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Autoria, data e contexto
O Segundo Livro de Baruque, também denominado Apocalipse Sírio de Baruque, é uma obra pseudepigráfica atribuída tradicionalmente ao escriba Baruque, filho de Nerias, colaborador imediato do profeta Jeremias durante o cerco de Jerusalém e a tomada da cidade pelos babilônios no século VI a.C. A crítica histórica contemporânea, representada por Emil Schürer, R. H. Charles, A. F. J. Klijn e Leonhard Rost, estabelece que a obra é anônima e foi redigida originalmente em hebraico na Judeia ou Jerusalém, vertida para o grego antigo (atestado em fragmentos de Oxirrinco) e preservada integralmente apenas em língua siríaca.
Quanto à datação, o consenso acadêmico fixa a composição entre o desfecho da Primeira Guerra Judaico-Romana com a queima do Templo de Jerusalém em 70 d.C. e o início da revolta de Simão Barcoquebas em 132 d.C., com a maioria dos autores (como Leonhard Rost e Martin McNamara) situando-a em torno do ano 90 a 100 d.C. A obra reflete o ambiente rabínico-farisaico e a angústia teodiceica após a destruição da Cidade Santa, respondendo ao trauma da derrota mediante a afirmação de que foram anjos de Deus que derrubaram as muralhas antes da entrada dos inimigos e que a consumação final dos tempos aguarda o cumprimento da cota divina de almas.
Estrutura
A obra é composta canonicamente por oitenta e sete capítulos contínuos, estruturados por jejuns periódicos de sete dias e orações que introduzem novas revelações celestes.
Estudiosos como James H. Charlesworth e Raymond F. Surburg repartem o livro em sete unidades literárias sucessivas: o anúncio e o relato da destruição de Jerusalém (capítulos 1 a 12); o anúncio do julgamento iminente dos gentios (capítulos 13 a 20); o debate sobre a duração do mundo e a era messiânica (capítulos 21 a 34); a visão alegórica do bosque, da videira, da fonte e do cedro (capítulos 35 a 46); as dores escatológicas, a natureza corpórea da ressurreição e os destinos eternos (capítulos 47 a 52); a visão da nuvem que verte doze águas alternadas escuras e claras (capítulos 53 a 76); e as exortações finais de Baruque com a carta endereçada às nove tribos e meia na Diáspora (capítulos 77 a 87).
Temas e passagens-chave
Os pilares doutrinários concentram-se na teodiceia sobre a derrocada de Sião, na centralidade irrevogável da Torá como herança perene na ausência do culto sacrifical e na responsabilidade moral individual: Adão introduziu a mortalidade física no cosmos, mas cada ser humano é o Adão de sua própria alma.
Destacam-se também a doutrina do tesouro de almas (o fim dos tempos só se concretizará quando nascerem todas as almas estipuladas na criação), o advento do reino messiânico terrestre de fertilidade exuberante e a ressurreição física em duas etapas, na qual a terra restitui os mortos na mesma aparência física para mútuo reconhecimento antes da transfiguração dos justos em glória celestial.
Resumo por partes
A catástrofe de Sião e o lamento de Baruque (capítulos 1-12): Deus adverte Baruque sobre o castigo inevitável de Jerusalém e faz com que Jeremias parta para a Babilônia; no dia da invasão, anjos arrebentam as muralhas e ocultam os utensílios santos no seio da terra para que os invasores não se vangloriem; Baruque permanece em jejum sobre os escombros entoando elegias comovidas sobre o opróbrio da cidade.
Diálogos sobre a justiça e o tesouro das almas (capítulos 13-34): Após jejuar sete dias, Baruque interroga a razão da prosperidade dos ímpios pagãos frente ao sofrimento de Israel; o Senhor responde que a presente era é passageira e que o julgamento cósmico será inaugurado assim que o repositório celeste de almas geradas se esgotar, seguindo-se doze tribulações e o reinado triunfante do Ungido.
A visão da videira e do cedro romano (capítulos 35-46): Sentado nas ruínas, Baruque contempla uma torrente que devasta uma grande floresta e derruba um imenso cedro até conduzi-lo aos pés de uma videira viçosa; Deus elucida que os quatro impérios pagãos culminam em Roma, cujo último soberano será amarrado e executado pelo Messias no Monte Sião.
A ressurreição dos corpos e a visão das águas (capítulos 53-76): Em resposta a indagações sobre a vida póstuma, Deus esclarece que a terra devolverá os mortos exatamente como faleceram para comprovação de sua identidade, passando depois os justos a luz celestial e os pecadores a tormentos indeléveis; em seguida, o anjo Ramiel interpreta a visão da nuvem de doze águas escuras e claras como a marcha da história de Adão ao Segundo Templo, culminando no relâmpago salvador do Messias.
Admoestações e a epístola às tribos dispersas (capítulos 77-87): Baruque convoca os anciãos, consola o remanescente com a promessa de restauração eterna e despacha uma carta levada por uma águia às tribos exiladas além do Eufrates, exortando-as à estrita observância da Lei mosaica enquanto aguardam a redenção.
Recepção
No judaísmo antigo, a despeito de suas afinidades com os ensinamentos rabínicos e tradições do Pesikta Rabbati, 2 Baruque não foi incluído no cânon bíblico hebraico fixado pelas autoridades tannaíticas. No cristianismo, o livro completo não alcançou reconhecimento canônico nas tradições grega e latina, mas os capítulos finais epistolares (a Carta de Baruque, capítulos 78 a 87) foram acolhidos no cânon bíblico da Igreja Ortodoxa Siríaca e incorporados em lecionários e manuscritos da Peshitta.
O texto integral era conhecido historicamente apenas através de um único códice siríaco do século VI ou VII (Codex Ambrosianus B. 21 inf.), preservado na Biblioteca Ambrosiana de Milão, descoberto e traduzido para o latim por Antonio Maria Ceriani em 1866, com publicação do texto siríaco em 1871 e fac-símile em 1883. No século XX foram identificados dois fragmentos gregos do século IV ou V em Oxirrinco (P.Oxy. 403) e um manuscrito árabe integral no Mosteiro de Santa Catarina no Monte Sinai, consolidando edições críticas modernas de R. H. Charles (1896) e A. F. J. Klijn.
Fontes
- Crawford Howell Toy; Louis Ginzberg, Baruch, Apocalypse of (Syriac) (1906).
- Peter Kirby; A. F. J. Klijn; James H. Charlesworth; Emil Schürer; Leonhard Rost, 2 Baruch (Early Jewish Writings) (2013).