lhe a cabeça com a cimitarra do próprio general, guardando-a no saco de provisões e retornando a Betúlia.

Derrota dos invasores e exaltação de Deus (capítulos 14-16): Aquior reconhece a obra do Deus de Israel, professa a fé e recebe a circuncisão; com a cabeça do comandante exposta nos muros, as sentinelas de Betúlia atacam de surpresa, lançando o exército assírio em debandada caótica ao descobrir o cadáver no pavilhão real; Jerusalém e o sumo sacerdote Joaquim acolhem os vencedores com louvores, e Judite entoa um salmo lírico de agradecimento antes de passar seus dias em honra e paz até falecer aos cento e cinco anos.

Recepção

O Livro de Judite não foi acolhido no cânon estrito da Bíblia hebraica rabínica, embora relatos populares e versões poéticas aramaicas e hebraicas de sua proeza tenham sido preservados e associados à celebração de Chanucá. Na Igreja cristã primitiva, o texto figurou na Septuaginta grega e foi citado com veneração por Santo Clemente de Roma na Primeira Epístola aos Coríntios (capítulo 55), bem como por Clemente de Alexandria, Orígenes e Tertuliano.

São Jerônimo efetuou uma tradução abreviada do texto a partir de uma matriz caldaica para a Vulgata latina, mencionando a tradição de que os Padres no Concílio de Niceia teriam contado a obra entre as Sagradas Escrituras. A tradição católica e ortodoxa reconhece o livro como deuterocanônico, ratificado solenemente nos Concílios de Florença e Trento, ao passo que as confissões protestantes o colocam entre os apócrifos. O texto grego subsiste nos manuscritos unciais Codex Vaticanus, Codex Sinaiticus e Codex Alexandrinus.

Fontes

↑ Voltar aos capítulos