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Autoria, data e contexto
O Pastor de Hermas é uma das obras mais extensas e influentes do corpus dos Padres Apostólicos, redigida originalmente em língua grega em Roma. O autor apresenta-se como Hermas, um cristão liberto que vivia na capital imperial dedicado a pequenos negócios agrícolas e comerciais.
Quanto à autoria e datação, existem dois testemunhos históricos fundamentais. Orígenes e parte da tradição antiga associaram o escritor ao Hermas saudado pelo apóstolo Paulo em Romanos 16:14, sugerindo uma origem apostólica do século I. Todavia, a evidência interna e o testemunho contemporâneo do Fragmento Muratoriano (c. 170-200 d.C.), confirmado pelo Catálogo Liberiano, atestam que a obra foi composta em Roma durante o pontificado de seu irmão, o bispo São Pio I (aproximadamente entre 140 e 155 d.C.). Estudiosos modernos como Adolf von Harnack e Graydon F. Snyder propõem uma composição em estágios: as Visões I a IV teriam sido redigidas por volta de 100 a 110 d.C. sob o papa Clemente (mencionado expressamente na Visão II), enquanto as seções doutrinárias do Pastor e as Parábolas alcançaram redação final por volta de 140 d.C., para enfrentar a crise moral dos batizados e o desafio da heresia marcionita.
Estrutura
Nas edições críticas consagradas (como as de J. B. Lightfoot, Kirsopp Lake e da coleção Sources Chrétiennes), a obra organiza-se em uma numeração contínua de exatamente cento e catorze capítulos, agrupados em três partes temáticas sucessivas.
A primeira divisão abrange cinco Visões (capítulos 1 a 25), nas quais Hermas recebe revelações da Igreja personificada como uma matrona idosa que rejuvenesce à medida que os fiéis se convertem, culminando na apresentação do Anjo da Penitência sob a figura de um Pastor. A segunda seção compreende doze Mandamentos ou Preceitos morais (capítulos 26 a 49), contendo normas práticas de fé, castidade, veracidade, paciência e combate à dúvida. A terceira parte compõe-se de dez Parábolas ou Similitudes (capítulos 50 a 114), que ilustram mediante figuras alegóricas — como o olmo e a videira, as árvores no inverno e a monumental Torre da Igreja erguida sobre a rocha cósmica — o mistério da salvação, encerrando com o envio apostólico no capítulo cento e catorze.
Temas e passagens-chave
O tema teológico central é a proclamação da segunda penitência (metanoia), concedendo aos cristãos uma única oportunidade extraordinária de perdão e restauração na Igreja após os pecados graves cometidos depois do batismo. Destacam-se também a eclesiologia da Torre em construção, a denúncia das riquezas mundanas que sufocam a piedade, a exigência de pureza conjugal e a extirpação da dipsychia (a alma hesitante ou dúbia diante da fé).
Como alicerce inegociável de toda a conduta ética cristã, o primeiro mandamento proclama no início do capítulo vinte e seis da numeração contínua: "First of all, believe that there is one God, who created and finished all things."
Resumo por partes
As Visões da Igreja e o Pastor (capítulos 1-25): Hermas é confrontado em espírito pelo desejo passageiro que tivera em relação à sua antiga senhora Roda. A Igreja manifesta-se sob a forma de uma anciã enfraquecida pelas falhas dos crentes; ao longo de revelações sucessivas, ela rejuvenesce até mostrar-se como noiva gloriosa. Na célebre Visão da Torre, anjos talham pedras que simbolizam os batizados, rejeitando pedras fendidas que só poderão ser inseridas no edifício sagrado caso se arrependam antes da consagração final. Na quinta visão, o Anjo da Penitência surge trajado como pastor de ovelhas.
Os doze Mandamentos de vida cristã (capítulos 26-49): O Pastor estabelece as diretrizes da ética evangélica: crer no único Deus criador e praticar a caridade ingênua; cultivar a verdade e evitar a maledicência; preservar a castidade, obrigando o marido a readmitir a esposa adúltera arrependida; suportar as injúrias com mansidão e discernir os impulsos do anjo da justiça e do anjo da iniquidade; vencer a aflição e o ceticismo; e desmascarar os falsos profetas que mercadejam oráculos para satisfazer vaidades.
As dez Parábolas da salvação e da Igreja (capítulos 50-114): O Pastor elucida enigmas cósmicos: o rico assemelha-se ao olmo estéril que sustenta a videira fecunda do pobre, cuja oração compensa a indigência espiritual daquele; o jejum verdadeiro consiste em guardar a lei de Deus e repartir os alimentos economizados com viúvas e órfãos. Na extensa nona parábola, a Torre da Igreja é reexaminada a partir de doze montanhas da Arcádia que representam os diferentes povos convertidos a Cristo; o texto encerra com admoestações solenes no capítulo cento e catorze para que Hermas persevere em seu ministério profético de consolo aos redimidos.
Recepção
O Pastor de Hermas desfrutou de extraordinária veneração nos primeiros quatro séculos, sendo copiado no final dos manuscritos bíblicos do Novo Testamento, como no famoso Codex Sinaiticus (século IV) e no Codex Claromontanus. Teólogos de proa como Santo Irineu de Lião e Clemente de Alexandria citaram-no expressamente como Escritura divina, enquanto Orígenes asseverava que o texto era divinamente inspirado e de suma utilidade moral.
Com a fixação do cânon, Santo Atanásio recomendou o opúsculo para a instrução de catecúmenos, mas excluiu-o da Bíblia canônica (Carta Pascal 39, 367 d.C.). O historiador Eusébio e São Jerônimo catalogaram-no entre os livros disputados (antilegomena) ou apócrifos úteis para a piedade, lidos em público em certas regiões, mas sem autoridade dogmática. O texto grego sobreviveu no Codex Sinaiticus, no Codex Athous e em papiros egípcios, enquanto versões latinas antigas (a Vulgata e a Palatina) asseguraram sua vasta difusão monástica medieval no Ocidente, culminando na edição moderna padrão de J. B. Lightfoot em 1891.
Fontes
- John Chapman, Hermas (The Catholic Encyclopedia, Vol. 7) (1910).
- J. B. Lightfoot; Kirsopp Lake; Peter Kirby, The Shepherd of Hermas (The Apostolic Fathers / Early Christian Writings) (2026).